Laranja

Surreal e quase utópico. Quase, pois apesar de eu ter escrito “su”, tudo isso é de fato real. Eu tentei deixar as coisas fluirem normalmente, mas os nervos quase explodiram à flor da pele. Respirar fundo é um segredo e tanto.
Começar do zero é uma tarefa difícil. Difícil, impossível jamais. Ainda mais considerando todos os instrumentos disponíveis para tal. Não perdi tempo em notar o quanto a realidade é outra. Os personagens são outros e não há comparação viável. Mas, hoje até os pontos positivos me assustam. Desesperam o suficiente para minha vontade de correr de costas ser considerável. Cifras me seguram. Futuro me segura. A pressão não é pouca, o tempo livre é escasso e o medo é absurdo.
É meu sonho dependendo unicamente de mim mesma. E para ele não posso dar as costas.

Mendo

Esqueço tudo o que veio antes. Para mim os minutos não foram o pós, mas sim o evento propriamente dito. Nesses simples momentos eu me fortaleço, enxergo o horizonte no fim da estrada e faço planos. Algo como viagens loucas, com poucas blusas e nenhum calçado além de chinelos. Umas idéias malucas dentro de uma Kombi e risadas.
Já não demora para estarmos ao sol do meio-dia com óculos de sol e chapéus de palha. A gente ri incansavelmente e corremos pela areia, vestindo umas saias compridas e malucas.
Nós três estamos livres, otimistas, e felizes. Sem sair da cozinha.

Abracadabra

Egoísmo. Obviamente esse é um sentimento que leva seres com corações a sentirem inveja.
Sempre me falaram muito sobre inveja como algo unicamente ruim… Não que agora eu me ache capaz de comprovar como a+b que inveja é algo bom. Não me arriscaria nessa matemática barata! Estou mesmo é falando daquela inveja que bate de canto, naturalmente e sem o cruel objetivo de arrancar o utópico dos outros. É puramente um sentimento onde revela-se um reconhecimento de dentro pra fora.
Não posso simplesmente compreender como algumas pessoas conseguem o que querem sem grandes esforços. Enquanto utilizo minhas fichas e meus esforços para ser. Ser e estar.
Quando fecho os olhos para tentar achar alguma resposta convincente, escuto algo sobre tempo, algo sobre ter paciência e esperar. Como quando menos esperar irá aparecer.
Mas, começo a folhear alguns livros para recolher informações. E quando peço ajuda me aconselham a correr atrás. Mas, eu queria saber qual seria a resposta se eu perguntasse sobre o que há de errado. Já me esforcei para esperar, ainda mais para buscar e até mesmo fingi não estar nem aí. E nada.
Cansa bastante viver aos tropeços, onde às escuras vou vasculhando algo para me apegar. Cansa passar cada uma das valetas sem ter pelo que recompensar no final.
Não queria nada muito complicado… Um saquinho cheio de carinho e alguns erros para superar seria suficiente. Algo justo pelo o que eu me esforço. Como cores e borboletinhas.
Não tento repitir e copiar, nem mesmo tento ocultar meus defeitos. Não preciso que me façam promessas, eu apenas me considero merecedora.
Mas e quando não há mais onde inovar e ninguém pode mudar? Não há conformismo, não há como perder o que ainda não se tem.
E temos tão pouco tempo…

Suíça

Certas situações demonstram risco. Não vou mudar, mas minha postura passou a ser outra. Afinal, são seis anos de consideração contra um ano e meio de carinho recíproco.
Se meus dedos agirem após meu consciente relutar, será para apaziguar. Para evitar situações comuns e infantis demais, onde a falsidade vem muito acima da consciência leve.
Nesse momento, preciso tentar pensar em mim. Nesse momento, nada como ser um país neutro.

Eco

Está tudo bem, está tudo certo. Não pense que dessa vez vou me sucumbir a possibilidades que te favoreçam. Hoje apostarei nas piores possíveis, afinal elas me fortalecem permanentemente. Está tudo realmente certo se você acredita que assim tem que ser, eu nem mesmo penso em abaixar minha cabeça.
Já passei por coisas, de longe, muito piores. E aliás, eu me conheço, sei que assim sou bem melhor.

Alicerce

Essa programação pacata me agrada mesmo. E a perspectiva menos dramática me equilibra. Mas, aposto algumas moedas que isso acontece devido a alguns quilômetros longe da minha fraqueza. E isso é tão egoísta… Mas, hoje eu não quero dar a volta por cima, não hoje.
Não demora nada para que eu seja pega novamente com a sensação de crescimento. A vida realmente me surpreende, e eu não demoro nada para reconhecer que a figura forte e confiante é tão vulnerável a erros como eu. Isso é tranquilizador, tanto pelo lado egoísta de não ser a única a sofrer, quanto pelo lado incentivador de ter tanto potencial quanto.
Igual para igual. Vejo tudo por um lado simplório e viável, onde a amizade cresce surpreendentemente. Daí a gente entende que nada é como nos filmes, principalmente na parte em que as amigas de infância viram madrinhas de casamento. Por mais frustrante que seja, é também muito bom.
Eu, de fato, não seria metade do que sou se não tivesse sofrido no começo. Numa visão geral, posso até arriscar que já me torcei mais forte do que quem sempre me pareceu inabalável.
Não há do que se queixar, tenho muitas histórias para enfrentar e um belo alicerce para me escorar.

Quadriculado

Essa história hipócrita de certas pessoas serem mais bem cotadas começa lá atrás, onde eu ainda não tinha muita vocação para ser vaidosa e destruia as piadas dos meninos. Consegui respeito e aprendi fielmente que não precisaria me rebaixar ao que nunca fui para ser alguém legal. Logo, não fui bem cotada.
A gente cresce. E muda. Porém, em alguns sentidos não. Meus princípios continuam os mesmos, mas aprendi a misturar melhor. E passei a perceber que a ausência de cotação é sinônimo de verdade.
Nacionalidade em forma de comida, pouca desenvoltura gastronômica e muito assunto. A perspectiva de um sábado sem garçons é tão adequada e… bem cotada!
Vejo o quanto mudei e aprendi. São fases e mais fases, mas me sinto bem cercada como nunca. E esse mesmo bem-estar me lembra que reconhecimento pode estar oculto.
Novamente me remeto aos números, mas os uso somente para demonstrar que as cotas não são fundamentadas por cálculos confiáveis. O que há de mais interessante, geralmente está por trás de qualquer sistema classificatório.
E no fim, somos todas iguais nos problemas e às vezes mais práticas para resolvê-los. A diversão é a mesma, a risada é pela mesma piada e as circunstâncias não variam muito. Com uma única diferença: ser bem cotado te torna mal falado.

Altruísmo

Não é sede por piedade que me faz tomar as dores dos outros. Devo ter herdado da minha mãe esse tal coração mole que quase gosta de passar por cima dos próprios batimentos para zelar pelos dos outros. E repito: nada de piedade.
Mas nada posso fazer se uma tarde pacata, um pouco fria e com alguns raios de sol tornou-se um dia cheio de voltas. Com todos os devidos personagens presentes, qualquer roteirista romanticamente normal, e clichê teria dado continuidade lógica para a trama. Porém, o destino quis surpreender os telespectadores logo hoje… E o frio aumentou diretamente proporcional aos acontecimentos.
Entre pequenos intervalos serenos para conversar, eu mantia-me aquecida com minha blusa, e ainda meio encoberta com a falsa sensação de que o que me espera não estava naquele loteamento. Pensando que talvez a sorte teria se voltado para mim.
A situação mudou, e eu desviei os pensamentos para cada fagulha de informação que eu coletava. Não me disseram como reagir, logo meu senso me tornou perspicaz o suficiente para atacar de João. Cada uma das frases rapidamente calculadas eu guardei em arquivos, sem analisar profundamente pois naquele instante eu visava quantidade, para depois despejar numa mesa e transformar em qualidade. Antes de qualquer atitude eu já me perguntava como contar isso a quem realmente precisava saber, depois do ato consolidado eu já misturava raiva com pena e transparecia desaprovação.
Em outro cômodo outra vida que zelo, ainda mais eu diria, passava por altos e baixos numa confusão de passado mal curado com presente misturado. No fim, me vi sentada em meio a pessoas que não fazem parte da minha vivência, pensando naquele acúmulo de problemas alheios prestes a sugar minhas energias.
Fugir foi uma boa tática. Ainda mais depois de um dia que já havia começado agitado, com exames, remédios, soro e agulha, tudo devido a um emocional à flor da pele.
Apesar das canções perdidas, as letras que restaram continham as palavras que calharam adequadas à situação. Não demorei em observar o céu escuro ao cantar a música escolhida a dedo.
Nem sempre vencer é a melhor saída, manter a cabeça erguida e consciente do meu melhor é um bom começo.

“Faço o melhor que sou capaz, só pra viver em paz” (Los Hermanos)

Colisão Inelástica

Eu troco a surpresa e todo provável frenesi por frangalhos de certeza. Porém isso não me faz imediata, apesar das listras e dos olhares curiosos por trás.
Diagonal e várias risadas desnecessariamente naturais. A postura despreocupada poderia ser facilmente desmascarada pelo nervosismo hiperativo nas pernas, que mexiam-se freneticamente por baixo da mesa. Apenas postura, eu bem que disse. Afinal, enquanto eu não estiver perdendo, uso minhas fichas. Mais vale tentar do que ter apenas pensado.
O retorno novamente me incentiva a persistir. Palavras cantadas diziam para eu ir atrás dos meus direitos, e não há metáfora alguma nisso. O interesse nas palavras apressadas que eu loucamente mal processo é crucial. Às vezes me surpreendo em como posso pensar em tantos assuntos sequênciais.
Não precisou que ninguém fosse claro com frases cheias de verbos transitivos diretos, apenas a procura pelo encontro dos olhares foi suficiente para que a sintonia se equalizasse.
Os corpos de gravidade 10 m/s e massa de valor não informado percorriam uma tragetória não retilínea em sentidos contrários, onde após desviar de obstáculos ocorreria uma colisão. Perfeitamente inelástica.
Ciências exatas muitas vezes exigem paciência para obter resultados. Paciência eu nunca tive. Quebro os teoremas e fórmulas matemáticas para encontrar a razão das minhas próprias equações. Iniciativa eu sempre tive.
Sem palavras mágicas e respostas consideráveis, ninguém ali estava com dúvidas. Tudo foi tão diferente. Diferentemente novo… E bom. Num piscar de olhos cada dúvida e neurose dissolvem na consciência de que é um processo natural onde naturalidade reflete insanidade.
Isso me remete a uma satisfação pessoal, onde cada uma das quinhentas pessoas presentes podem constatar que cada pensamento tem com quem se ocupar. Mas, não demora muito para as minhas expectativas murcharem… Parece que sempre tentarei lembrar-me de não esperar muito dos outros. Essas são as circunstâncias: aceite-as.
Aceito. Aceito de tão bom grado que não exito muito. Levante. Logo ouço o conforto de que tudo ficará bem, sem metáforas novamente. E fica… A gente se entende!
Ali, naquele tempo espaço posso perceber que desatenções são ingênuas desatenções. E sinto aquela incrível sensação de querer descobrir cada pequeno detalhe, saber dos problemas diários e ser alguém para estar. Você me faz sentir coisas que eu jamais pude experimentar antes. Não se trata das listras ou elegância de loja. É algo com os seus olhos e a sinceridade por trás deles…
Eu provoco e quase pressiono. Não me arrependo de uma fagulha sequer, confio nas minhas impressões. Os pontos positivos sobem, e eu sei que pontuo também. Engulo o orgulho que não tenho e levanto-me cheia de assuntos por quantas vezes for preciso. Apenas mostre-me que estou fazendo certo em abandonar os números. E que você quer me ver de pé. Afinal, sempre preferimos as áreas humanas. Levante-se.