De olhos bem abertos
O amor toma conta de tudo quando você me olha nos olhos. É quando cada mililitro de sangue pulsa mais intenso, ao mesmo tempo em que a respiração se acalma. E mesmo que o mundo nos dê as costas, o nosso amor vira o nosso abrigo. Quando você me olha nos olhos e eu entendo cada palavra que eles querem dizer, é quando eu digo mais uma vez que tudo vale a pena.
Não que eu não goste quando você me olha nos olhos. Mas, quando te vejo dormindo, sem me olhar de volta, eu me sinto onde sempre quis estar. Na calma do seu colo, no calor do seu abraço, na tranquilidade de viver com você. É quando eu me lembro, mais uma vez, que quero viver assim pra sempre. E agora, que você chegue de olhos bem abertos e me diga que sim, será pra sempre.
Sobre o que nunca te contei
Aqui eu estou falando de amor. Não em ser o primeiro de tudo. A primeira troca de cartas não foi com você – troquei alguns papéis amassados e mal escritos na escola. A primeira imagem de futuro sonhado olhando para o lado de fora da janela do carro não foi sobre você. O primeiro presente ganhado não foi seu – antes, ganhei uma caixa amarela em forma de coração, nem sei porque mas amarelo era minha cor favorita. Você não foi o meu primeiro roqueiro – outras pessoas já sabiam tocar violão. E nem mesmo o primeiro beijo foi seu.
Mas, você foi o meu primeiro amor e com ele, muita dor. Foi com você minha primeira ansiosa troca de SMS. Você foi o meu primeiro par de olhos rasgados. E também o meu desejo diário. Minha primeira vontade de gritar pro mundo. Minha primeira vontade de ser uma pessoa incrível. E, minha primeira perda. Doeu, mas passou.
Mas, tem outra coisa que nunca te contei. E essa, você nem imagina. Na última vez em que nos vimos, tantos anos depois do furacão que você deixou em mim, eu não me preocupei com a sua presença. Gostei que você queria muito me ver, mas a reviravolta da vida era mais legal do que ter você cheio de boas intenções na minha frente. Enquanto você veio de longe, sozinho, cheio de inseguranças nos bolsos, eu não tinha nem mesmo ansiedade para te oferecer. E sabe o que mais? Essa nem é a grande novidade que eu tenho para te contar.
O que nunca te contei é que naquele dia, enquanto você tentava me agradar com os seus assuntos para alguém que eu não era mais, sem nem mesmo pretender, eu encontrei o amor. O primeiro grande, verdadeiro, vivido e compartilhado amor. Eu sei, você mal suspeitava. É porque eu também não sabia. Isso eu nunca te contei.
Mesmo tentando lembrar muito, não consigo ter certeza sobre como aquele dia terminou para nós. Se nos despedimos, se você foi embora primeiro, se alguém chegou para te fazer companhia enquanto eu sem querer troquei olhares com alguém a caminho do banheiro. Lembro que nunca mais respondi o último SMS que você me mandou e naquela noite, não quis passar meu número de telefone para mais ninguém. Mas, mesmo sem trocar número de telefone, eu já estava marcada pelo maior amor que já senti na vida. Aquele foi só o primeiro dia de tantos outros. Foi só o primeiro sorriso fácil. O primeiro pulsar intenso. O primeiro dia completo. Naquele dia, o último dia em que nos vimos, eu me abri para o amor. E isso, eu nunca te contei.
Sobre voltar a escrever
Tédio
Ligação
Originalmente publicado em 20 de agosto de 2010.
E eu não consigo parar de ver metáforas, afinal foi tudo realmente ordenado. Os verbos que, gramaticalmente, não representam nem efetuam ações são exatamente aqueles que tem feito tudo parecer virado ao contrário. E só por isso já utilizei inúmeros transitores de estados. As dúvidas ultrapassam o uso de acentos em ditongos abertos, e nem mesmo o dicionário consegue achar significados coerentes para cada raio de luz de nome desconhecido. As análises sintáticas não encontram o complemento nominal e eu nem insisto que o sujeito seja, por enquanto, oculto. Nada impede de ser inexistente ou simples. Simples.
Quando eu imagino que os domingos de tédio chegaram ao fim, vejo que os feriados prolongados são ilusórios e a voz reflexiva insiste em ecoar que eu pratiquei e recebi, sozinha, a ação de enganar-me. Ou mesmo quando eu penso ter encontrado um sentido pelo qual quero e preciso seguir, encontro a bifurcação da sinonímia: duas coisas podem ter o mesmo, ou aproximado, significado.
Eu também não sei nada disso. Mas sou constantemente tomada pela consciência de que preciso rascunhar e apagar o quanto for preciso. Já que uma folha sem palavras pode significar uma imensidão de palavras em potencial, ou fazer a vez de uma única: vazio.
Balão Azul
Não me lembro de ter tido um balão de gás hélio quando eu era criança, mesmo que provavelmente meus pais tenham me dado algum em forma de qualquer personagem colorido e com uma cabeça enorme. Mas se eu me lembrasse, provavelmente seria por segurar forte o cordão que o prende dentro da atmosfera. Apertando os dedos contra a palma da mão, até os dedos ficarem vermelhos, com o medo de deixa-lo partir. Voar sem destino, desregrado, sem ter como voltar pra casa.
Foi quando aos vinte anos me vi ganhando um grande balão azul. Quando eu digo grande é porque é grande de verdade. Do tipo que se abraça sem jeito, sem comportá-lo direito nos braços. Talvez ele fosse um balão branco, com detalhes em azul. Mas o branco, por ser tão branco, passa batido. Era um grande balão azul.
Mas não se tratava de um balão redondo, oval ou em forma de um simples balão. Meu grande balão azul era nada menos que um unicórnio, por mais que tenham insistido em dizer que não passava de um cavalo. Cavalos tem a crina penteada, escorrida e lisa. Meu unicórnio tinha o que faz dos cavalos unicórnios: uma protuberância, logo acima da cabeça, pouco pontuda, mas em espiral, caracolando suas voltas que se estendem às pontas da crina, em tons dois tons mais claros. Alguns dos cachos ainda se repetem no rabo, que não cai como o de um cavalo e sim se levanta em uma curva delicada. Se for como o que dizem sobre os cachorros, esse é um unicórnio sorridente.
Sua cabeça branquinha é vencida pela vivacidade dos dois grandes olhos, que brilham arredondados em azul turquesa. Seu pequeno nariz, e o traço que guarda sua boca são pequenos detalhes perto das tiras de sua sela, também azuis, com pedrinhas rosas e amarelas. Estendendo-se pelo pescoço, em forma de um xale com franjinha macia nas pontas, o arreio acolchoado amacia-se no dorso do unicórnio. Com borda dourada, a sela continua cravejada em suas extremidades, com dois grandes pompons de franja robusta, com fios dourados e pouco despenteados por natureza, pela normalidade de um unicórnio que flutua em sua pureza contraditoriamente forte. Sua patas, congeladas num movimento delicado são também brancas, com cascos brilhantes como anil.
Era um grande balão azul. Maior que uma criança de cinco anos de idade, mas com força que diriam ser de gente grande. Durou mais do que diriam, menos do que deveria. Como todo balão, ele também murchou aos poucos. Mas, por longos cinco dias ele preencheu o canto do meu quarto, perto da janela, refletindo o verde-água das paredes, brilhando com o sol. Sem fugir de mim no meio da tarde, ficou preso à escrivaninha que tantas vezes me debrucei para escrever sobre o amor e tantas outras coisas. Sobre o quanto eu queria ali, na vivacidade de um aniversário de vinte anos, ganhar um balão que preenche o quarto todo, a cada inteira e dá sentido a duas décadas de uma vida.
O vazio que ele deixou seria semelhante se tivesse explodido em seu segundo dia. Mas ele murchou, murchou, ficou fraco e começou a descer pelas paredes. Até que se deitou. Recolhi seu corpo então amolecido, mas não menos brilhante. Alisei com as duas mãos, até esvaziar-se por completo. Dobrei em quatro, afinal, um grande balão azul precisa de muito espaço para ser devidamente guardado. Então, guardei. No bagageiro do meu armário, junto com todas as outras lembranças que me trouxeram até aqui.
Ficou aqui o vazio, que nada pode preencher ou consertar. E mesmo a dor do vazio é remendada com amor, pelo sopro de esperança que preencheria o balão de novo, como antes. Segurei forte o cordão que prendia meu balão azul e ainda assim ele se foi. Mas, ele sabe o caminho da volta.
Cidade fantasma
Ao piscar os olhos, a vista marejada esforçou-se para focalizar as mãos espalmadas sobre o colo. Elas abriram e fecharam duas vezes, em um tipo de teste de reflexo vitalício. Então, foram levadas ao rosto no primeiro momento em que a percepção desviou-se das linhas da palma das mãos, permitindo acordar para um sentido menos motriz e ainda mais vivo.
As mãos correram para as duas laterais salientes do rosto e constataram que a pele fina estava levemente áspera, iniciando um processo descamativo. O que levou as mãos às bochechas foi justamente o fato de que elas ardiam, e provavelmente estavam rosadas. O espelho na parede comprovou que as maçãs do rosto não poderiam ser melhores denominadas. Os tons variavam discretamente quando observados de longe, mas apresentavam traços em borrões que, de perto, deixavam longe a ideia de que os tons rosáceos mudavam em nuances discretos. Seguindo os nervos do rosto, a pele próxima à boca e abaixo dos olhos continuava branca, quase pálida, mostrando alguns pequenos vasinhos e poros levemente obstruídos. Mas, na faixa em forma de meia lua, contornando o maxilar, a pele ainda mais rúbea parecia crestada por um dia de sol intenso.
Os dedos indicadores e médios brincaram em forma de círculos pela vermelhidão na pele ressecada e chegaram juntos aos lábios. Cortado do lado esquerdo, o lábio inferior ainda continha resquícios da manteiga de cacau, a possível responsável pelo toque macio, disfarçando os pequenos machucados, das peles salientes que foram arrancadas com os dentes da frente. A temperatura em estado quase febril aumentava se os dedos tocassem o limite delicado entre os lábios e as partes internas da boca, já em contato com a saliva.
O dedo indicador direito passou pelos lábios, contornando a delicada curvatura que divide os dois lados do lábio, acompanhando a simetria pretendida pela natureza, em sua individual assimetria. Subiu pelo septo e, então, passou direito até o osso entre as sobrancelhas. Fez o caminho de volta, numa pequena montanha-russa, diminuindo a velocidade ao passar pelo osso saltado, em que os óculos apoiam-se, desde os quatro anos de idade.
O contato com a pele do terceiro olho, na altura do sexto chakra, revelou os pelos claros, como os do rosto todo, mas maiores e levemente mais grossos, como candidatos que não conseguiram chegar até as sobrancelhas. Deslizando pela sobrancelha esquerda, dois dedos da mão direita chegaram à delicada cicatriz na têmpora, fechada com a ação do tempo, conquistada cedo demais para levar pontos.
Caminhando pelas têmporas, passando acima das sobrancelhas, os dedos indicadores foram até o extremo superior do rosto e voltaram devagar, sentindo o calor brando em relação às bochechas. A pele quase uniforme da testa guarda pequenas bolinhas e leves marcas da oleosidade que obstruiu os poros anos atrás. A estreita área no osso frontal do crânio garante a característica familiar em que após três dedos de testa, o couro cabeludo toma conta em grande quantidade e volume.
As mãos, então, abriram-se espalmadas, novamente. Próximas ao rosto, na altura dos olhos. Cada um dos dedos se mexeu, em ordem ritmada, fingindo saber tocar acordes num piano de calda. Foi quando os dedos alvos, com as pontas em tons coral aproximaram-se ainda mais. As digitais apresentaram seus detalhes. Já não foi mais possível focalizar e rápidas sombras anunciaram a escuridão.
Em frente ao espelho, com as duas mãos cobrindo os olhos, a escuridão nunca foi tão clara. Sentir-se à beira do precipício é sentir o sangue correndo apressado, os músculos contraídos no impulso de fugir pelo mundo. Às vezes o paraíso é uma cidade fantasma.
Mundo de roucos
(Texto cedido gentilmente por um grande amigo, que apelidei carinhosamente pelo pseudônimo Agenor Lebris. Obrigada pelo texto lindo e pela inspiração que é tê-lo como amigo!).
Foram tempos de agitação
De caras pintadas
E bombas na mão
De tiro e de espada
Amor e aflição
Vivia trancado
Com livros e não
Saía do quarto,
Cruzava o portão
Conhecia o mundo
Mas sem a intenção
De mudar o retrato
Daquela nação
Não via seriedade
Na conspiração
Ria de escárnio
Da revolução
Via você
E a procissão
Bloquear a avenida
Com bandeiras na mão
Trazia consigo
A mesma expressão
De quem todo dia
Matava um leão
De quem dava a vida
Por libertação
De quem quer o todo
E não um tostão
E há quem vá perguntar
Quem converteu
O cético prático, o cínico ateu
Em lucido tático, soldado plebeu
E vou dizer que
Você denunciou a praga
E me fez gemer
Mostrou a chaga
Me fazendo crer
Que o futuro um dia
Poderá valer
A pena que queima,
E vemos arder.
Justiça das mãos
Se faz sem recusa:
Direita em punho
Esquerda na sua
De dia na toca
De noite na rua
Na rua em que o silêncio
da separação perpetua
Quando se acorda
Também se assusta
E o fogo queimou
Uma pele nua
Perdido, sozinho
Pedindo ajuda
Seu sopro se foi
E acabou a disputa
Que dessa história não se façam livros
Livros amassam, livros viram mitos
Deixem que a boca distorça os fatos
Deixem a estrada afastar os contatos
A memória cuidará dos cacos
Porque fomos loucos
Metendo os pés
Na dança dos outros
Erguendo a voz
Num mundo de roucos.
Polaroides
Curiosamente adiantada, pela simplicidade de esperar alguém que chega depois, a batida do salto da bota compassava com a melodia de Justice, que ecoava nos fones de ouvido. Com a cabeça fora dali, os olhos acompanhavam o subir e descer dos carros, tentando adivinhar de qual deles sairia quem eu esperava. Com medo de não reconhecer, era melhor ficar ali, parada, esperando que alguém então viesse.
Nessa dezena de minutos, um senhor com uma bengala demorou metade desse tempo para atravessar a marquise, chegando ao meu lado na calçada. Olhei, acenei com a cabeça e sorri de canto de boca. Ele, então, quase como quem atravessou muralhas para chegar até ali, sentiu-se na missão de mostrar para que veio. E não veio à toa, veio à tona “Não é certo uma moça esperar por um rapaz”, a lição de moral guardava um certo riso simpático. “Às vezes a gente espera pelo o que nunca chega”. – Espero que chegue -, respondi por fim, sorrindo com a simpatia em primeiro plano.
E chegou. De jaqueta de couro, palavras de desculpa e elogios para a meia-calça de coração que parecia rins. Entre as paredes vermelhas e o corredor arredondado, ninguém mais parecia estar ali, fora de toda a metáfora para duas pessoas que esquecem do mundo – o mundo é que esqueceu de estar ali. Todos os comentários ecoavam, minha caneta rabiscava no papel e pela única vez senti que estava no lugar certo.
De volta às ruas que sobem e descem, outro senhor que ao invés da bengala, ocupava suas mãos dirigindo um táxi, questionou porque jovens casais saiam tanto sozinhos. – É, né -, respondi. Talvez eles não fossem casais, ou fossem jovens demais. Ou nem mais jovens fossem para serem casais, ou caso casais fossem para serem jovens, talvez fossem sozinhos por si só.
Falei até o que não queria sobre mim, num impulso em que barreiras se quebraram. Parecia que eu já havia estado naquele mesmo balcão, mas conversava com uma pessoa que, assim como uma caixa de surpresas, ainda havia muito pra me mostrar. E eu mal poderia imaginar todas as polaroides que viriam, depois daquela sintonia azul, e do beijo tranquilo.
Ainda um pouco bêbada e apressada, fui para casa sem as chaves. Achei graça em andar pelas ruas, em ter que tocar a campainha para alguém abrir. Achei graça em ir embora para depois voltar. – Às vezes a gente espera pelo o que nunca chega. Mas, às vezes a gente se espera, para ter de volta aquilo que chegou uma vez e virá ainda melhor.