Mundo de roucos

(Texto cedido gentilmente por um grande amigo, que apelidei carinhosamente pelo pseudônimo Agenor Lebris. Obrigada pelo texto lindo e pela inspiração que é tê-lo como amigo!).

Foram tempos de agitação
De caras pintadas
E bombas na mão
De tiro e de espada

Amor e aflição

Vivia trancado
Com livros e não
Saía do quarto,
Cruzava o portão
Conhecia o mundo
Mas sem a intenção
De mudar o retrato
Daquela nação
Não via seriedade
Na conspiração
Ria de escárnio
Da revolução

Via você
E a procissão
Bloquear a avenida
Com bandeiras na mão
Trazia consigo
A mesma expressão
De quem todo dia
Matava um leão
De quem dava a vida
Por libertação
De quem quer o todo
E não um tostão

E há quem vá perguntar
Quem converteu
O cético prático, o cínico ateu
Em lucido tático, soldado plebeu
E vou dizer que
Você denunciou a praga
E me fez gemer
Mostrou a chaga
Me fazendo crer
Que o futuro um dia
Poderá valer
A pena que queima,
E vemos arder.

Justiça das mãos
Se faz sem recusa:
Direita em punho
Esquerda na sua
De dia na toca
De noite na rua
Na rua em que o silêncio
da separação perpetua
Quando se acorda
Também se assusta
E o fogo queimou
Uma pele nua
Perdido, sozinho
Pedindo ajuda
Seu sopro se foi
E acabou a disputa

Que dessa história não se façam livros
Livros amassam, livros viram mitos

Deixem que a boca distorça os fatos
Deixem a estrada afastar os contatos
A memória cuidará dos cacos

Porque fomos loucos
Metendo os pés
Na dança dos outros
Erguendo a voz
Num mundo de roucos.

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