Sorriso

Pessoas em fase adulta costumam dizer que representam alguns personagens diariamente, para cumprir suas funções na sociedade e poupar (ou estabilizar) as dores de cabeça na vida. Mal sabem elas que não aprenderam a atuar na marra, já nasceram sabendo.
Desde criança uma força interior, aguçada por outra exterior, mostra que sem forte dramatização algumas coisas não são alcançadas. Basta reparar em uma criança numa loja de brinquedos, no setor de doces do mercado, no dentista ou no parquinho. Sem o choro desesperado e exagerado o brinquedo não seria comprado, não haveria doce antes do jantar, não receberia mimos e promessas por não morder o dentista, e não teria agrado algum depois da imperceptível ralada no joelho. A arte de chorar pode causar alguns estragos, enganar algumas pessoas e chantagear emocionalmente. Mas a ferida não é maior daquele que finge sorrir.
Quando quero, e principalmente quando não quero, faço jus ao meu nome: atuo como ninguém. Sorrio pra gente grossa, após uma ofensa, pra quem erra meu troco ou me atende mal, e ainda mais pra quem me chateia. Poucas coisas fazem meu sorriso falhar e ser pouco convincente. Mas quando fazem, não há escola de arte ou retirada de duas letras no meu nome que sejam plenamente potentes pra me fazer fingir.
Agora, meus dentes estão presos numa mordida tensa, engolindo desabafos e puras verdades. Estão tentando unir forças para morder bravamente e me distrair de uma dor maior, que tá aqui dentro. É um sentimento novo, mal sei se comparo com perda ou tristeza. Só sei que é muito mais desesperado do que a ideia de não ter em quem pensar. Tem sido pior que carência, e poderá ser maior que qualquer desilusão amorosa. Não estou pronta – nem nunca estarei!- pra perder um pedaço enorme de mim. Que apesar de não ser do mesmo sangue, segue a sina para que seja tão forte como se fosse.
Três sempre foi meu número da sorte, e em algum lugar deve estar escrito que assim sempre será. A genética uniu dois, e o terceiro veio pra completar tudo o que faltava: o bom humor incondicional, as ideias incabíveis, a ingenuidade e falta de pés no chão.
A falta de perfeição sempre me trouxe alívio por saber onde estar. Mas não deveria ser tão real ao ponto de doer. De pouco em pouco, sem perceber, alguns buracos ficaram pelo caminho e não devem -não é possível que possam- serem preenchidos por lembranças e nada mais.
Todas as avós devem dizer por aí, que nada acontece por acaso e que alguns males vêm para o bem. De males, estou satiafeita. Quero os bens, os acertos e a prova de que o acaso foi generoso em fortalecer laços inquebráveis. Já estou pronta para no meu melhor estilo, engolir algumas pedradas, me humilhar e esforçar sem reconhecimento só para poupar, que a noite meu ser possa doer mais que meus braços.
Eu preciso, e você também. Apesar de tudo que tem se mostrado errado, ou mal sincronizado. O pior erro seria vivermos distantes. Três é meu número, e você é o terceiro sorriso.

Maio

Eu me enganei. Pensei que somente a ausência refletisse na falta. Mas o excesso me trouxe um silêncio maior, e mais doloroso. Eu me enganei. Pensei que não houvesse sábado que não fosse cura, amigos que não servissem de consolo.
Com engano atrás de engano eu fui me esquecendo tanto de que você precisa viver seus outubros de sol, quanto que também pode precisar de julhos de frio. Há um ano eu revelei qual era o segredo, e somente agora você soube usá-lo, e talvez nem saiba disso. O desdenho não me é problema, congelar, duplamente, tudo o que eu poderia querer fica fácil quando não existem desequilíbrios.
O desequilíbrio me parece mais forte e verdadeiro que borboletas amarelas de Babilônia. E talvez seja o máximo que eu possa te dar. Mas se quiseres ainda tem meu calor.
O grande problema da realidade é crer tanto na crueldade e esquecer-se de fantasiá-la; É ver em tudo drama, de braços cruzados por um dia quente; O problema de querer que não existam mais domingos é perceber que as segundas-feiras são melhores que sábados.
Posso estar de olhos vendados no sol, mas isso significa que eles estão atentos no escuro: feliz é aquele ignorante que não percebe (e nem quer) nada.
Em tanta cegueira, os goles amargos que tomo só me fazem engasgar, e o descontentamento me sufoca em mais e mais silêncio. A minha falta de agradecimento transforma-se em repugnância por eu não ser corajosa o suficiente para sorrir um pouco. Eu traíria o que sou se pudesse fazer da água vinho.
Num antro pessimista e fundo já posso pensar nos outros sofrimentos que virão, nas flores feias que escolherão.
Não posso ser o que quero. Só consigo ser o que sou nessa fase ruim, nesse Maio ruim e argh.
Time cures hearts.

Maçã Vermelha

Certa vez me disseram que pouquíssimas pessoas conseguem se realizar inteiramente num ofício, não duvidei. Pelo contrário, custei a acreditar que poderia um dia conhecer uma dessas pessoas. Em qualquer ambiente de trabalho é automático identificar os infelizes. É ridícula a facilidade em encontrar pessoas que se sentem, literalmente, em um “tripalium”.
Além dos completos descontentes, existem os conformados. Ou são aqueles que, depois de muito custo, se acostumaram com a rotina, ou aqueles que deixaram de ver prazer no que fazem após certa desilusão. Algumas pessoas passam a vida toda procurando o amor de suas vidas, ou até mesmo sem saber que não o encontraram. Com a vocação profissional não pode ser tão diferente.
Certas pessoas, por inúmeros motivos, não conseguirão encontrar sentido no que fazem, ou não encontrarão algo que faça sentido, e pior, podem não perceber que não são felizes no que fazem. Acredito que tudo também dependa do estado de humor também. Após um engarrafamento de três horas, uma reunião estressante ou prazos curtos para cumprir tarefas, qualquer um pode reclamar (baixinho ou aos berros) que escolheram a profissão errada.
Porém, poucos nascem com o dom de amar o que fazem, encontrando energia em difíceis tarefas, exalando brilho nos olhos. Algumas profissões são mal interpretadas, classificadas como castigo e penitência. Mas geralmente guardam uma essência rara, que somente quem ama o que faz pode enxergar e sentir.
Enfim conheci alguém que vive para o que faz. Cada dia é marcado por motivação, paciência, educação e otimismo. Cada nova aula é de fato uma aula de esperança de que o ser humano é capaz de construir uma convivência sadia e igualitária. Parte de cada um aproveitar, ou ignorar. Dependendo do ponto de vista tudo não passa de enrolação e desperdício de tempo. Pobre de quem perde a chance de sentir, tão de perto, a pureza de alguém que ama o que faz.
Aqueles treze minutos fizeram a felicidade de quem estava farto dos números, a alegria de quem sentia sono e a distração de quem se dispôs. Crianças falavam numa língua estranha, tijolos estavam sendo feitos enquanto a professora pedia que fossem à aula. Celular, torre? Substantivos simples eram abstratos e utópicos para aqueles pequenos, que mal podiam concluir o efeito de suas vidas na humanidade.
Boas metáforas, fortes mensagens e várias interpretações. Tudo corria como o padrão, até que fui surpreendida pela pausa na fala. Olhei na direção e lágrimas estavam sendo contidas, sem sucesso. Aquele impulso involuntário foi além de um bom coração ou sentimentalismo. Ele traduziu uma alma apaixonada, que não vê diferenças, apenas desigualdades. A alma pura de quem sonha com a mudança, tem como sonho formar bons cidadãos. Uma alma que chora por ver falhas, por ser desiludida e rasgada pelas garras da imperdoável verdade.
Um pedido de desculpas e palavras soltas antecederam um silêncio respeitador e rico. Encontro motivação no que você faz. Não comparo à perfeição, mas sigo de exemplo como é dedicar todo o seu amor a quem nem mesmo sabe disso. E quem agradece aqui, sou eu.

It’s about time

Não adianta insistir. Quando eu não quero uma coisa e acredito nessa ideia, nem mesmo uma outra ideia de que o contrário seria o melhor consegue parecer, para mim, suficientemente melhor ao ponto de passar a querer o que antes eu não queria.
Poderia ser mais simples que isso. Mas seria fingidamente prático da minha parte resolver tudo de maneira tão certeira. Por mais confusa, indecisa e contraditória que eu possa ser, no fundo sempre permanece um broto dormente que indica o que poderia ser fatal. Confortavelmente posso me excluir de toda a culpa por ser tão difícil: não estou sozinha. Talvez ajude perceber que o instinto natural do ser humano é fugir do que pode lhe fazer bem, desde que o bem esteja em completo desacordo com a vontade inconsciente. Ajuda, mas não resolve. Ter aceitado todos os conselhos e feito o completo contrário poderia me livrar do peso das minhas decisões. Mas ainda não resolveria. Inclusive poderia ser ainda pior.
E eu estava ciente de que essa responsabilidade viria a cair sobre meus ombros, eu assumi o peso por não saber ser inconsequente e precisar, a todo momento, encontrar sentido dentro de mim para o que faço. Esse mesmo sentimento de busca agora me perturba, e me faz querer tudo o que abri mão, numa simples vontade de tomar dessa água.
Talvez eu não fosse tomada pela ansiedade se te conhecesse melhor e soubesse como jogar o seu jogo. Talvez eu não fosse tomada pela angústia se te conhecesse menos, e não soubesse que você não usa jogos, e muito menos sabe usá-los.
O pacote de sementes, que encontro em todos os lugares, poderia ser útil se eu soubesse como usá-lo. Mas a ansiedade me cega, e eu já não consigo saber se estou em busca do que faria germinar, ou apenas do que faria florescer. As últimas flores brotaram coloridas, e poucas até mesmo perfumadas. Flores morrem, ficam murchas e perdem a graça. Um broto que germina está fadado a crescer, a realizar respirações continuamente e alimentar-se com fotossíntese. Mas eu não sei para qual efeito a terra está favorável.
Os feixes de luz coloridos, que antes passaram despercebidos, agora podem fazer a gema apical mudar de sentido. Tudo pode estar prestes a mudar, ou a permanecer tediosa e superficialmente igual. As flores costumam ser tão bonitas que cansam, tão perfumadas que enjoam. No meu outono talvez não haja lugar para elas. E está na hora, de fazer com que algo no jardim seja meu.

Trufado

Entrei rápido no quarto, carregando uma porção de coisas que deixei em cima da cama. Enquanto abri o armário, mal prestei atenção em qual gaveta estava vasculhando, afinal estava imersa nos meus pensamentos e nas tarefas a cumprir naquela noite. Comecei a me trocar, com pressa para não perder tempo nessa ação sem importância. Até que ouvi vozes, em coro, cantando.
Parei pra ouvir e abri a veneziana atrás da janela emissora do som. Em meio aos latidos dos cachorros da rua, pude identificar um canto de feliz aniversário, de umas quatro ou cinco pessoas no máximo. A voz de um homem adulto puxava o resto do coro, com uma voz feminina no meio. Pela intonação presumi que fosse aniversário de uma criança. Mas, seu nome foi confundido com o ônibus que desceu correndo pela rua, desrespeitando a placa de 60km.
Com as luzes apagadas, o flash se destacou e então não tive dúvidas de em qual janela velas estavam sendo apagadas. Algumas vozes femininas desempenharam o papel, geralmente das tias, em expressar felicidade, com orgulho e entusiasmo (na maioria das vezes, forçado), através de gritinhos “êêê”.
Alguém acendeu as luzes, e pela iluminação da janela da lavanderia, comecei a imaginar que a mãe teria assumido a missão de cortar os pedaços de bolo. Todos ficariam em silêncio para comer, e certamente alguém perguntou quem fez o bolo. E, mesmo que da boca pra fora, pediu a receita.
Quando parei de ouvir as vozes, perdi meu olhar nas outras janelas dos prédios, e em meio a ventiladores de teto ou iluminação azul da televisão percebi que, minutos atrás, estava agitada e focada em não perder tempo mas, me distraí com algo tão simples mas tão significativo quanto um parabéns a você.
Enquanto essa quarta-feira representava, para mim, apenas o meio da semana e um passo mais perto do fim de semana, ela estava sendo especial para alguém. Deve ter sido esperada por alguém. A partir de então, me vi sentada, sorrindo. Contente pela paz daquele apartamento, tranquilizada pela felicidade. Satisfeita por aquele dia ser especial para alguém.

Morena

Foram inúmeras as vezes que você me pediu para ser citada em algum dos meus textos, ou quem sabe ter algum exclusivamente dedicado. Eu sempre te pedi paciência, afinal esse tipo de coisa não funciona com pressão e você merecia algo muito bem feito.
Mas, acredito que tudo isso não passava de discursos involuntários para que meu consciente não reparasse o verdadeiro motivo: não sabia como fazê-lo.
Fico decepcionada comigo mesma só de imaginar que você deve se chatear às vezes, ao ler palavras bem escolhidas que junto e dedico a outras pessoas. Mas, agora parando para pensar fica fácil reparar o quão dificil é escrever sobre alguém tão perto. Não há saudades para florearem textos cheios de melancolia e nem mesmo uma convivência unicamente passada para usar nostalgia.
Eu simplesmente te tenho todos os dias, pronta para ouvir qualquer palavra que me vier à cabeça, impedindo-me de guardá-las aos poucos. Te tenho todos os dias dizendo coisas lindas pra mim, e sempre perto para eu retribuir como posso.
Vendo por esse lado, quase chego a imaginar que voce é uma melhor amiga a qual já não é mais preciso reafirmar a importância. Eu disse quase.
Afinal, não há amizade que possa ser tão boa a fim de denominar nossa relação de irmãs. E não há irmandade forte o suficiente que possa classificar nossa ligação.
Algumas vezes me pego imaginando como tudo isso pode ser possível. E nos últimos dias isso tem tomado parte dos meus pensamentos. Não brigamos com uma frequência de irmãos normais – eu bem disse que ultrapassamos a irmandade humanamente possível -, mas cada desentendimento, por menor que seja, é suficiente para me colocar em questionamentos.
Fico me perguntando como é possível alguém tão azedinho fazer com que meus dias sejam tão doces, e como alguém em surtos de extrema grosseria consegue me travar para dizer não.
Quando eu fecho a cara e fico quieta, você vem me perguntando se ainda gosto de você. Isso não passa de um pecado, você deveria aprender de uma vez por todas que, nesses momentos, te amar demais é o meu maior problema. Isso faz com que eu seja capaz de passar por cima do meu orgulho e da minha, mais íntima, vontade só pra te ver satisfeita.
Todas as vezes que você me magoa com as suas pequenas atitudes cheias de personalidade, eu tento ficar séria e te dar bronca, na tentativa de te fazer melhor. Por mais que isso possa te irritar, acredite: isso me consome. Toma meus pensamentos na tentativa de achar uma maneira de te resolver tudo.
Quando tudo parece estar desabando sobre nossas cabeças e eu desato a chorar, saiba que boa parte é por você. Por saber que por trás dessa mente criativíssima e inteligente existe um gênio forte e tão decidido que me faz parecer vulnerável a tudo.
Quando você parece ter razão minha cabeça trabalha incansavelmente tentando achar uma forma convincente de te conformar. Mas é ainda mais difícil pra mim quando eu simplesmente não posso te defender.
Você diz saber nessas horas que me decepciona, mas pior do que você me decepcionar é você rejeitar meu carinho. Por mais errada que você possa estar, o meu primeiro extinto será te acalmar.
E eu me pego tentando entender como nesses momentos eu consigo ser capaz de pedir perdão por algo que não fiz só pra te deixar por cima, desde que isso te faça bem. Corro atrás de você e me ponho no chão, só pra te mostrar que não está sozinha.
Mas a pergunta que mais me deixa sem resposta é sempre a mesma: como pode ser possível alguém me irritar, magoar e afetar tanto sem fazer com que eu, nem mesmo pense em hesitar no amor que sinto?
Jé pensei em muitas explicações mas apenas uma parece preencher todas
as lacunas: Quando você ainda mal sabia como era viver nesse mundo, a mamãe decidiu que não seria justo e sim bem triste te fazer filha única. Pra te dar uma companhia, eu nasci três anos e três meses depois de você.
Instinto materno é algo forte, naquele dia eu aposto que a mamãe sabia que você não havia ganhado apenas uma companhia e sim alguém com muitas falhas, mas com o coração grande o suficiente pra te amar o quanto fosse possível e viver por você. E não foi por acaso.
Falar sobre boas companhias e pessoas agradáveis é extremamente fácil quando tudo corre perfeitamente bem. Mas com você é diferente. A parte ruim também me faz calcular a dimensão do amor, e o quanto ele é inigualável, imensurável, incondicional e infinito.
Vinte anos após você ter nascido eu te digo: não foi você que me ganhou de presente. E sim eu, que tive a chance de viver por você. A única pessoa que consegue ter sua beleza até mesmo quando só os defeitos estão aparentes para o resto do mundo.
Eu entendo que tudo tem sido complicado, aliás ninguém disse que seria fácil. Desculpa por o mundo ser tão difícil, mas tente entender que é preciso mudar. Se for tão doloroso assim, ao menos tente por mim.
Não há o que me possa fazer voltar atrás de toda a dedicação por você. Estou do seu lado e faço o que for preciso pra te trazer um sorriso.
Eu nunca disse isso com tanta certeza, e isso talvez nem seria possível. Todo o amor é pra sempre, pequena, e nada pode mudar.

Boina

Não há Cachorro Grande sem boina, e no meu mundo também já não há boina sem Cachorro Grande. Mesmo sem analisar muito fica fácil reparar que não há Cachorro Grande sem noite divertida. As bolachas, os balões, a roda gigante, algumas garrafas e ausência de preocupação. Essa atmosfera é altamente contagiosa, fazendo com que o show perfeito para se divertir ainda traga um êxtase contínuo.
O raciocínio se torna lógico quando bandas românticas/dramáticas causam reflexão, e bandas (ou a banda) despreocupada causa despreocupação! Veja só, quanta genialidade da minha parte.
O contexto é de uma mesa de bar, com um clima meia-estação, jaquetas de couro ou ternos quase pretos. Onde no caos urbano, cheio de luzes vermelhas e azuis, pernas com meia fina preta, botas e vestido, correm. Sem destino e até mesmo sem pressa. Enquanto olha para trás e ri a franja bagunça com o vento. E as luzes continuam intensas destacando na noite, obviamente, sem estrelas. Em flashes, a mesa redonda ainda está cheia. Pode ser sexta, domingo ou plena quarta-feira. Tanto faz, tanto fez. Não há problemas que não possam ser afogados. Não há noite que vá terminar.

Tempo

Por muito reclamei da dúvida, e esta não há mais. Devo ter questionado os intervalos constantes nos retornos, e estes hoje são certeiros. E certamente notei a dificuldade em falar, e aqui há falta de vírgulas apenas. Questionamentos e reclamações atendidas. Não…
Afirmo com todas as letras o quanto posso me o-d-i-a-r por ser capaz de beirar pela burice. Mas sou como um soldado calejado, já aposentado, que não consegue apenas sentar no sofá e esperar tudo acontecer. Acredito, de fato, que eu mereça finalmente estar num momento certo. Mas meu subconsciente não toma essa situação como suficiente. Parece que ele quer mesmo é me assistir indo à loucura.
Estou observando você sorrindo, e dizendo uma porção de palavras coloridas. Mas enquanto elas me atravessam sem sentido, eu olho para os lados vendo quantas pessoas seriam capazes de encontrar consistência nessas tentativas, desenfreadas, de fazer alguém ser sua. Enquanto não sinto a textura, não percebo o gosto da incondicionalidade, guardo o que posso em caixas e anoto o que quase passa despercebido. Além de mim, outras tambem torcem para que isso venha à tona enquanto é tempo.
É como sentir medo, por não ter tudo sob controle. Por estar atravessando uma atmosfera nova, onde, num piscar de olhos posso ser tudo aquilo que sempre desaprovei vindo dos outros. Não podemos atropelar os minutos, não podemos praticar excesso, e a falta por outro lado. O tempo é assim. Tempo, de novo.

Ouro

Esse tipo de situação me remete ao meu ensino fundamental, onde dentro do meu blusão preto e grosso eu imaginava qual seria o segredo da aceitação. E não há grandes segredos, não há pessoas mais legais e mais merecedoras. Não me desmereço, apenas me desconsidero desse ciclo vicioso de altos e baixos na sociedade adolescente média.
Sempre me pego reclamando dessa sobra de aproximação induzida, masculina, diga-se de passagem, nos momentos onde somente o interesse colecionador fica evidente. Mas, não nego. A relacao é quase a mesma onde o diamante e a grafite provém do mesmo início. Mas aqui estamos falando de ouro.
Se acham que agora estou, digamos, apta a estar onde vocês estão eu apenas agradeço. Gosto de ser o que sou e de estar onde estou. Eu tenho o que você quer. Mas, ficará querendo.

Aligator

Diário de férias sete.

O dia amanheceu frio, mas não demorou para esquentar com o sol. Limpando o céu, deixando à mostra os feixes azuis, que sempre me remetem aos domingos. Mas hoje ja é segunda-feira, e como a maioria delas onde a rotina volta à tona, esta não será muito diferente.
Seis dias foram mais que suficientes para me adequar ao estilo de vida, vícios de linguagem e vivacidade nas coisas simples. Tanto que me pego tentando imaginar como serão os dias a frente sem as tardes na Gabi, os jogos com colher, o excesso de refrigerante, exagero de condimentos, o céu cheio de estrelas, a tranquilidade em caminhar pela madrugada, as conversas antes de dormir… Enfim, cada um de todos que me receberam cheios de simpatia, paciência e boa vontade em me acolher por uma semana. Isso também me faz pensar que como vocês, eu não encontraria a trezentos e tantos quilômetros.
Toda despedida é triste, mas estas, em especial, são sempre um “atá logo”, sendo apenas um intervalo entre outros dias inigualáveis. Porém, entrar no onibus, colocar o cinto e acenar na janela, vendo você pra trás com seu sorrisão, mudou o clima. Para contrastar com o sol reluzindo algumas gotas cairam, molhando a base da janela.
Sei que nao demora, afinal não aceito demoras, mas tudo isso deixará saudades. Muitas saudades. See you later…