Depois que passa a gente realmente pergunta se custou tanto assim. E vendo por esse aspecto, eu poderia estar numa grande subida, bastam cento e oitenta graus para qualquer um dos lados. Descida ou subida, enfim, cada pedaço desse percurso foi arrastado e cravado no papel, como um giz de cera forçado contra a superfície, soltando lascas e despedaçando a cada letra a mais escrita.
Três dias. Três fases. Comecei nessa história toda muito ansiosa e pouco orientada, caindo cada vez mais na contradição de não querer encarar o dia e ao mesmo tempo desejar passar por ele três vezes. Quando lembrei de não criar expectativas eu já havia mergulhado de cabeça, depositando a responsabilidade de um dia feliz na proporção direta com a proximidade de dois corpos.
Envelhecer, digo, passar os anos é algo fácil, escorregadio e perigoso. Quando menos se espera lá está de novo a montanha russa te chacoalhando para todos os lados, transtornando – e não menos transformando – o que termina com um simples soprar de velas.
Maldita falsa expressão de quem pouco espera e, na verdade, dedica cada centímetro da existência para um momento de reconhecimento e realização. Dois toques no celular, um mimo como presente ou um drink colorido. Quem sabe algumas três palavras bonitas e “não, que isso, sei onde estou pisando”.
Colapso da não-programação mal programada. Quem não envia convites obviamente fica sem convidados. Mas, eu fui. Se eu não fizer por mim, quem é que vai fazer?
Somente as selecionadas do carro, as que nunca escolhi no cd, que simplesmente tocavam antes da locutora falar sobre o dólar no dia clareando aos poucos. As músicas que sem querer falam muito mais do que já fomos capazes. E que talvez só falem por mim. A ansiedade desmerecida e a confiança rara, a traição de acreditar estar tudo certo justamente quando blocos de gelo descem rolando pelas escadas.
O desespero do amanhã, as tardes vazias e as noites desencontradas. Perdi o caminho de casa e sabia que precisava voltar. Quis guardar tudo num pote de vidro, ao lado do doce de leite mas tudo o que pude fazer foi decorar os gestos, o carregar da mochila, o timbre e o tchau. Era preciso começar, recomeçar, ou começar. Mas eu não queria, se eu não quero quem é que vai fazer por mim? Dia de nascer é também dia de inexistir.
Acordei com a sensação de roupa fresca com amaciante. O despertar tranquilo de um coração apertado. A tristeza também é bonita, justamente pelo acalmar narcotizante. Esqueci de esperar alguma coisa.
Quando pequena, esse momento sempre entrava na fila dos melhores do ano. Se eu tivesse conseguido usar um diário durante um ano inteiro, essa página certamente seria coberta de corações. Bastava enrolar os docinhos, tomar banho às quatro da tarde e esperar, sentada, usando algum vestido bonito. E tudo infelizmente terminava com o desembrulhar dos presentes, que ficavam semanas espalhados pelo quarto.
Além dos doces, restava-me a refeição completa. A simples lembrança do ritual que sempre me fez tão feliz foi amenizadora. Afinal, não estava somente eu naquele mundo.
Na realidade, é injusto deixar nas mãos, de quem nem sabe ser responsável, o que se espera pra um dia ou para uma vida. Vida. Justamente esse suspiro de existência pode ser o suficiente desde que seja grato. Gratidão, também reconfortante com um punhadinho de boas amizades.
Sentir cada pedaço desse fervilhão me fez esquecer que nessa queda (ou subida?) uma gaveta esperava aberta para ser preenchida. Sem ter preparado qualquer tipo de discurso ou objetos coloridos para trancar dentro da gaveta e abrir no ano que vem. E justamente por isso, cada sopro de desejo foi o mais sincero e visceral possível.
Um dia após o outro, e tudo parecia ter sentido novamente. O carinho dos pequenos detalhes, o conversar tranquilo. O despertar vagaroso de quem já não espera muito e busca em cada pedaço de sol um passo além do que já foi. O silêncio compartilhado e a falação descontrolada. Bastou-me aprender a perceber quem está junto e que insistir nem sempre é a solução.
Uma flor de papel amassada, uma caixa toda escrita e o fluxo acelerado na rua. Uma pedra tão grande e maciça fica tão pequena e destrutível quando é colocada frente a um vulcão, um mundo de tantos acontecimentos que mal começaram a, simplesmente, acontecer.
Você é feliz? O que você está fazendo pelo o seu futuro? Quem você admira? A genialidade de quem é julgado como pouco, como invisível e, na verdade, é muito mais, muito maior do que qualquer terno apressado que passa pelas ruas perpendiculares pensando em número e em negócios. E quem sou eu pra reclamar? E quem sou eu pra duvidar do que a vida tem pra me trazer? Eu não sou ninguém. E eu quero mais é que a vida venha, venha com tudo. Que satisfaça a minha sede ao mesmo tempo que me deixe louca por mais um copo. E que me lambuze com cada parte boa e ruim, pois só assim abrimos os olhos e percebemos que realmente, nunca vamos entender nada, absolutamente nada do que estamos fazendo aqui. E continuemos, nos perdendo e nos encontrando a cada esquina dobrada, a cada vez que olhar pro céu e pensar que sim, a vida está lá fora.
Três dias que renderiam um livro sobre o aumentar em metros de uma pequena existência. Sincera e visceral.

