Szívem

Não sei como é possível cair, cair, cair e ainda assim observar as imagens vagarosamente nesse poço marrom, cheio de gavetas. Algo como Alice no País das Maravilhas que sente tédio numa queda que, curiosamente, custou a terminar.

Depois que passa a gente realmente pergunta se custou tanto assim. E vendo por esse aspecto, eu poderia estar numa grande subida, bastam cento e oitenta graus para qualquer um dos lados. Descida ou subida, enfim, cada pedaço desse percurso foi arrastado e cravado no papel, como um giz de cera forçado contra a superfície, soltando lascas e despedaçando a cada letra a mais escrita.

Três dias. Três fases. Comecei nessa história toda muito ansiosa e pouco orientada, caindo cada vez mais na contradição de não querer encarar o dia e ao mesmo tempo desejar passar por ele três vezes. Quando lembrei de não criar expectativas eu já havia mergulhado de cabeça, depositando a responsabilidade de um dia feliz na proporção direta com a proximidade de dois corpos.

Envelhecer, digo, passar os anos é algo fácil, escorregadio e perigoso. Quando menos se espera lá está de novo a montanha russa te chacoalhando para todos os lados, transtornando – e não menos transformando – o que termina com um simples soprar de velas.

Maldita falsa expressão de quem pouco espera e, na verdade, dedica cada centímetro da existência para um momento de reconhecimento e realização. Dois toques no celular, um mimo como presente ou um drink colorido. Quem sabe algumas três palavras bonitas e “não, que isso, sei onde estou pisando”.

Colapso da não-programação mal programada. Quem não envia convites obviamente fica sem convidados. Mas, eu fui. Se eu não fizer por mim, quem é que vai fazer?

Somente as selecionadas do carro, as que nunca escolhi no cd, que simplesmente tocavam antes da locutora falar sobre o dólar no dia clareando aos poucos. As músicas que sem querer falam muito mais do que já fomos capazes. E que talvez só falem por mim. A ansiedade desmerecida e a confiança rara, a traição de acreditar estar tudo certo justamente quando blocos de gelo descem rolando pelas escadas.

O desespero do amanhã, as tardes vazias e as noites desencontradas. Perdi o caminho de casa e sabia que precisava voltar. Quis guardar tudo num pote de vidro, ao lado do doce de leite mas tudo o que pude fazer foi decorar os gestos, o carregar da mochila, o timbre e o tchau. Era preciso começar, recomeçar, ou começar. Mas eu não queria, se eu não quero quem é que vai fazer por mim? Dia de nascer é também dia de inexistir.

Acordei com a sensação de roupa fresca com amaciante. O despertar tranquilo de um coração apertado. A tristeza também é bonita, justamente pelo acalmar narcotizante. Esqueci de esperar alguma coisa.

Quando pequena, esse momento sempre entrava na fila dos melhores do ano. Se eu tivesse conseguido usar um diário durante um ano inteiro, essa página certamente seria coberta de corações. Bastava enrolar os docinhos, tomar banho às quatro da tarde e esperar, sentada, usando algum vestido bonito. E tudo infelizmente terminava com o desembrulhar dos presentes, que ficavam semanas espalhados pelo quarto.

Além dos doces, restava-me a refeição completa. A simples lembrança do ritual que sempre me fez tão feliz foi amenizadora. Afinal, não estava somente eu naquele mundo.

Na realidade, é injusto deixar nas mãos, de quem nem sabe ser responsável, o que se espera pra um dia ou para uma vida. Vida. Justamente esse suspiro de existência pode ser o suficiente desde que seja grato. Gratidão, também reconfortante com um punhadinho de boas amizades.

Sentir cada pedaço desse fervilhão me fez esquecer que nessa queda (ou subida?) uma gaveta esperava aberta para ser preenchida. Sem ter preparado qualquer tipo de discurso ou objetos coloridos para trancar dentro da gaveta e abrir no ano que vem. E justamente por isso, cada sopro de desejo foi o mais sincero e visceral possível.

Um dia após o outro, e tudo parecia ter sentido novamente. O carinho dos pequenos detalhes, o conversar tranquilo. O despertar vagaroso de quem já não espera muito e busca em cada pedaço de sol um passo além do que já foi. O silêncio compartilhado e a falação descontrolada. Bastou-me aprender a perceber quem está junto e que insistir nem sempre é a solução.

Uma flor de papel amassada, uma caixa toda escrita e o fluxo acelerado na rua. Uma pedra tão grande e maciça fica tão pequena e destrutível quando é colocada frente a um vulcão, um mundo de tantos acontecimentos que mal começaram a, simplesmente, acontecer.

 Você é feliz? O que você está fazendo pelo o seu futuro? Quem você admira? A genialidade de quem é julgado como pouco, como invisível e, na verdade, é muito mais, muito maior do que qualquer terno apressado que passa pelas ruas perpendiculares pensando em número e em negócios. E quem sou eu pra reclamar? E quem sou eu pra duvidar do que a vida tem pra me trazer? Eu não sou ninguém. E eu quero mais é que a vida venha, venha com tudo. Que satisfaça a minha sede ao mesmo tempo que me deixe louca por mais um copo. E que me lambuze com cada parte boa e ruim, pois só assim abrimos os olhos e percebemos que realmente, nunca vamos entender nada, absolutamente nada do que estamos fazendo aqui. E continuemos, nos perdendo e nos encontrando a cada esquina dobrada, a cada vez que olhar pro céu e pensar que sim, a vida está lá fora.

Três dias que renderiam um livro sobre o aumentar em metros de uma pequena existência. Sincera e visceral.

Vinte e seis

Eu mal me aguentava de ansiedade nas coxias. Andava descalça pra lá e pra cá naquele chão frio e empoeirado, não conseguia ficar parada um minuto sequer naquele dia que estava sendo o segundo do conjunto dos três melhores.
A manhã começara me distraindo com algo entre física e geografia, num ar condicionado gelado que ardia os olhos de quem havia desacostumado a acordar tão cedo. O calor da hora do almoço triplicou dentro do carro parado no minhocão. O trânsito ia me atrasar e eu não podia. Salva por alguns minutos, cheguei a tempo de um grande abraço e palavras boas. Mergulhos na ressonância e eu já dava braçadas de encantamento. Quis sair rabiscando as paredes da casa toda mas, de novo, eu precisava correr.
De frente pro espelho do banheiro-camarim eu arriscava os passos que tinha de cor mesmo sabendo que algum faltaria no momento certo. Uma sombra preta atrapalhada, barulho de todos instrumentos sendo tocados ao mesmo tempo e pedidos inúteis de silêncio, eu não era a única ansiosa.
Pessoas mais atrasadas do que eu, vozes trêmulas e velas que não paravam acesas. Planos de uma sexta a noite que mal começava e passos animados no canto do palco prontos pro acorde combinado. Entrei, dancei, errei e não pude enxergar nada além de um palmo à frente e luz me ofuscando a vista. Estaremos juntos no ano que vem, abraços e o choro que não saiu.
Pela última vez no dia eu estava atrasada. Ainda deveria comer a pizza o mais rápido possível e mostrar que eu podia. Foi quando me lembrei que mal tinha pensado em tudo o que deveria ser feito, nem mesmo numa roupa poderosa ou um drink desencanado pra segurar na mão desatenta. Mas a imagem, no meio da pista, a minha mente estava decorando com esmero.
A pizza tardou a chegar e eu me vi desviando o plano perfeito. Poucos caracteres num pedido de desculpas e me vi esperando algo maior – que, na verdade, resume-se numa desimportância quase extrema. Você cogitou o vestido amarelo e acabou no casaco azul bebê. Eu fui de couro.
Conhecia aquela rua, mas não imaginava qual era quando li o endereço. A casa transbordava de gente, o portão estava aberto mas eu liguei antes de entrar. A sala de estar não estava menos abarrotada. O sofá arrastado, o tapete amarrotado e a mesa vazia. Todos os objetos deviam estar trancados dentro dos armários para evitar maiores problemas. Mas a medida de prejuízo foi pouca.
Ganhei um copo de plástico e reconheci os convidados na cozinha em meio a outros que já passaram do ponto. Dali eu podia ver, pela janela, o quintal, com tantos outros rostos que eu mal começara a decorar os nomes. Um rodo limpando o chão, e você batendo a cabeça na geladeira. Nos sentamos no aparador da sala de jantar, de frente para a mesa com sacos de salgadinho rasgados. Algumas palavras insistentes, convidados de uma festa de debutante e em dois flashes havia alguém em cima da mesa, gritando que a festa havia acabado. Gritou, apenas. A festa custou terminar.
Em pé na sala de estar conversávamos floridamente sobre coisas floridas. Algo entre os porta-retratos ao lado da televisão e os autênticos documentos de identidade que justificavam os copos nas nossas mãos. Apenas cinco sirenes de polícia depois alguém gritou que apenas os convidados deveriam permanecer na casa. Ou seja, a rua automaticamente sofreu com a superlotação de pessoas evitáveis, inevitáveis, substituíveis e insuportáveis.
Subimos a rua, nós três, para chegar ao táxi. Pessoas, que de tão conhecidas se tornaram todas iguais, fizeram piadas que voltamos para ouvir. Roupas de mulher, conversas virtuais, feriado, quinze dias atrás. Juntei as informações e entrei no táxi, aliás, um dos poucos legados sobreviventes daquela época. Tão logo cheguei em casa já me esqueci de tudo.
Mal lembro o que comentamos depois de tudo o que passou, aliás, se comentamos alguma coisa depois. Exatamente por não imaginar o que viria depois minha memória exclui os maiores detalhes. O caos de um dia que haveria de ser completamente diferente do que foi, refletido no que não esperávamos que fosse hoje. E agora você segura naquela mão e eu, mal me aguentando de ansiedade na coxia, espero pela próxima cena.

Maracujá

Foi numa dessas mordidas geladas que doem os dentes de baixo que pensei: poucas coisas na vida me lambuzam como um picolé natural de maracujá. Azedo o suficiente pra não melar os dentes de açúcar e doce o bastante pra não fazer careta feia.

Descobri que gosto da vida-maracujá. Aquela que me dá sede pra beber uns dois copos de água trincando de tão gelada e deixa ferver qualquer temperatura ambiente. Sobrando apenas o palito melecado que arrepia só de imaginá-lo raspando, de novo, nos dentes de baixo. São os amores-maracujá que não precisam de corante algum. São amarelíssimos só por existirem. E me mostram cada uma das sementes que estalam nas mordidas. Cleck.

Poucas coisas me são tanto na vida quanto um picolé de maracujá. Não tem meio termo e quem gosta adora. Não adianta colocar açúcar e dá pra percebê-lo de longe. Eu no palito.

Calendário

Parece um poster, quase um quadro ou um mural de avisos. É musical mas não canta. Aliás, só é musical para quem lhe é familiar. Parece tudo isso mas ele é muito mais simples: trata-se de um calendário.
Separando cada dia com um quadradinho me faz lembrar minha noção infantil do passar dos dias. Quando comecei a entender que dormir virava o dia, enxergava uma linha contínua cheia de quadrados, como uma amarelinha, e me via pulando cada um deles toda vez que alguém dizia “daqui três dias…” Minha imagem mental talvez não tenha mudado muito, e muito menos agora que eu realmente pulo os quadrados. Pulo e os desenho.
Quando paro pra pensar qual roupa vou usar em tal festa penso junto qual será o desenho para aquele dia. E eu nunca adianto as informações, o espaço só é preenchido após serem completadas as vinte e quatro horas correspondentes. Pego o porta-canetas, sento em frente ao calendário e penso o que quero deixar marcado daquele dia, ou como toda teimosia na minha vida às vezes escrevo o que devo e não o que quero. 


Registro as músicas tocadas repetidamente, viciadas no meu ipod e que são o que estou ou o que sou. Depois, tomo o cuidado em não repetir cores e tento desenhar. Tento, pois quando erro colo adesivos feios em cima que de nada adiantam por gritarem: “alguém errou por aqui”.
As franjas beatlenianas e os trechos escolhem, sozinhos, dias para preencherem de vida, ou de suspiros, a cada mês. Me vejo imaginando quais serão os desenhos do mês começando e faço balanceamentos dos que estão pra acabar.
Apenas sento e penso no meu dia, no que pensei e ninguém sabe, no que falei e todo mundo ouviu. É repetitivo, decodificado e com mais letras que desenhos. É o meu lovesick diary, como não poderia ser diferente vindo de mim. 

O ano está acabando. Me restam pouco menos de sessenta quadrados. Preciso de um novo. Urgente.

Meia-calça

Meu secador de cabelos está beirando o curto circuito e não desliga mais, precisando ser puxado pelo fio, mesmo que de qualquer jeito, para desconectar da tomada. Os botões de regulagem se movem sem sentido: a velocidade permanece no máximo e a temperatura é a mais quente possível. E eu ainda o uso, e usarei até quando o cheiro de queimado tornar-se o próprio queimado em si.
Com as orelhas pegando fogo, eu secava os cabelos enquanto sentia a corrente de vento passando pelos pés. A fresta da porta aberta que a conecta com a janela quase fechada. Eu ia, nem que fosse sozinha e pelas próprias pernas. Era maio, e eu merecia sair de casa por simplesmente sair de casa e fazer minha vontade. 
No caminho tratei de comer os biscoitos integrais, já que o café da manhã insistiu em ficar gelado na mesa da cozinha, não descia por nada. Quando ainda havia dedicação, abri um livro e li coisas sobre civilização e leis de trânsito. Uma, duas e a estação chegou. Lugar desconhecido e eu mal havia pensado por onde começar. Um número nunca discado e eu mal havia pensado por onde começar.
Tentei ser ruiva, mas tive que ser o que me sobrou pra ser. Em pé, sem graça. Retrocedendo no calendário e as palavras saindo naturais da minha boca, como quem não entende porque demorou tanto tempo para as coincidências acontecerem. Exclamações surpreendentes e minha bolsa apoiada no chão, em meio a tantas pessoas mais desconhecidas ainda. Num piscar de olhos o rádio começou a tocar e eu era a única que não conhecia a melodia inteira. A única.
Two steps e o mundo girou devagar. Aquele era um mundo novo e eu gostava muito disso. Minha falta de habilidade em rir quando fico constrangida e duas olhadas no espelho: “não precisa”.
De volta à quinta série, no canto atrás da lavanderia. Sem acreditar. Uma divagação tão longa pra quem sempre conversou. Deitados na grama, sem olhar o céu, de frente pra um palco de um festival de rock. O chaveiro e a meia-calça. Abri a porta e desci. Naquele momento eu não esperava nada, não sabia se devia esperar, e nem mesmo sabia o que esperar. Mas a certeza era factual: eram novos tempos.


All happening

Prólogo

O contar da história é lento, mas o ouvir é apressado. O resumo da obra termina por ser subestimador e coloca o diferencial como fator comum. Entretanto, a história é longa, agregadora, compartilhada.São as músicas preferidas, o jeito de falar e o café da manhã. As manias da adolescência e os ídolos do rock que levaram ao jeito de se vestir. Os lugares que levam a você, a mania de arrumação e as caixas de remédio.

Do despertar ao deitar. O primeiro dia, a nota baixa, o atraso no emprego e um cd novo. A fantasia de astronauta que somente a mãe acha bonito te ver usando. É o meu número, afinal.

Eu-lírico

Eu já quis correr contra o vento ou a favor da maré. Pensei que nada fosse passar e tudo passou. Achei que não podia levar nada disso a sério, esqueci de ter expectativas e de repente ouviu-se o sussurro ao pé do ouvido: It’s real, baby.O começo tão improvávell, o futuro distante que se aproximou de um jeito tão errado que acabou por ser o jeito certo. Quando eu achava que fazer minhas vontades e colocar os sentimentos à prova era me ser pelo bem e pelo mal para me ser, por ser, descobri que me fui esse tempo todo sem perceber.

Cada palavra não dita, cada teoria guardada na gaveta deixou o tempo agir naturalmente. E trouxe tudo que deveria trazer na hora certa. Nada do que é vivido hoje se baseia em certezas concretas nem nunca se baseará. Mas a questão definitiva é prender-se no que foi construído e não no que poderá vir.
Nunca me fui tanto do jeito que eu quis ser. Encontro duplo, simultâneo e sincronizado. Dos.

A obra

Não se trata de injeções de alegria, doses homeopáticas ou doses cavalares de seis em seis horas. É um constante e permanente estado de felicidade. Sincera e clandestina.Tão clandestina que transborda para fora do recipiente. Pelo simples fato de ouvir as botas baterem forte no chão ao caminhar. Tão clandestina que corre riscos por ser quase irregular. Chutei todas as regras para longe e vomitei para fora as cores e as texturas que furtei esse tempo todo.

Foi quando arrumei os meus cabelos frente ao espelho e vi que não se tratava de um espelho. Era simplesmente a minha imagem refletida numa pessoa tão semelhante a mim que eu precisava de placas penduradas no bolso da camisa identificando, pelo sobrenome, quem era quem.

O modificar, também clandestino, do outro acaba por voltar-se para dentro. O que eu quero mudar não é justamente o que me falta? Mas, quando foi que você se tornou o que eu sou? Ou melhor, quando mesmo eu me tornei quem você é?

Aprendi nesse tempo o charme por trás de uma risada no lugar de uma resposta longa, explicativa e massante. É tarde demais para procurar as respostas. It’s all happening and I don’t wanna change fucking anything.

Epílogo

Enquanto houver fôlego. Piadas boas e os acordes repetidamente viciados. Na verdade, nós não somos o mesmo. Apenas nos tornamos o mesmo quando. Quando estamos. Juntos.

Last Year

Eu estava descendo a rua apressada por viver aquela noite. De mãos dadas com quem me segurava forte, mas sem pretenção própria. O plano da noite era voltado pro suéter quieto e inseguro.
Numa daquelas esquinas cheias, e igual como todas as outras, um tropeço me colocou em frente com um erro de quinze dias atrás. E quem mente paga, paga caro. E quem ouve a mentira fica com o troco. Duas palavras gaguejadas, uma simpatia de última hora e eu já nem sabia mais no que pensar. Retomei aquelas ideias de destino e de que haveria reencontro se ele fosse necessário e justo. E houve. Completamente despreparado e indevido.
Por dígitos a menos, quatro se tornaram três na mesa do bar. A reserva pra trinta pessoas foi em vão e logo a noite parecia outra. Tinha que ser outra.
Uma fila enorme se estendia à esquerda da casa com sacada. Alguém disse que aquele seria o dia, e sobrou quem concordasse. Casa cheia, contagem regressiva. O brinde no bar e já não havia amanhã. Como um grito de guerra que precede a vida a ser vivida. E foi.
Música boa e gente demais pra assunto bom de menos. Encostar elimina e implorar só piora. Cinema, bom gosto e nada que mude minha vida. Até aparecer um nome estranho, que não mudou nada mas chegou perto disso. Um assunto prepotente, interessante mas insuficiente. Até que me deram as costas, numa timidez mal educada, mais prepotente, mais interessante e quase suficiente.
Uma conversa tão previsível, tão fantasiada. E a música boa que nos levou pra pista. Open up my eager eyes. Cinquenta ideias num segundo. O assunto não podia acabar, e eu precisava voltar. O espaço era pequeno e ainda assim todos haviam sumido. De longe eu via quem eu queria ver, já duvidando encontrar reciprocidade. Outros cinquenta pensamentos pra ter, e logo o único mal idealizado veio à mente. Ponto final, erro cometido.
Eu continuava precisando encontrar uma companhia e teve de ser a voz rouca prestes a acabar. Enquanto o olhar me buscava de cima. E eu pensava mil vezes por que é que eu era tão pouco esperta. Não é por ser você, aquele ou outro qualquer. É o não poder ter, o desafio e a renúncia. As palavras acabaram, os argumentos e a voz. Alguém tinha de vir resolver aquilo tudo. E veio.
A reprovação e a aprovação de mãos dadas, numa festa prestes a acabar, sorrindo sem pensar que aquilo ainda era totalmente errado. Torcicolo, o clichê e a mesma conversa de quinze dias atrás. E eu devia, de novo acreditar naquilo. A luz negra tira toda e qualquer racionalidade em perceber as mentiras e falsas intenções. Ele não ia ligar nem que quisesse, odiava aquilo.
Subi a rua pensando que havia vivido em dobro: pelo errado e pelo quase certo. Dessa vez sem crer na carochinha, por ter, antes de mais nada, quebrado o sapatinho de cristal e ter entrado direto na abóbora.

Era pura teoria. Mas a prática foi quase infalível. Não ligou. Nunca disse que ligaria. Mas escreveu. E não parou mais.
Outras vozes me ligaram, muitas outras palavras me foram escritas e eu pronunciei tantos outros verbos aleatórios. Inúmeras tentativas de viver metade do que seria possível.

Last year. To happen in this year. To live this year. To be now. To love today. Next year.

Time cures heart

(Da série que não deveria ter data e nunca chegará ao fim)
Já era a segunda vez na semana que ela entrava na locadora de vídeos para buscar o mesmo filme. Até olhou para as outras prateleiras, mas em pouco tempo decidiu que queria ver aquele, novamente. A capa era um colorido desbotado mas não trazia nenhum desenho que chamasse a atenção, não exatamente como os hollywoodianos.
O balconista começou a comentar sobre os lançamentos que tinham acabado de chegar e ainda tinham unidades na prateleira. Apontou para os cartazes às suas costas, com aquelas luzes circulando constantemente. Carros em alta velocidade, apocalipses, histórias de amor em plena noite de natal e uma boa dose de filmes com sangue e espíritos. Mas ele a conhecia bem. Mesmo quando não era seu turno ele via no sistema que aquele filme estava locado, por ela, claro. E nunca conseguiu entender exatamente porquê a repetição.
Ele se lembra de algumas vezes em que ela optou pelo lançamento comentado do mês, ou por um clássico consagrado e cheio de traças. Porém consegue contar com poucas dezenas quantas vezes isso realmente aconteceu. “Esse, de novo?” Ele já nem tinha vergonha mais de questioná-la.
“A trilha sonora é… Tão boa!”. Ela respondeu sem se importar enquanto levantava os ombros como quem não vê outra resposta mais óbvia para dar. Ela já nem se preocupava em falar o código de matrícula ou mostrar a carteirinha de sócia – que na verdade nem sabia aonde tinha ido parar. Enquanto ele registrava o filme ela esperava ansiosa, batendo o pé esquerdo no chão, no mesmo ritmo do dvd que estava passando na loja. Não era falta de paciência, era o costume de quem já nem percebe os movimentos mecânicos de abrir a caixa, passar o código de barras, imprimir o comprovante, aliás, por que ele sempre circulava a data de entrega?
Ela já nem pedia mais a sacola plástica, quando colocavam o filme dentro ela tratava de tirar e levá-lo na mão. A caixinha sempre ia no banco do passageiro, ocupando com propriedade o lugar que deveria ser de alguém. O papel do encarte, meio amassado nas bordas a irritava em alguns dias. A vontade era de arrancá-lo do plástico e arremessar pela janela, talvez com a caixa junto. Deixando somente o dvd meio gasto, apoiado no veludo do banco do carro.
Algum dia o aparelho vai reproduzir o filme antes mesmo do dvd ser colocado. Até os objetos inanimados acabam por viciar nos atos repetitivos de quem insiste em compreender. Sentada com as pernas cruzadas sobre o sofá ela folheava o caderno bege, surrado, com uns rabiscos que ela mesma titubeava em entender.
Os diálogos eram os mesmos, o personagem continuava naquela jaqueta surrada. A trilha sonora era simplesmente incrível, e não havia nada de errado. Exceto pelo fim. Sempre aquele trem correndo pelos trilhos, a menina desesperada e os passageiros sem entender como alguém poderia ter chegado àquele ponto. Deixá-la sentar não poderia mudar muita coisa, mas quem sabe amenizaria o momento de dor. Ilusão.
E quando o filme começava a mostrar os créditos finais ela voltava. Revia as partes principais, em câmera lenta. Como quem tenta encontrar uma palavra sussurrada, ou um vulto ao fundo que pudesse ser subliminar. Mas o que ela entendia uma vez, nunca se repetia. A palavra que aparecia escrita nas nuvens, simplesmente sumia quando ela acionava o repeat. Nada se repetia, exceto o fim.
Sim. Ela também teve a ilustre ideia de copiar o dvd, comprá-lo ou não devolvê-lo nunca mais, pouco sentido havia nas repetidas locações que além do gasto exigia o empenho de ir até a locadora e procurá-lo nas prateleiras. Aliás, deveria haver uma pequena conspiração para que a cada mês ele mudasse de lugar. Mas ela sempre o encontrava, sem precisar perguntar aos funcionários. Talvez fosse um tipo de magnetismo, algo que a levava ao lugar exato, mesmo se vendasse os olhos.
Sim. Ela já se perguntou o porquê de alugar o mesmo filme tantas vezes ao ponto de encontrar furos, erros de continuidade e (quase) enjoar dos personagens. Mas tudo fazia mais sentindo enquanto cada incógnita aumentava. Algumas passagens eram tão simples que poderiam conter novas histórias dentro delas. Contradição demais pra filme de menos. Nem quatro horas de gravação resolveriam os problemas e clareariam as ideias.
Não era o melhor filme do mundo, o mais bem feito. Estava cheio de defeitos, e era um pouco fraco. Mas era o seu filme. Ela só precisava entender os diálogos, rever a fotografia, ouvir a trilha sonora, retroceder nos momentos decisivos, e escolher parar quando tivesse vontade. E fazer tudo novamente. Voltar ao mesmo lugar para devolvê-lo e retornar quando bem entendesse para começar de novo. E mais uma vez.
Tudo para acordar no dia seguinte sendo a mesma pessoa. E de novo, mais uma vez.

Anti-herói

Duas cicatrizes no queixo. Três pontos para uma brincadeira de cobra-cega quando criança, cinco pontos para uma queda de skate durante uma manobra, já adolescente. Marcas que não sem propósito costumam caracterizar quem não costuma ficar tempo demais no sofá. Na ausência de uma nova cicatriz, o zumbido doloroso da máquina de tatuar estava, naquele momento, registrando uma nova fase de vida. E não necessariamente como uma atitude desenfreada e instantânea como um corte que sangra, e sim como uma linha fina que também sangra, mas segundo por segundo registra na pele o que a vida se encarregou de fazer até aquele momento.

   Quem o ouve falar baixo e devagar mal imagina que a calma não impede que a personalidade forte transpareça. E paradoxalmente as pausas nas frases bem pensadas transmitem força. Sem parecer rude, apenas forte. E por ser forte é também verdadeiro. Não há equívoco ao achá-lo correto ou transgressor demais.

   Sem ser contraditório, Laercio aglutina a atitude de quem já subiu em janelas pra pichar muros, mas não por falta do que falar: exatamente por sobra do que dizer, como quem lê e tem uma resposta firme pra tudo. Certa vez pegou o último trem partindo de São Caetano, e com seus amigos e algumas latas de spray desceu em Mauá para deixar marcas urbanas nos muros da cidade, que nenhum deles conhecia muito bem. Enquanto ele e um amigo pichavam um prédio, outro ficou encarregado de observar a chegada de qualquer estranho a eles, e não deixou de cumprir a missão em avisar: a polícia veio e cada um deles correu para um lado. Mesmo sem as latas de tinta, as mãos ainda estavam sujas e não pôde fugir das viaturas que os perseguiam separadamente. Quando questionado sobre estar pichando, negou. Mas a criatividade foi falha ao justificar estar indo para casa, àquela altura da noite. Sem demora foi colocado dentro da viatura e foi de encontro a outro amigo que também havia sido pego.

   Em momento algum conversou com seu amigo, apenas o observou de longe enquanto os policiais riam e combinavam a regra do jogo: a cada vez que ele desse uma resposta negativa, seu amigo situado há alguns metros em outro muro sofreria consequências. Concordar com os questionamentos sobre estar sujando as paredes ou ter vontade de ir até a delegacia parecia incoerente. Mas ao mesmo tempo em que seu amigo recebia os murros sem poder ouvir as respostas, ele sabia que ao ver o amigo balançar a cabeça negativamente não ficaria barato para ele também. Passados dez minutos de tortura psicológica ambos foram liberados. Com vários hematomas, mas aparentemente não o suficiente para aprender a lição.

   Outra vez foi necessária, e nesta tapas ou arranhões não foram as medidas tomadas. Teve que cumprir trabalho voluntário na Escola de Ecologia, local em que teve gosto em ajudar. A pior parte era alimentar as cobras. E não só pela sensação de risco ao abrir o viveiro do animal, mas também pela necessidade de dar ratos vivos como refeições. Cobras, num ambiente de estudos e exposições, têm mais validade que um mero rato, não podendo correr o risco de que num momento de distração seja atacada. Como precaução, os ratos deveriam ser dados à cobra após um tratamento de choque: eram pegos pelo rabo e levemente batidos numa mesa. O suficiente para ficarem zonzos, sem que os ossos se quebrassem e tivessem que ser substituídos por outros ratos.

   Desde cedo lidou com a arte gráfica e seus primeiros trabalhos foram aos quinze anos, quando nem mesmo sabia qual quantia decente deveria ser cobrada. Dezoito meses de curso técnico em publicidade e propaganda abriram ainda mais seus olhos para perceber que a arte que fazia em muros, primeiro com grafites e depois com stickers poderia certamente ser feita pra vida inteira. Depois desse momento nunca mais teve dúvidas de que tinha uma relação vital com o design, sendo essa uma das poucas e mais reais verdades em sua vida.

   Cursou a faculdade de Design Gráfico custeado pelo ProUni sem que a dedicação viesse somente pela obrigação em tirar boas notas. Por um tempo utilizou um caderno feito com folhas escolhidas à dedo: tons de azul, algumas folhas pretas no fim e uma capa de papelão bege. Aproveitava cada pedaço das folhas para desenhar e fazer anotações na borda, com uma letra geométrica, expressiva e não menos artística. Sempre viu brilho nas aulas teóricas de História da Arte, que valoriza tanto quanto as práticas, pela necessidade de formação consciente. Por descuido e euforia de começo de semestre, faltou a algumas aulas de Antropologia e precisaria tirar mais pontos do que o previsto. Ao conversar com o professor, aceitou a proposta: se proporcionasse ao menos duas discussões verdadeiramente boas durante as aulas, seria aprovado. Passado o período o professor não pensou duas vezes, disse que cada comentário não proporcionou somente duas boas discussões como também o semestre mais acalorado e proveitoso da disciplina. Laercio fala, mas fala com propriedade.

   Muito do que sabe aprendeu com o pai, que quando jovem deixou de lado os estudos em Engenharia na Unicamp para lutar no movimento estudantil. Não é à toa que discute política com interesse e conhecimento de quem não lê jornal apenas os títulos nos portais da internet, e sim de quem cresceu pautado nesses temas. É na mesa do jantar que discute com o pai coruja, que o espera chegar em casa todos os dias, os assuntos que aconteceram ao longo do dia. Aposentado, seu pai faz questão de ir todos diariamente até a banca de jornal para comprar a Folha de São Paulo. Não quer saber de assinaturas mensais, receber o exemplar em casa acabaria com uma das atividades mais animadoras da manhã.

   É também nos jogos de futebol que acentua os laços familiares. São paulino desde pequeno, costuma ir assistir aos jogos com o pai sem que caia no clichê da relação pai e filho. Vê num pai uma figura de base, e só se interessa em ir às festas de família se o pai for, para que assim tenha com quem conversar. Chama a avó de abuela e diz que os palavrões nunca são medidos na hora das refeições. De origem espanhola, fala da cultura como quem conhece mais que a comida e dança típicas. Tem uma irmã mais velha de quem pouco fala, e um primo que considera muito. Demora para encontrá-lo, mas quando o vê, dá problema. Conta de viagens repentinas, pouco conscientes e com consequências econômicas a serem recuperadas por meses à frente. E ainda terá muito o que contar.

   Aliás,o próprio apelido, que por senso comum não costumam ter explicações, possui uma história. Hoje caracteriza o apelido como uma atitude meio prepotente, já que deu a si próprio. Com um nome que não possui sílabas sonoramente fáceis e práticas, adotou o termo monossilábico Lex. Precisava de algo curto e fácil que
pudesse ser utilizado para assinar seus desenhos. Não encontrou saída melhor do que um apelido que faz alusão ao seu nome e ao mesmo tempo opõe-se ao Super Homem. De Lex Luthor a Lex Lopo, nasceu o anti-herói.

   Através do vidro que separa a sala de espera do estúdio do tatuador pude acompanhar a cara de dor para a agulha que cobria lentamente sua costela esquerda. O desenho foi escolhido para representar algo que considera transcendental: a mudança para uma fase madura, de certezas e perspectivas positivas. Um desenho forte, significativo e apesar ser uma caveira, é extremamente vivo. Uma escolha mais madura e pensada ao contrário da primeira tatuagem que carrega no braço esquerdo, da qual se arrepende, não gosta de mostrar e pretende encobrir. Fruto de quem aos catorze anos acha que tem todas as certezas do mundo. Mas não exatamente precipitado.

   Laercio Lopo Juarez hoje trabalha na agência de publicidade Mccann, onde apesar do ambiente descontraído não possui responsabilidades menores. Entra para trabalhar no meio da manhã sem saber a que horas será possível voltar para casa. Já chegou a passar dias inteiros trabalhando, com colegas de trabalhos tão expressivos quanto ele próprio. De tão aberto, o ambiente de trabalho chega a tornar-se cruelmente sincero quando os colegas já não censuram respostas grossas ou piadinhas para ele, que sempre chega depois das nove. Uma resposta áspera bastou para que não fizessem mais comentário algum, sem crises, sem brigas.

  Sempre gostou mais das pessoas introspectivas e aproximou-se de quem seria normalmente considerado estranho. Foge de tudo o que é superficial, sem se limitar a encontrar sentido em tudo o que faz. Odeia quem anda de patins e se irrita fácil com gente ignorante. É eterno adepto do papel e caneta, e acha que nada substitui o cheiro de livro novo entre os vários que ocupam suas prateleiras – já sofrendo com a falta de espaço para novos exemplares.

   Quatro horas depois, Lex saiu do estúdio com a tatuagem contornada, ainda como um esboço do que completará o ritual de passagem. Antes seu armário de roupas era composto por camisetas brancas, pretas e cinzas; hoje possui inúmeras camisas xadrez. Muda de fase com um passo firme ou em uma acentuada manobra de skate. Acentuada e mutável. Assim como o paradoxo de ter ao mesmo tempo uma aura que transmite paz, mas que não deixa de queimar por dentro.

  Seus vinte e poucos anos parecem já ter delimitado sua personalidade. Mas assim como é impossível criar uma arte sem ao mesmo tempo destruir outra, o seu desenho nunca estará pronto. Como numa tatuagem sem fim, que enquanto a figura ganha mais adornos e parece cada vez mais bonita aos olhos, ela não deixa de sangrar. E ser viva.

Site com portfólio e trabalhos de Laercio Lopo Juarez: http://www.laerciolopo.com

 

Anos-agora

De quatro a sete mesas enfileiradas frente, ou lado, às janelas. Poucas vazias, outras fora da minha visão periférica – logo as que me fogem da contagem precisa. Por serem de quatro lugares – e pequenas, em comparação com as mesas redondas ou as que mais parecem de reunião -, são comumente ocupadas por pessoas isoladas, e não necessariamente sozinhas.
Tomada pela culpa de ocupar um espaço maior do que preciso, dividi a mesa com uma moça, que provavelmente me xingou por pensamentos, pensando porque raios eu decidi sentar-me com ela, quando poderia ocupar qualquer outra mesa vazia.
Sentei, e não tardou para que ela se levantasse. Exitei mudar de lugar e ocupar a posição em que ela estava: de frente para quem também dividia o mesmo ambiente. Permaneci de costas, não pela opção de me virar contra as pessoas, e sim atraída pela perspectiva de observar ainda mais as pessoas. 
Por trás das janelas fumê, o sol tímido de começo de outono coloriu a imagem como uma fotografia retrô. Mas as roupas e a dinâmica das ruas não possibilitavam que se imaginasse estar nos anos 50. Era uma típica imagem dos anos-agora, só que com um tom amarelado, talvez de quem usa óculos de sol e não consegue saber exatamente quais são as cores dos objetos.
I’ll make you mixtape that’s a blueprint of my soul.
A faixa de pedestres e cada uma das pernas compassadas. Sem saber, compõem uma sincronia angular, frenética e constante. De tempos em tempos. Esperar e andar, esperar e andar. Como uma ordem pré-estabelecida, como um grupo que segue para um único destino.
It may sound grand but babe it’s all you need to know.
As cores pouco diferem do cinza-asfalto-calçada-parede. A palheta de cores, fixada na escala de tons-escritório coincide com a correria, com as pernas compassadas, constantes.
I’ll make you mixtape that will charm you into bed.
Tudo o que passa correndo também se demora amargamente. E não precisa ir rápido. Pelo menos não como as pernas compassadas, constantes. Correndo, aqui, só os pensamentos.
It details everything that’s running round my head.



(Mixtape – Jamie Cullum)