Você tem meia hora

Logo a janela que eu queria aberta é a única que permanece fechada. Todo sol que penetra pelas outras quatro não fortalece meus ossos e não ilumina o quarto, que além das venezianas parece haver uma cortina bem escura e grossa. Não é questão de tempo. Esperar os dias correrem soa como uma doce melodia, que embala os passos logo cedo na grande avenida. O coração palpitante mal pode segurar o sorriso querendo abrir. Esperar é pouco. Eu poderia ser ainda mais após a força de uma palavra, eu poderia oferecer muito mais após a certeza de duas palavras. O orgulho de quem caminha de cabeça erguida frente ao leque de possibilidades, de pratos postos na mesa e convites solenes. Enquanto todo o resto simplório não se torna menos. Uma vida inteira bem servida pela frente.

Mas os dedos estão congelando ao tocar a geada cobrindo as folhas do jardim. E não vai mudar. A única janela que eu queria aberta é a única emperrada e impossível de abrir.

Littera

Toda decisão relevante envolve sofrimento. Porém, acima disso está o benefício da escolha, ao invés de ser escolhida. Prefiro assim: um passo de cada vez, mas um passo bem dado, bem pensado e bem vivido. Nada supera o viver saudável, um sono tranquilo e um fim de semana de diversão – pois também há muita vida lá fora.
Não pretendo parar tão cedo, mesmo. E quando se tem um sonho, e muita vontade de alcançá-lo não existe tempo certo ou errado, cedo ou tarde. Estou certa, mas ainda não estou exatamente segura. Na verdade, nunca estarei. E esse constante sentimento é o que me faz querer ir até o último andar.
Enfim troco letras pelo conjunto delas. E que venham frases construídas, parágrafos completos e muitos outros textos inteiros.

De frente ao mar

Fiquei doente. Aquele peso esmagador, que não se decidia qual parte do metabolismo atacava, resolveu não decidir. E de repente, fiquei doente, de toda e qualquer maneira. Mas foi logo nesse ato de constatação que eu lembrei que não havia solução: antibiótico não cura doença de amor.

Abrir mão, enquanto ainda se pode ter nas mãos parece algo pouco inteligente. E meu ego me reprovou em cada atitude que agora tirou da reta as flores na porta de casa. Mas eu sou piegas.
Quebrei o que poderia facilmente ter quebrado, e agora ultrapassei o inesperado. Não encontrei mais nenhuma regra a ser seguida, além daquela voz que pertinentemente gritou para que eu desse um passo de cada vez e vivesse uma história por vez. E errasse por me ser, para no fim, me acertar.
Terminar uma coisa que não começou soa como algo muito calculista (algo muito vindo de mim), e eu nunca tentei tanto e nunca quis tanto que a situação fosse tomada por causas naturais. Mas não foi. Não penso em me desculpar e não sobra qualquer espaço em mim para que eu sinta culpa. Eu só fico com saudade do que acabei de impedir que aconteça, do que eu senti e poderia sentir.
Contudo, eu já me sinto forte. Exagero nas palavras, e essa atitude inédita de tomar as rédeas parece muito mais de carne e osso do que sentar e esperar, ou do que manter perto o que me faz bem pra quando quiser o bem – só para quando eu quiser. Não estou esperando ser canonizada por atitudes altruístas. Inclusive, vejo mais egoísmo que altruísmo em meus atos.
Qualquer calafrio ou bem estar não me impediram de ver de maneira clara, foi a única vez em que tentei ser inconsequente e viver aos tropeços, desde que me fizessem bem. Porém, o impossível é me enganar por muito tempo: a ideia é muito boa, mesmo, mas não poderia funcionar na prática, simplesmente porque fora do papel, o papel jamais seria cumprido como se deve. Posso me arrepender, posso e possivelmente fraquejarei, mas nada paga a minha cabeça deitando leve no travesseiro para dormir.
Sinto alívio, mas pouco conforto. Não troquei instabilidade por certezas absolutas. Estou na corda bamba de quem pode estar tentando ser justa, e por fim (e não pela primeira vez) perder tudo. Se é que alguém perde o que não tem.
Estou pouco preparada pra lidar com caixas vazias, páginas mal respondidas e comportamento virado do avesso. Mal sei o que fazer com essas paredes, que não possuem ouvidos mas são tão sensíveis que absorveram cada lembrança sua. E, agora, elas lembram de você antes que eu cogite pensar nisso.


A história não acaba aqui. As ondas nunca vão parar de avançar na areia. Pelo contrário: por mais forte que voltem ao mar e quebrem nas pedras, a calmaria retorna aos pés na beira da areia molhada.
Ainda transtornada deixei que as febres aflorassem, que todas as dores pulsassem. Inutilmente tomei cada uma das pílulas, não queria dizer adeus. E foi quando adormeci, leve.

Coisas do Mundo

Eu me agarrei à minha bolsa, que não guardava nada valioso além de filmes e memórias, numa escrita insegura. Dentro do ônibus eu me sentia errada, quase com má vontade. Porém, naquele momento, eu já assumia pra mim mesma que esse era um dos meus melhores disfarces, só pra negar toda a ansiedade e desespero em cada passo que eu dava. Quando me dei conta, estava quase falando sozinha e todos ao meu redor perceberam quando eu voltei na realidade. Era hora de descer.
Em pleno verão o mundo resolveu fazer inverno. Os céus sabiam que não era dia de festa: aquele era o último momento em que eu me sentiria enorme, mesmo com 1,67 de altura. Era a última chance de ser feliz.

A última coisa que eu poderia demonstrar era fraqueza, logo eu que fugi de cada agrado, elogio ou promessa. Incrível como sem nem mesmo pensar pra isso eu já agia normalmente, falando mais que fazendo e esperando cada afeto por sua vez. Mesmo que no fundo eu quisesse fazer o mundo todo parar e me deixar ser feliz pra sempre.

Ao contrário do que dizem, o tempo não passou rápido demais. Foi devagar, e cada vez mais difícil e silencioso. Por mais que eu não tivesse coragem de carregar minhas palavras com tudo o que eu sentia, meus olhos deveriam entregar a verdade: eu já sofria. Sofria mas ficava o tempo todo em dúvida se o sentimento era merecido ou mais um dos milhares disperdiçados. O meu subconsciente me prega peças e eu quase dei razão pra cada bronca que levei.
Mas foi aí que eu lembrei que era tarde demais pra ser especial, não havia mais tempo de fazer mais parte de algo que não sei se pertenço, ou pentencia. Fiz o meu melhor, em algum lugar deve ter ficado um pedaço de mim. Numa mordida de maçã, numa música velha ou em um coração.
Apesar do sono absurdo, culpa de todo o cuidado e dedicação em escolher cada palavra que fizesse sentido (sentir), eu não dormia pensando se uma folha de papel me faria ser menos ou mais. Menos significante, menos comum, mais babaca ou mais importante.
Entreguei. Destrui todo o momento especial com palavras grossas e uma risada desesperada. Mas assim eu não iria conviver com a dúvida e a falta de certeza de que agora sim, eu fiz tudo o que eu pude.
Respirei fundo em cada contato, em cada olhar fundo. Prestei atenção na mesa posta, nos documentos, nas roupas nos cabides e em cada música no violão. Guardei como eu pude cada carinho e esforcei pra que esse subconsciente retardado guardasse a ordem cronológica detalhadamente.

Sempre chego à conclusão de que fui menos. E sou pega no arrependimento de não saber escolher as palavras e atitudes certas. Mas talvez eu deva parar de tentar mudar meu jeito de resolver as coisas. Eu sou assim. E jamais demonstraria que daquele dia em diante seria difícil. E será.

Quando entrei no elevador a pressão do mundo já parecia outra. Eu me sentia muito mais leve, muito. Mas isso é completamente distinto da sensação de alívio. Não me livrei de um problema nem de um mártir. Eu apenas já me sentia vazia.

Quebrei as regras das regras que eu já havia quebrado. Mas desde o começo, lá no fundo, eu já sabia que a cada vez que eu dizia ter certeza do que estava fazendo eu me perdia mais.
E assim fiquei. Eu nem sabia por onde começar. Passei a conferir insanamente alertas no celular e foi aí que eu toquei: acabou. Meus dias não serão mais cheios de atenção e de planos antecipados pro fim de semana. Nas sextas a noite meu rumo não será definido com duas ligações ansiosas. Eu poderia até mesmo agradecer por não ficar mais em cima do muro com cada oscilação frequente de afeto. Mas até disso eu vou sentir falta.

Estou sendo dramática de um jeito que disse não ser necessário, mas é quase engraçado de tão injusto que o destino me parece. Não pedi mais além do que eu pude dar, e mesmo assim recebi o suficiente pra completar os meus dias.
Não é à toa que eu seja forçada a me livrar de algo que me faz bem, e mesmo que eu já havia sido avisada que isso seria necessário, só me resta esperar que eu tenha sido algo também. Não sou de forçar situações e sei que jamais ocuparia o lugar de alguém mais presente e mais importante. Não há como comparar ou eliminar anos de afeto em detrimento de dois meses. Nunca tive essa ilusão.
Mas só espero que de alguma maneira sobre algo a ser lembrado, algo bem guardado. Assim como há em mim. Não consigo saber ainda o que eu farei com os meus dias e com essa minha cabeça teimosa, que insiste em pensar em você. Não me sobrou nenhum plano de ação além do de tentar ser feliz, mais uma vez.
Agora eu sei, que despedida é uma das piores coisas do mundo.

Não apenas uma, mas aquela de amor.

Na penúltima linha, quando houve o prenúncio do clímax absoluto da linha de pensamento, meu primeiro, e mais natural impulso, foi tacar a folha pra longe de mim, no outro canto da cama. Levei a mão à boca e fiquei a imaginar se aquele turbilhão era felicidade, surpresa ou apenas mais um loop inesperado.
Não sei por que as pessoas enfrentam filas num parque de diversões para quando sentar no carrinho da montanha-russa fechar os olhos e só abrir quando os freios são acionados. Você espera por algo, pensa em desistir, teme, precisa de incentivos e depois, simplesmente, fecha os olhos esperando que tudo acabe logo. Mas então porque decidiu andar na montanha-russa?
Talvez pela primeira vez eu não esteja com o dicionário em mãos, buscando sinônimos, ouvindo músicas atrás de inspirações. Tudo para mascarar, ou melhor, conseguir me permitir dizer o que precisava dizer. Estou sendo claramente sincera como poucas vezes. E quem sabe pela última: eu sei bem quem presta atenção no que eu digo, ou escrevo. Ao menos conheço quem frequentemente brinca nas interpretações dos meus erros, dos meus sentimentos mais errados e absurdos. E eu sei que a pessoa dona dessas palavras ainda irá lê-las. E espero que as entenda também.

Os dois parágrafos acima me parecem pobres, fracos e mais descarados do que o meu bom senso poderia permitir. Nunca escrevi pra isso, nunca imaginei que alguém além de mim pudesse ler e encontrar sentido, semelhança. Mas hoje eu faço uso do pombo correio.
Eu queria chegar em casa e salvar o mundo, ou tentar consertar um coração partido. Mas quando finalmente respirei fundo, cantei um refrão da música que estava ouvindo, e terminei de ler a carta eu simplesmente segui meu instinto quase animal: desabar em letras tudo o que isso significa pra mim.

Pode parecer que não, mas a cada momento, a cada pedaço de vida compartilhado, eu me vejo pensando em como não machucar quem eu quero bem. E até mesmo pensando se eu ainda sou culpada, se antes plantei sementes que hoje não condizem com o meu terreno. Ou, se num momento de baixa racionalidade, brinquei com o que não posso cumprir. Nunca agi além do que pensei ser capaz, nunca pronunciei palavras que não me fossem verdadeiras. O rumo simplesmente acabou sendo outro.
Não acho que assim seja ruim, injusto ou diferente do que eu imaginava. A família que construímos, hoje, é como um castelo feudal. Protegido por enormes muralhas, soldados eficientes e servos obedientes. E eu sou cada servo que cumpre suas funções, cada soldado que age instantaneamente quando algo parece ser perigoso. E justamente por isso, ainda carrego o peso de fazer tudo errado, mais uma vez.

Eu não tenho capacidade de prever, e muito menos noção de palpite para tentar adivinhar cada curva que essa história ainda irá percorrer, cada linha em branco que será verdadeiramente preenchida. Hoje, eu só consigo ter certeza de até onde eu consigo ir. E eu temo por ser pouco.
Poucas pessoas no mundo merecem confiança prévia, respeito absoluto e carinho eterno. Mas, parece que você, desde o primeiro suspiro de vida, já tinha, na minha vida (que ainda não era fisicamente real), esse posto intocável e insubstituível. Só consigo concluir que não mereço o cuidado, a letra desastrosa, a seleção musical e o amor. É tudo tão absolutamente sincero que não posso retribuir, pelo menos como talvez você espere que eu retribua.

Não pensei que, tão cedo, fosse ter que lidar diretamente com essa situação. Ou talvez eu até imaginasse, mas fingi não ver só para não cair na certeza de que iria decepcionar quem menos merece.
Assim, você me deu as palavras. Eu as captei, juntei com os sorrisos e tomei pra mim de forma natural, que condiz com o que eu sinto e com o que faz sentido nesse momento.

Não há nada errado, fora de hora, exagerado ou não correspondido. Apenas pode ser que, lá no fundo, os princípios sejam outros, e as raízes sejam feitas de compostos vegetais diferentes. Contudo, elas convivem num mesmo gramado, vaso, jardim ou floresta. Onde quer que esteja, seja, faça, diga, a verdade não muda: em mim também cabem sorrisos e amor, que crescem conforme os ciclos de claro e escuro intercalam-se.

O pior é saber que ainda cometerei erros enormes. Decepcionar e chatear você são erros dos piores: sei que cometerei, sei que terei a culpa, e ainda assim não posso detê-los. Minha vida ainda tem rumos a seguir, histórias para construir, frustrações e outros amores. Acredite. Eu me sinto incapaz, impotente e imbecil de não poder poupar que você presencie algumas coisas que talvez não te façam bem. Mas, eu preciso viver a minha vida. Preciso escrever minhas linhas tortas e respirar cada sopro de vida.

Soa clichê, mas eu também não posso fugir da palavra mais simples e significativa que consigo encontrar agora: desculpe. Por não ser quem você espera que eu seja, por não corresponder ao que você deseja e por ser tão burra, inquieta, e ainda assim consciente, de preferir viver pelo erro.

Castelo de areia

Condições adversas. Eu estava onde não queria estar, cercada por pessoas as quais eu não gostaria de compartilhar do meu tempo. Mas eu estava adorando aquilo.
É exatamente o momento em que não há condições de se passarem muitas coisas pela cabeça além do fazer ou não fazer. E tudo se resume na enorme besteira de guiar os seus atos já pensando no que os outros irão pensar. Começar a dizer que não me importo é a maior afirmação de que exito por me importar.
Às vezes uma linha muito fina e frágil separa dois rumos distintos. Eu entendi onde estava e cada uma das não-regras embutidas nisso, mesmo que os coadjuvantes fossem fora da minha realidade, e talvez parte de onde eu queria estar e tinha certeza que nunca estaria. Mesmo que agora já estivesse.

Isso me remete à longa e dura transição do ser ou não ser, obrigatoriamente embutida na vida de quem se aventura a viver. Pode até ser que haja vida, e boa vida, além disso. Mas, a minha ganhou cores a partir do momento em que as duas caixas derramaram seus conteúdos no chão. E não houve mais distância, diferença e empecilho entre os de lá e os de cá.
Foi assim que me lembrei de que não há segredo. Que o justo fato de não ser naquela época está me fazendo ser agora. Ser alguém pra que se saiba que existe, sem as manchas de quem já existia.

Não houve mais limite, e eu não pude me desprender do peso de quem, mil quilômetros depois, vai me julgar pelas minhas escolhas. Faço bom uso do álibi. Terra sem lei, atitudes sem lei.

As linhas em branco receberam tudo aquilo que elas não estavam prontas pra receber. Mas ainda assim, tudo o que faltava pra completar o capítulo. Muito teria sido diferente, para menos, sem os detalhes de afeto e desafeto. As histórias contadas seriam outras. Se é que haveria alguém para ouvi-las.
Todo álibi depois, não existe isso de pregarem com pregos de aço as histórias, cada uma aonde aconteceram. Elas voltam, dentro do maleiro do avião. E aqui reaparecem, consequência por consequência. Julgamento por julgamento. 

O castelo foi construído. E apesar da fraca fundação, das rachaduras, e das frequentes e insistentes ameassas de tempestade. Mas eu quero que ele continue de pé, pelo menos até a data do fim.


Since

E quando foi que nós nos perdemos? Não vejo um divisor de águas, um copo a mais ou uma tragada a menos que tenha mudado nossas verdades. Então o que é a verdade? Algo que muda ao longo dos dias não pode ser exato, racional e iniludível. A constante permutação de tudo aquilo que abraçamos e defendemos com unhas e dentes exclui o conceito de veracidade nos primeiros pré-requisitos. Então, diga-me, o que é a verdade?

Foi no momento em que eu abri uma janela que você fechou outras duas? Ou foi quando eu tapei o sol com a cortina que você se protegeu com óculos de sol?

Quando tudo que fez parte parte do meu passado caiu em ruínas, que mal servem como boas lembranças, acreditei na ilusão de que você permaneceria aqui. E de repente eu ouço você me pedir “por favor”, como se sete anos se reduzissem a nada.
Vejo um muro divisor. Grande em todos os sentidos (assumo todo o rancor comparativo), mas ainda assim pequeno. Pequeno de positividade, pequeno de atitudes e situações concretas. Transbordando de sonhos utópicos, alegóricos. Sonhar tem sido pouco.

Ainda que eu me veja coberta pelo sagrado manto da razão, não esqueço o outro lado da moeda. A coroa me incentiva enquanto a cara me mantém com os pés no chão. Basta virar a moeda para que eu seja exibicionista, vulnerável, e mais uma. Enquanto você é quem tem o real valor, quem a mãe passa a mão na cabeça enquanto consola, que o mundo é sim ruim, mas quem é realmente bom tem seu lugar guardado. Você tem todo o talento do mundo, cabeça forte, personalidade e apoio familiar. A idiota aqui, sou eu. Eu quem faço tudo errado.

Dia-a-dia me consumo em favores da qual nunca fui obrigada ou recompensada. Fico articulando palavras e tentando me colocar numa gaveta que não caibo mais. Até uma criança já teria resolvido seu problema dividindo suas canetas coloridas novas pra cativar amizades. E eu continuo a passar, dia após dia, pensando quando é que isso vai acabar.
Mais quatro, cinco, seis anos é mais do minha capacidade apaziguadora pode suportar. Até lá, tudo o que permaneceu entalado, como biscoito água e sal, terá me transformado no que eu sei que não sou, e que não preciso ser relembrada.

Que assim seja. Assumo a imbestilidade ou qualquer desgraça que me for classificada, com um dedo indicador que só desqualifica. Por alguém que separa por defeitos, e que o melhor é menos pior.
Acima de qualquer discurso furado de quem acha que venceu mais uma batalha: cada passo que me afastou de você, e que aproximou a muralha das lamentações, me fez bem e satisfeita. Não me arrependo de cada passo novo, e de cada pedaço que me coloca onde eu quis. História de vida.

Adrenalina

(Da série que não deveria ter data)
Logo eu, que por tanto tempo evitei as filas de quatro horas por alegar queda de pressão, fui designada aos trilhos de madeira. Que por si só, sacolejam como batedeiras de bolo. Ainda sem um cinto de segurança que prende pelo peito, apenas uma barra fina na cintura. E de costas, pressionando o pescoço contra a gravidade, sempre de costas. Mas nunca para trás.
Logo eu, que sempre achei essa comparação muito fraca e previsível, percebi que nada tem sido diferente dos pontos médios que desenham o polígono de frequência. Com frequência pouco frequente: altíssimos ou baixíssimos pontos máximos e mínimos, repectivamente ou não. Verde e preto. Como um eletrocardiograma oscilante, agudo, preciso, pulsando e vivo.

Vivendo. Foi assim que já nem me lembro de como eu era há cinco minutos, apenas recordo de que estou onde eu, um dia, quis estar. E como já não é novidade: não era exatamente assim que eu imaginava.
Tudo tem acontecido, tudo tem mudado. Mas nada está acontecendo, e nada está mudando. É a luta dos extremos, ter tudo e nada ao mesmo tempo. Ter logo dois pássaros nas mãos, e ainda ver outros dois voando.

Não quero descer. Não sou bem aquela que grita pra acelerarem o controle, mas não pensei em ir para o carrossel. Tenho raras lembranças dos cavalos dourados, que se restringem a fundos de fotos. Sem lembranças do que ficou, ou do que me contaram. Lembro das curvas, do dragão vermelho na frente do primeiro lugar e da cauda espetada logo ao fim. 



Sou viciada em adrenalina, o tremer ansioso de uma perna sob a mesa é a espera pela próxima curva. E justamente ao contrário do que parece, não é um lugar na carruagem espelhada a resposta das perguntas. A calmaria e a música melancólica vão contra ao que corre nas minhas veias. O preenchimento das lacunas é o traçado de uma ferradura: dois extremos, ligados por um caminho curvado.


E logo eu, que pensei não  precisar de mais nada, nunca precisei tanto. Nunca achei que poderia ser tão necessário me livrar das lembranças dominicais. Nunca pensei que fosse assumir ser de pele e ossos e muito mortal, ao ponto de ser mal completada.

Mas eu não vou descer. Vou ficar bem aqui, à espera do looping que fará o mundo virar de ponta cabeça. Para que mesmo que eu veja o céu azul com nuvens brancas, eu retorne rapidamente ao eixo, e volte a ver o chão, mesmo que com a maior brutalidade possível. Já que dizem que o certo é o lado direito e ainda assim tudo continua virado, só me resta virar do avesso pra ver se assim alguma coisa passa a fazer sentido por aqui.

Das coisas que me fazem perder metáforas.

Incondicional e independente. Pensei que essas palavras fossem permanentemente ligadas à felicidade de quem se gosta. Quem me ensinou isso – e deve ter sido a vida -, me enganou feio.
Entendo que encontramos uma bifurcação e cada um de nós optou pelo o que o outro já viveu. Entendo, não julgo, não questiono, apenas entendo.
Depois de algum transtorno e perseguição, aprendi que é fase e naturalmente apoiei. Já guardei tudo o que houve de bom, esperando o momento de abrir caixa por caixa, gaveta por gaveta até encontrar aquelas com feixes coloridos que havia perdido.Mas nada disso significa que eu desejo que encontrem as caixas por mim. O que cabe a mim, cabe a mim e a mais ninguém.
Não há problemas em assumir egoísmo e qualquer outro erro, só não posso trair o forte sentimento de que pra ser, tem que ser meu. Essa convicção e inflexibilidade estão beirando a aceitação. E eu irei aceitar, sem maiores escândalos, demonstrações e palavras. Mas não irei concordar, felicitar, torcer e comemorar. Ainda quererei como quero; Ainda sonharei como sonho; Ainda planejarei como planejo. Tudo para que, no exato momento em que decidir ser e estar, seja meu, esteja comigo e com mais ninguém.
É o poder da madrugada, agravamento de simples pensamento, e exposição de uma única certeza: tempo, tempo de novo.