Eu acabara de deitar na cama, sentindo o espaço vazio entre o fim das meias e o punho das calças acostumando-se com o gelado do edredom. Posso jurar que mal tinha acabado de pegar no sono quando o som estridente recordou-me o que relutei a aceitar com bom humor: sete horas passaram-se enquanto eu estive no que, para o meu organismo preguiçoso, não passou de um ensaio sobre o sono. Não que eu seja uma pessoa amargurada que vê tons de cinza numa manhã precipitando um céu aberto. Apenas vivo num ciclo em que acordar, automaticamente, significa calcular cada um-minuto-qualquer-que-seja para cochilar durante o dia.
A consciência trôpega, que sempre me faz derrubar algum objeto ou chutar a ponta do tapete da sala nos primeiros minutos da manhã, despertou apressada quando recebeu o sinal de que aquela coisa laranja no meu prato era mamão. Odeio mamão. Gelado, com mel e aveia. Rápido, engole, depressa, argh, acabou. Já eram sete, e eu saí de casa.
Vaguei durante as nove estações de metrô que separam as imediações da minha casa até a faculdade, como quem dorme em pé ou caminha deitado. A relação é quase análoga quando o vagão do metrô parece uma cápsula sonífera, onde pessoas posicionam-se acompanhando os movimentos de parada e partida. Estaríamos todos confortavelmente deitados esperando nosso ponto de chegada, não fossem os noventa graus que, por um deslize, nos forçaram a ficar em pé.
Caminhei rápido até o novecentos, sem pressa, apenas acompanhando o fluxo de pessoas. E num espaço de tempo curto para processar, já estava completamente desperta, anotando palavras entre moeda, inflação e empréstimo. Entre vírgulas e pingos do “i” colocados fora do lugar, na afobação em escrever as melhores partes do discurso, alternei entre um pouco mais de sono e dinamismo. Meu organismo trabalha num processo matutino de sabotagem. Buscando os minutos perfeitos para um cochilo, pareço intercalar entre presteza e torpor.
Na volta, caminhei com pressa. A pressa era fome, animada pela certeza que não encontraria mamão no prato do almoço. Nove estações, um trem e um ônibus depois, sentei na mesma cadeira em que tomei o café da manhã, metodicamente programada. Então, mais rápido do que eu gostaria que fosse, entrei na última sala do corredor do terceiro andar, onde o telefone já me esperava tocando. Trabalhar torna-se um pouco mais fácil quando crianças de trancinhas e cabelos separados referem-se a você como “tia”, enquanto é mais difícil evitar que elas encostem os dedos curiosos na lente da câmera fotográfica do que realmente fotografá-las em boas poses. Duas xícaras de chá silvestre, quatro e-mails, cento e vinte jornais impressos e eu estava voltando para casa.
Tão logo realizei o que o dia ainda me cobrava, o banho quente lembrou-me que cada um-minuto-qualquer-que-seja não usado para cochilar durante o dia estavam batendo na porta de casa, esperando, então, que fossem solicitamente usados durante a noite. Eu acabara de deitar na cama, sentindo o espaço vazio entre o fim das meias e o punho das calças acostumando-se com o gelado do edredom. Posso jurar que mal tinha acabado de pegar no sono quando o som estridente recordou-me o que relutei a aceitar com bom humor: sete horas passaram-se enquanto eu estive no que, para o meu organismo preguiçoso, não passou de um ensaio sobre o sono.
Adoro esse!