Ao piscar os olhos, a vista marejada esforçou-se para focalizar as mãos espalmadas sobre o colo. Elas abriram e fecharam duas vezes, em um tipo de teste de reflexo vitalício. Então, foram levadas ao rosto no primeiro momento em que a percepção desviou-se das linhas da palma das mãos, permitindo acordar para um sentido menos motriz e ainda mais vivo.
As mãos correram para as duas laterais salientes do rosto e constataram que a pele fina estava levemente áspera, iniciando um processo descamativo. O que levou as mãos às bochechas foi justamente o fato de que elas ardiam, e provavelmente estavam rosadas. O espelho na parede comprovou que as maçãs do rosto não poderiam ser melhores denominadas. Os tons variavam discretamente quando observados de longe, mas apresentavam traços em borrões que, de perto, deixavam longe a ideia de que os tons rosáceos mudavam em nuances discretos. Seguindo os nervos do rosto, a pele próxima à boca e abaixo dos olhos continuava branca, quase pálida, mostrando alguns pequenos vasinhos e poros levemente obstruídos. Mas, na faixa em forma de meia lua, contornando o maxilar, a pele ainda mais rúbea parecia crestada por um dia de sol intenso.
Os dedos indicadores e médios brincaram em forma de círculos pela vermelhidão na pele ressecada e chegaram juntos aos lábios. Cortado do lado esquerdo, o lábio inferior ainda continha resquícios da manteiga de cacau, a possível responsável pelo toque macio, disfarçando os pequenos machucados, das peles salientes que foram arrancadas com os dentes da frente. A temperatura em estado quase febril aumentava se os dedos tocassem o limite delicado entre os lábios e as partes internas da boca, já em contato com a saliva.
O dedo indicador direito passou pelos lábios, contornando a delicada curvatura que divide os dois lados do lábio, acompanhando a simetria pretendida pela natureza, em sua individual assimetria. Subiu pelo septo e, então, passou direito até o osso entre as sobrancelhas. Fez o caminho de volta, numa pequena montanha-russa, diminuindo a velocidade ao passar pelo osso saltado, em que os óculos apoiam-se, desde os quatro anos de idade.
O contato com a pele do terceiro olho, na altura do sexto chakra, revelou os pelos claros, como os do rosto todo, mas maiores e levemente mais grossos, como candidatos que não conseguiram chegar até as sobrancelhas. Deslizando pela sobrancelha esquerda, dois dedos da mão direita chegaram à delicada cicatriz na têmpora, fechada com a ação do tempo, conquistada cedo demais para levar pontos.
Caminhando pelas têmporas, passando acima das sobrancelhas, os dedos indicadores foram até o extremo superior do rosto e voltaram devagar, sentindo o calor brando em relação às bochechas. A pele quase uniforme da testa guarda pequenas bolinhas e leves marcas da oleosidade que obstruiu os poros anos atrás. A estreita área no osso frontal do crânio garante a característica familiar em que após três dedos de testa, o couro cabeludo toma conta em grande quantidade e volume.
As mãos, então, abriram-se espalmadas, novamente. Próximas ao rosto, na altura dos olhos. Cada um dos dedos se mexeu, em ordem ritmada, fingindo saber tocar acordes num piano de calda. Foi quando os dedos alvos, com as pontas em tons coral aproximaram-se ainda mais. As digitais apresentaram seus detalhes. Já não foi mais possível focalizar e rápidas sombras anunciaram a escuridão.
Em frente ao espelho, com as duas mãos cobrindo os olhos, a escuridão nunca foi tão clara. Sentir-se à beira do precipício é sentir o sangue correndo apressado, os músculos contraídos no impulso de fugir pelo mundo. Às vezes o paraíso é uma cidade fantasma.
Maravilhoso!