Singles Ladies

Todas juntas e com as mãos para o alto.
Os planos raramente seguem à risca o esperado, e isso já não é mais novidade. Três transforma-se em trinta num piscar de olhos e até mesmo pequenas promessas deixam de serem cumpridas.
Não nego que a tentação foi forte, meus dedos hesitaram por cinco dias e conferiram freneticamente o visor do celular. Mas, tudo bem. Sou eu quem, de fato, saiu ganhando. Afinal de nada adianta cara feia se o que foi feito partiu de uma escolha própria.
O silêncio momentâneo levava à reflexão negativa mas, a ausência de borboletas evidencia a presença de um ego parcialmente satisfeito. Se você notar a naturalidade na indiferença, já me torna amante de mim mesma.

Há alguns anos eu jamais me imaginaria em tal situação, sem saber como falar e como agir. Há alguns anos eu jamais te imaginaria assim, tão…
Cada sorriso sincero e piada tímida pontavam lá dentro, e voltavam como pena e nostalgia por toda a proximidade que um dia existiu.
Nunca é tarde para recomeçar, em cada um dos possíveis significados.

Não sei porque tal nome ainda tem tanto balanço. Na verdade, não passa de uma burra insistência e um carinho voluntário.
Naturalidade na despreocupação é indispensável. Inclusive minha cretina mania de olhar por cima do ombro, bem nos olhos. As passadas de perna geralmente desviam atenção, e de fato, seria interessante servir de bom assunto.

Segurança traz sensação de poder. E poder agora é tudo.

Crente

Após umas três horas de frio nos pés e mais umas duas de muita força e condicionador, volto ao meu estado normal. Por um instante eu cheguei a me esquecer de espalhar espuma na parte, até então, encoberta.
Após sustos e saudade explícita, reparei que aquele era um bom momento de manter contato. E cada segundo insano hesitando para pressionar ok são compensados pela agilidade e visível atenção.
Cada demonstração me prende mais ao nada, a essa confortável incerteza. Agora aguenta.

Carreteiro

Toda a energia e falsa sensação de liberdade encerram-se assim que atravesso a rua embaixo de uma garoa fina. E nenhum outro clima poderia ser mais propenso a isso.
Todos os acenos que faço para pedir calma já estão cansados e repetitivos. É como tomar café com leite todas as manhãs, mas sem o gosto adocicado.
Na presença de estranhos as pessoas tentam manter o controle por mais tempo e seguram alguns impulsos. Mas, mesmo assim ninguém pode esconder a essência de uma casa.
Isso me chateia. Não tanto por ser diferente, mas sim por ser desconhecido. Cinco minutos são suficientes para eu voltar ao juízo e correr ao armário de armaduras.
Em algum momento a realidade volta à tona, e isso nunca muda.

Makossa

A locomoção nem pode ser chamada de viagem, pois não teve duração suficiente pra isso. Observar as luzes da cidade em meio ao céu preto e ao som da perfeita trilha sonora pôde me dar uma pequena noção do que me esperava.
Nada como um feriadão de quatro dias sentindo o cheiro do mar. Quatro dias com duas das melhores companhias, com muito trabalho de perna dia e noite.
Um apartamento literalmente vazio, três colchões, uma garrafa de água, algumas sacolas com (quase) comidas nada saudáveis, muitas malas de roupa, e um rádio. Cac, era o nosso cac.
Qualquer sussuro ecoava imediatamente entre as paredes branquinhas cheirando a cal. E a cada espiada pela janela era possível observar a rotina literalmente apertada dos vizinhos da frente.
A longa extensão de areia, e as embarcações indo e vindo. Os passeios no sol, ou no céu nublado. O sol de fritar minha pele de leite, e as noites loucas. A meia verde, o low-fat frozen yogurt. Cada uma das loucurinhas, das besteiras, das verdades, e cada uma dos milhares de risos.
Ah, mas se Santos falasse…!

Peripécia

Somente um perfil que não se enquadra a você se preocuparia com blusas, mesmo após uma explosão que assustaria desprevinidos. Mas não, você cumpriu a promessa de uma outra conversa.
Juntei cada uma das evidências, e estou otimista. Basta esquecer os parâmetros que meu subconsciente suplica e me contentar com detalhes que tudo fica claro. Eu não posso exigir uma reação que eu mesma não teria, devo me lembrar a cada segundo que se você fosse sistematicamente programado para mim, não me seria suficiente.
Às vezes nós somos pegos pelo destino, e testados a tentar acertar uma maneira de decidir por si só. Às vezes os resultados demoram a aparecer, e no fim a gente erra pra acertar.

Explosão

Big.

Não me venha dizer que minha incrível mania de resolver tudo calculado é impulso. Já disse, cal-cu-la-do. Cada uma das palavras ditas, mediante permissão, já haviam sido repassadas mentalmente pelo menos uma vez. E não ouse pensar que a cena foi feita para divulgação e compreensão alheia. Se foi, não passa de uma consequência, porque o que eu fiz foi por mim mesma e mais ninguém.
Já não me preocupo com a possibilidade de ter me precipitado, e dito demais – afinal, eu sempre falo demais. Supri cada uma das minhas vontades e necessidades. Cada letra calhou para o momento, para o meu momento.
Aplausos, ou uma calorosa reação eu não esperava. Não conscientemente. Mas, tenho sempre que me lembrar que as vítimas nunca são perfeitamente certas para as minhas explosões. Não tenho do que reclamar, afinal ninguém se levantou do auditório antes do fim.
Agora sim eu posso tentar deixar as coisas acontecerem, mesmo que já tenha interfirido. Só não pense que a situação se inverte, porque no meu mundo não existem situações. Apenas uma realidade alterada por sentimentos inúteis. E nessa realidade você me ajudou a construir cada frase calculada, cada passo para a explosão.
Bang.

Quinze para as duas

Tenho horror a correntes, cordas, cadeados. Mas a leve idéia de fitas interligadas fizeram com que eu me sentisse ótima, mesmo que sentada numa mesa com estranhos. Como se todas aquelas silhuetas caminhando estivessem sentido a onda de energia positiva em volta de mim.
É claro que para o mundo todo eu não estava esperando por nada, afinal sou muito forte. Mas, no meu mundo eu sabia que se não tivesse retorno, teria outra coisa: decepção.
Mas, quando eu já estava criando meios de entender que aquele é um processo natural e que há vida lá fora, o visor tomou cor e luz. Nada de decepção.
Acho que sou uma boa atriz, não apelei para um tom afetado e palavras arrastadas. Como se tudo isso fosse muito natural no meu mundo. Claro.
Enquanto houver contato, haverá retorno. Enquanto houver retorno, haverá retorno.

Borboletas instatâneas

Você venceu, conseguiu o que queria. Congratulações!
Caprichei o meu ego durante todo o tempo em que foi possível. Eu não fazia idéia do que estava fazendo, mas tudo aquilo me fazia bem. Principalmente pelo fato de acontecer naturalmente, sem intenções escancaradas, ruidosas.
Tartarugas, parentescos, músicas e banjo. Por mais que eu estivesse apenas desviando meu consciente daquilo que meu subconsciente estava afundado, não posso negar interesse. E muito menos todos os pontos positivos que não param de subir na tela do computador.
E a cada aviso sonoro de mais um ponto computado, colheres de pó instantâneo foram acrescentadas, me remetendo a uma situação estranha, conhecida e distante.
Uma situação boa, renovadora, incentivadora. É como dormir num domingo e acordar numa sexta-feira. Sem dias ruins, sem segunda-feira.
Eu me jogo de cabeça, mas tento manter minhas mãos firmes na borda o suficiente para molhar meus cabelos sem perder o rumo. Nessas águas azuis, translúcidas. Aceito ficar submersa enquanto a temperatura estiver agradável, aceito deixar meu cabelo no cloro enquanto ele for em pó instantâneo.
Uma braçada por vez…

Venda

Tire a venda que cobre os seus olhos. A venda que te impede de enxergar o palpável. A venda chamada teimosia, burrice, insistência. A venda característica dos seres humanos.
Mas, porque é que você tem que querer sempre o que não pode ter? Saber essa resposta não é mais suficiente.
Você estaria sendo falsa se abrisse os olhos para o conveniente que não a satisfaz? Você estaria fazendo com os outros aquilo que lhe fazem e causa desapontamento?
Não. Você estaria usando a racionalidade, e um pouco do intelecto do seu ego. E fazer um agrado a si mesma, nunca é demais.

Tudo de bom

Aquele que nada espera, nunca se decepciona. E sinto muito, mas não consigo ser otimista. Não agora.
Certos detalhes me fazem agir como alguém que não quer abrir os olhos para o óbvio. E mais uma vez me prendi na incerteza enquanto algo mais palpável poderia ser conquistado.
Eu contive cada esperança, cada expectativa e cada vontade para que todas as palavras não fossem jorradas em vão. Mas, dessa vez não pude permitir que não afetasse meu humor, afinal, não havia mais pelo que esperar e eu não podia fazer exatamente nada para mudar isso.
Não é minha culpa, pelo menos diretamente, que eu sempre goste do que me parece errado. Enquanto soa certeiro, não atrái. Passou a conter erros, problemas, desvios, dificuldades? Agora sim!
Eu simplesmente não posso permitir que você faça comigo, o que outros estão fazendo com você. Claro que em seriedades completamente distintas, mas com princípios semelhantes.
Ahh, mas como as pessoas são perfeitas de longe. Tudo nela é tão incrível, inclusive cada defeito e cada erro. É como se tudo isso tornasse ela atraente. Eu e minha mania de querer captar cada detalhe, e ser semelhante…
Eu entendi os poucos olhares, que minhas lentes de contato fracas conseguiram enxergar, e entendi o cumprimento digno de maiores de trinta e cinco anos.
E diante tudo isso, eu quase percebo como você tem falta de tato para lhe dar com esse tipo de situação. E quase me deixo levar pela vontade de te ajudar, de captar e abraçar cada problema. Mas eu não posso.
Certas atitudes não coincidiram com o que eu gostaria de ver, mas eu quase agradeço. Por não ser o objeto de distração.
Tudo bem, eu vou dirigindo pra casa. Agasalhada, mas sentindo cada soprada do vento gelado oprimindo minhas lágrimas. Tudo bem, eu havia sido avisada e quis me arriscar. Tudo bem, me comprometo a viver a parte que me cabe, independente de ter dito demais. Tudo bem, eu ao menos tentei.