Bota número 39

Era meio dia e qualquer minuto perto do atraso. Um dia depois em que uma vida transbordando foi estancada. De dentro do ônibus, num engarrafamento, a calçada fez-se cenário. Um morador de rua sentado com as pernas esticadas pegou uma pedra acinzentada, de prontidão a escrever o que tanto o incomodava. Além das roupas surradas, ele calçava um par de botas de couro, já batidas, com furos na ponta, mostrando as meias encardidas.
Não pensou duas vezes e ali escreveu “Bota número 39”. Ele tinha duas delas, furadas. Talvez gostasse delas, precisasse de um par novo ou tivesse acabado de ganhá-las. Ou mesmo que detestasse. Escreveu pelo incômodo, pela perturbação e pela importância.

Há meses e dias atrás, quando o começo ainda prometia mudanças positivas, andávamos de botas pela mesma calçada numa manhã de sábado. Era começo de inverno, mas fazia sol. As botas batiam no chão e as pessoas nos olhavam. Não pelo barulho. Ou pelo menos não pelo barulho dos saltos de couro. Existia ali outro ruidoso som que incomoda. O da felicidade.
E com ela fizemos música. Fizemos uma história. Cada dia ruim fora transformado em melodia e a sinceridade que só algo simples e da alma poderia fazer. Criamos laços que não se desprendem e não dependem de mais nada para existir. Se não se pode tirar a saudade de um corpo, as lembranças estão em camadas ainda mais profundas.

E então, as botas novas tornaram-se batidas. Eram nove horas e qualquer minuto perto do fim. E de repente, bastaram sessenta segundos compactados a vácuo, num instante sem razão ou dor. Pra trazer 180 dias de melancolia. A alegria congelou naquele momento, dando lugar à simples meta de respirar sem ter que pensar para fazê-lo. Ficam as promessas e permanece a certeza. Um coração grande e dedicado não acontece duas vezes. Talvez nem mesmo uma. E não há motivo algum ou razão que me convença por ter ficado tão assim, sim, sem. Porém, poucos são aqueles que têm a dádiva de guardar um bom amor e estendê-lo, a cada novo dia. E menos ainda são aqueles que, mesmo longe, podem guardar isso para sempre.

O outono está chegando e com eles as botas. E com esse giz devo me sentenciar. Escrevemos sobre o que ganhamos, perdemos e sentimos falta. Sobre o que amamos. As botas número 39 não me servem, mas que fiquem aqui, dois pares de botas número 17. “É só lembrar que o amor é tão maior”.

Espero o dia.

Navegar é preciso

Peguei um papel colorido, conferi se tinha grafite na lapiseira e me pus a desenhar. Como se os rabiscos no caderninho, que custou um ano inteiro para quase acabar, tivessem ficado para trás. Eu desenhara na minha mente a moldura redonda, detalhada e os cabelos compridos da menina com chapéu de marinheiro. Como se eu não tentasse desde a infância desenhar com perfeição. Como se eu não tentasse há meses ser quem eu não sou, para superar o que não sei fazer pelas minhas próprias mãos.

Acordei no fim das férias, ainda precisando processar tudo o que havia acontecido enquanto estive em outra cidade. Com preguiça de abrir os olhos, o fiz por curiosidade de ver de onde vinha tanta luz. Estava em um cômodo branco, frio e um barulho contínuo me dizia que meu coração b-a-t-i-a n-o r-i-t-m-o. Algo preso no meu dedo me monitorava. Duas pessoas me monitoravam depois desse susto irreal que me deram. Parecia novela, mas era tão vida real que doía.
De repente o certo virou o errado, como uma fase brusca sem meio termo. Caí num tropeço, subindo as escadas, e tudo o que eu carregava na minha bolsa se espalhou pelo chão. Restando a mim, recolher cada objeto, assoprando a poeira e revendo sua necessidade. Tive que pegar cada pedaço dos copos de vidro tentando não cortar as mãos, entendendo que ainda assim eu precisaria deles.
Eu não vou contra a maré sem colete salva vidas. Aprendi a nadar quando era criança mas me assustei com o mar algumas vezes e hoje tenho medo. Medo de tudo, como sempre tive. Só nadei até aqui porque fui guiada por um sopro de calmaria na tempestade. E mesmo que eu engolisse água, minha cabeça permaneceu o tempo todo na superfície. “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Ontem acordei no meio de uma noite mal dormida e nem mil miligramas anestesiariam o que, mesmo seis meses depois, ainda latejava. Já eram novas férias e a novela se repetia. Mas tudo ainda custava o desgaste e valia a pena. O sopro de calmaria era uma respiração leve, que ficava forte durante o sono. Enquanto as energias eram recarregadas, os olhos rasgados viravam traços e mesmo a respiração forte me parecia calma. Tão calma quanto o caminhar de botas de veludo, o sorriso engraçado e a delicadeza das palavras.
Eu me enganei ao pensar que caminhar a dois seria tão fácil quanto deitar numa rede no fim da tarde. Porém, acertei ao descobrir que prova de amor não vem em forma de flores, e sim em viver o que se vive. Foi tentando desenhar que eu entendi, que todas as voltas dessa vida me levaram a descobrir como ser feliz depende da dor. E foi tentando desenhar que eu percebi, que nessa via dupla do amor estamos no mesmo sentido, juntos, pelo o que dói e pelo o que faz sorrir.

Ensaio sobre o sono

Eu acabara de deitar na cama, sentindo o espaço vazio entre o fim das meias e o punho das calças acostumando-se com o gelado do edredom. Posso jurar que mal tinha acabado de pegar no sono quando o som estridente recordou-me o que relutei a aceitar com bom humor: sete horas passaram-se enquanto eu estive no que, para o meu organismo preguiçoso, não passou de um ensaio sobre o sono. Não que eu seja uma pessoa amargurada que vê tons de cinza numa manhã precipitando um céu aberto. Apenas vivo num ciclo em que acordar, automaticamente, significa calcular cada um-minuto-qualquer-que-seja para cochilar durante o dia.
A consciência trôpega, que sempre me faz derrubar algum objeto ou chutar a ponta do tapete da sala nos primeiros minutos da manhã, despertou apressada quando recebeu o sinal de que aquela coisa laranja no meu prato era mamão. Odeio mamão. Gelado, com mel e aveia. Rápido, engole, depressa, argh, acabou. Já eram sete, e eu saí de casa.
Vaguei durante as nove estações de metrô que separam as imediações da minha casa até a faculdade, como quem dorme em pé ou caminha deitado. A relação é quase análoga quando o vagão do metrô parece uma cápsula sonífera, onde pessoas posicionam-se acompanhando os movimentos de parada e partida. Estaríamos todos confortavelmente deitados esperando nosso ponto de chegada, não fossem os noventa graus que, por um deslize, nos forçaram a ficar em pé.
Caminhei rápido até o novecentos, sem pressa, apenas acompanhando o fluxo de pessoas. E num espaço de tempo curto para processar, já estava completamente desperta, anotando palavras entre moeda, inflação e empréstimo. Entre vírgulas e pingos do “i” colocados fora do lugar, na afobação em escrever as melhores partes do discurso, alternei entre um pouco mais de sono e dinamismo. Meu organismo trabalha num processo matutino de sabotagem. Buscando os minutos perfeitos para um cochilo, pareço intercalar entre presteza e torpor.
Na volta, caminhei com pressa. A pressa era fome, animada pela certeza que não encontraria mamão no prato do almoço. Nove estações, um trem e um ônibus depois, sentei na mesma cadeira em que tomei o café da manhã, metodicamente programada. Então, mais rápido do que eu gostaria que fosse, entrei na última sala do corredor do terceiro andar, onde o telefone já me esperava tocando. Trabalhar torna-se um pouco mais fácil quando crianças de trancinhas e cabelos separados referem-se a você como “tia”, enquanto é mais difícil evitar que elas encostem os dedos curiosos na lente da câmera fotográfica do que realmente fotografá-las em boas poses. Duas xícaras de chá silvestre, quatro e-mails, cento e vinte jornais impressos e eu estava voltando para casa.
Tão logo realizei o que o dia ainda me cobrava, o banho quente lembrou-me que cada um-minuto-qualquer-que-seja não usado para cochilar durante o dia estavam batendo na porta de casa, esperando, então, que fossem solicitamente usados durante a noite. Eu acabara de deitar na cama, sentindo o espaço vazio entre o fim das meias e o punho das calças acostumando-se com o gelado do edredom. Posso jurar que mal tinha acabado de pegar no sono quando o som estridente recordou-me o que relutei a aceitar com bom humor: sete horas passaram-se enquanto eu estive no que, para o meu organismo preguiçoso, não passou de um ensaio sobre o sono.

Cidade da chuva

Eu não teria apostado uma só moeda se me pedissem para palpitar se haveria um segundo dia. Se você visse minha cara de quem incendeia por incendiar e lesse meus pensamentos de quem ouve por ouvir, não apostaria trocado algum que eu atravessaria a fronteira com apenas uma bagagem de mão.
Mal posso explicar como parei nessa cidade acalorada, e onde eu aprendi a falar essa língua bonita, que espalha frases demoradas. Tão naturais quanto os olhares de estranhamento que as pessoas disparam em minha direção, enquanto simplesmente atravesso a rua vasculhando a bolsa atrás das minhas chaves de casa.
Não sei quantos dias minhas moedas ainda serão suficientes para pagar a estadia. Mas, exatamente por não ter apostado que gostaria tanto daqui, tenho algumas de sobra. Também ouvi cochicharem que o banco está flexível. Sei que um carimbo verde vai colorir a minha folha de requerimento. Posso pagar com tempo e calmaria.

Esqueci de pedir o mapa de turistas e erro algumas ruas para voltar para a casa quando saio a noite. E ainda assim eu gosto de tentar. Gosto de sentir o vento quase-gelado-e-ainda-quente do entardecer, sem a preocupação de arrumar os cabelos ao vento. Pelo contrário. Tenho andado com naturalidade, e de tão despreocupada e à vontade, ouvi dizer estar melhor. Melhor. Maior.

Abri as janelas para uma cidade hospitaleira. E no horizonte vejo o caos urbano que deixei pra trás. Apressado em cumprir os horários, em tomar o café da manhã plastificado e ser tão bonito quanto um manequim. Que deixa o coração em casa e esquece de ordenar que os olhos escondam a sinceridade de quem tem medo de seguir o que gosta.

Entrei no terceiro trem e saí de férias.

Cinco

As figuras atrás das janelas mudando vertiginosamente rápido e os degraus demorados, que levam à sala com tacos de madeira. Alguns barulhentos e gastos, mas nunca soltos.
Acabei por me tornar tudo que nunca imaginei, exatamente por, sem querer, julgar impossível. O sonho desmoralizado pela realidade, que apressa a vontade de tudo terminar. Por terminar, não por realizar.
Não me orgulho disso, pelo contrário. Esmagada pelos dias apertados e a eterna falta de tempo, ou do que pensar. Não saberia dizer que me tornaria esse meio-amargo, estarrecido pelos deveres, frustrado pelas vontades.

Como quem está num furacão e, por um instante, só consegue acreditar que não será possível sobreviver, no seguinte momento a vida ainda batendo no peito parece elucidar que há muito o que fazer.
E então, a realização do sonho frustrado, visto de longe, iluminado pelas luzes alaranjadas, transforma-se, sim, num sonho realizado mas, de alguma maneira tomado por consciência de realidade.
O sonho de uma criança que sem referências específicas não sabia por onde começar é agraciado pelas primeiras palavras reconhecidas. E o rabisco na capa de um livro lembra que posso odiar completamente tudo o que faço, extamente por amar e me reconhecer em cada pedaço, gota por gota, letra por letra.

Nó de marinheiro

Um olhar à espreita, fixo na porta. Em dúvida se tem pressa de ir embora ou se quer que você chegue logo. Fingindo ser desavisado, como quem fica de costas mas vira-se a todo momento, naturalmente, para olhar pelos cantos.
E você vem. Chega devagar, tão surpreso quanto eu. Já que, realmente, acreditei que essa cena jamais se repetiria. Você, tão ridículo, fingindo saber o que dizer, quando na verdade a gente nunca sabe. Sem saber o que dizer e ainda assim dizendo muito, parece que nada nunca aconteceu. Que eu jamais quis que os dias passassem devagar para não descobrir o fim – que não existe, ou que passassem bem depressa para aceitar da noite para o dia. Mas, lá estávamos nós, tão sós, tão nós, cheios e presos por nós impossíveis de desatar. Como aqueles dos marinheiros.
Eu me senti como se ainda estivesse começando. Aliás, sempre me sinto. Tão entusiasmada como se fosse novo, tão curiosa como se pudesse descobrir cada pedaço de novidade. E tão contraditoriamente segura o suficiente para ser o que eu sou. O que nós somos.
Quatro músicas que poderiam durar para sempre. Quatro músicas que podiam misturar todas as experiênicas instrumentais que, ainda assim, seriam sinfônicas. Absurdamente conectadas, quimicamente fundidas ou seja lá o que for, só para dizer que damos certo juntos.
Estive pensando tanto no que já fui e nas remotas possibilidades de ser, novamente, que tudo me parecera devaneios. Quis tanto estar ali que, agora, me parece uma lembrança surreal de um passado próximo. Muito próximo.

A eterna sensação de que, a qualquer momento, alguém vai dizer o que pensou esse tempo todo. Momento oficialmente necessário, clandestinamente desimportante frente ao olhar sincero e devastador. E nós nunca vamos saber.

Pó instantâneo

Dormi e acordei sabendo ler e escrever. A primeira rasa lembrança de como me tornei alfabetizada é justamente essa. Como se eu tivesse dormido incapaz de reconhecer os códigos e simplesmente acordara lendo placas pelas ruas. Não estou fazendo do processo de aprendizagem uma ação diminuta, pelo contrário. A magia em escrever meu próprio nome entendendo as sílabas, e não mais apenas numa repetição de símbolos estranhos que disseram que compunha o meu nome, simplesmente fez com que a alfabetização parecesse um pó instantâne,o ingerido no café da manhã, mais saboroso que o achocolatado.

Deixei de colorir as palavras monossilábicas da cartilha “Caminho Suave” e comecei a rabiscá-la de vermelho, brincando de professora, como quem pensa saber o suficiente para corrigir o erro de outras pessoas. Logo minha mãe pediu-me para ler em voz alta um livrinho quadrado, de capa marrom, com a história de um macaco e suas bananas. Achei que ali estava comprovado que eu sabia ler e escrever completamente. Demorei pouco a descobrir que, na verdade, eu ainda não sabia nada.

Em todos os momentos eu queria ler para as pessoas o letreiro do ônibus, o folheto de propaganda, o gibi e os preços no supermercado. O entusiasmo em reconhecer os símbolos sem ter que processar a ação de lê-los, não demorou a fazer-me uma criança que falava muito, e muito rápido. O excesso de palavras fluindo com mais velocidade do que era realmente possível processar, aliado à pressa absurda em expressá-las, deu-me, aos seis anos de idade, uma leve gagueira.

Consegui falar normalmente após os inúmeros conselhos para respirar fundo e pronunciar palavras com mais calma, e tornei-me uma das melhores leitoras de textos da turma da terceira série. No Natal desse mesmo ano ganhei de presente do meu pai o livro “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, com a justificativa de ser um dos livros mais famosos no mundo, feito para crianças. Alisando a capa branca, colorida e reluzente, comecei a lê-lo no dia seguinte, e parei logo após. Não porque o havia terminado, e sim porque não entendia o sentido de uma jiboia engolir um elefante e tudo isso parecer ser, simultaneamente, um simples chapéu.

Abandonei-o na prateleira e continuei a leitura dos livros de Manuel Bandeira e Cecília Meireles, tendo a aula de produção de texto como a preferida, sempre me excedendo na quantidade de páginas do caderno brochura. Poucos anos depois me encantei com bibliotecas e a cada semana emprestava um livro. Aos treze, resolvi retomar o “O Pequeno Príncipe” e parei de lê-lo logo após, mas dessa vez porque havia terminado a leitura. As metáforas pareceram-me tão claras que me senti preguiçosa por não ter insistido na leitura na primeira vez.

Contudo, quando conheci Guimarães Rosa, e a sua “A terceira margem do rio”, entendi o que era subjetividade. Ou não. Mas, foi o primeiro momento em que não tentei entender, e deixei-me levar por tudo o que senti. E senti que a Língua Portuguesa era a mediadora de tudo aquilo que ela própria era incapaz de representar. Os momentos em que neologismos são insuficientes, sem metáforas amenizadoras e sem tradutor de sentidos.

Assim como o processo de aprendizagem, falta na minha memória a imagem do dia exato em que escolhi fazer das palavras o meu objeto de trabalho. Parece-me como se elas tivessem me escolhido e eu aceitado de bom grado. Apesar de exercitar o que sempre me serviu como válvula de escape, a escrita coloca-me diariamente como se eu não fosse o suficiente para ela. E talvez eu não seja. Mas sou constantemente tomada pela consciência de que posso rascunhar e apagar o quanto for preciso. Descobrindo aos poucos, que na verdade eu ainda não sei nada.

23h59

Quando bate a luz azul na pista, ao som daquela música anos noventa que você amava, mas ficou anos sem ouvir, toda repaginada num remix bacana, você olha para os lados e vê todo mundo dançando de olhos fechados, balançando a cabeça no ritmo. Mal dá para lembrar a grande verdade, você esquece o quanto as pessoas enganam bem.
A roupa nova que você espera ser única na noite, o perfume incrível que você quer que alguém sinta, a maquiagem leve que demorou quarenta minutos pra ser feita com mais de dez tipos de produtos, o cabelo despenteado que custou a fixar, os pertences que não cabiam na bolsa, a espera pelo táxi. Ou quem sabe a camiseta pra dar sorte, o banho rápido de meia hora, a barba por fazer nada despretensiosa, as poucas trocas de expectativa, o falso coração vazio e a fila no valet.
No fim, todo mundo precisa segurar um copo pra ter o que fazer com as mãos. Como se o copo fosse capaz de sustentar todas as expectativas e frustrações de uma madrugada. Talvez pudesse se ficasse sempre cheio. Mas a gente bebe. Bebe pra esquecer, para fingir que esqueceu, para tentar esquecer e no fim mandar uma mensagem desconexa cheia de saudades. Ou para sorrir para o gringo que está sozinho no bar, para dançar daquele jeito que a moça de calça de cintura alta está dançando e você acha incrível. Bebemos para comemorar, para celebrar sabe-se lá o que porque no fim todo mundo esquece. Mas, principalmente a gente bebe para tentar enganar que quer realmente estar ali e que nem liga para ressaca do dia seguinte.
Sempre haverá aquele cara incrível que se veste bem e você nunca vai descobrir se é gay e nem nunca vai falar com ele porque ele é incrível demais pra isso. Ou aquela menina impecável com o cabelo que parece ser mesmo natural, assim como todo o resto. Daquele tipo de gente que inspira ter caído sem querer na festa e mesmo assim sabe lidar com tudo. Nunca vamos deixar de achar que tudo dá certo para ela, da conta bancária ao cargo no emprego, e que o sorriso despreocupado é o segredo de tudo. Sempre vamos ter que aguentar o cara chato que não se toca, a menina que quer dançar ocupando toda a pista e aquela louca que não lembra onde foi parar o celular.
E nós nos empenhamos. Sofremos para sermos atendidos no bar, fazemos melhores amizades dentro do banheiro e tentamos mostrar para todo mundo que aquilo lá não é nada perto do que vivemos lá fora. A gente sente a música, mas a gente dança para mostrar que está sentindo.
Todo mundo treinou na frente do espelho para tentar ser natural. Todo mundo achou que fingir ser despreocupado seria natural. E todo mundo pensou fingir que não havia problemas. Mas a festa acaba e você volta para onde esteve. Porque, no fundo, o que todo mundo quer é alguém para, no dia seguinte, assistir a um filme em casa.

(Texto publicado na Revista Offline N°. 30
http://www.offline.com.br/wp-content/uploads/2012/05/OFFLINE30_Book_BAIXA.pdf)

Sonho de uma noite de janeiro

Dois meses e três dias estavam sendo completados naquela mesa do restaurante. Ninguém estava pretendendo comemorar demais e nem demonstrar ter se dado conta do tempo que havia se passado. Do certo tipo de casal que usa o tempo ao invés de contá-lo. Ela já revirava a calda da sobremesa com o garfo, formando desenhos abstratos cor de frutas vermelhas enquanto apoiava a cabeça na outra mão. Não era cansaço, só havia comido demais. E ele só observava com um riso de canto de boca a maneira bagunçada com que o cabelo dela se comportava na cabeça, o tom desligado com que ela conversava sobre filmes de E.T.
Foram duas tardes no parque, uma delas com direito a passeio de bicicleta e água de coco. Três exposições de arte, uma de fotografia e ajuda em todas com os acertos finais das resenhas, sempre repetitivas aos olhos dela. Sempre inspiradoras aos olhos dele. Algumas festas divertidas que perderam as contas, uma festa errada pra dar sono e ir embora cedo. Uma visita de três horas ao brechó e outra de quinze minutos ao shopping.
Algo perto de vinte e poucas ligações, mensagens sobre o clima do dia, ou sobre qualquer outra coisa banal e um monte de música compartilhada em redes sociais. Companhia pra terminar aquele trabalho infernal de começo de semestre e somente três dias de silêncio total. Os quatro amigos dele que ela conheceu e gostou, exceto o quinto deles que faz piadas de mau gosto. E as quase dez meninas apresentadas a ele, um pouco parecidas e faladeiras demais pra que ele tivesse tempo de decorar os nomes todos. As seis estações de metrô e o tênis vermelho igualzinho.
Aquela era a primeira vez que saiam pra jantar demoradamente, com direito a sorvete na sobremesa. Pouco antes estiveram no cinema, pela segunda vez, e ela sabia que alguém que a levasse pela mão até o cinema faria mais do que alguém que a espera na porta da balada. Dava pra perceber aonde aquilo ia chegar, e logo que o assunto de extraterrestres terminou, num engasgo, ela se dispôs a falar. Aquele tempo todo não havia parado de pensar no que gostaria de estar vivendo. Ela tinha toda a noção de que dois meses e três dias haviam passado sem que ela pudesse sentir o que deveria estar sentindo. E não podia mais. Ele pediu apenas um favor e ela não seria capaz de negar.
Ela voltou pra casa de metrô para que tivesse mais tempo pra pensar, e ainda foi pouco. Faltariam dias para tentar entender o que estava sendo posto em prova. O pouco que foi dito e o muito que foi feito. Ou o contrário.
O dia seguinte foi o dia de olhar para o espelho e escolher não mais viver a sombra de alguém. De assumir a estática no ambiente em que eles estão juntos. A certeza resguardada de que o melhor está para vir. Fazia quase um mês que ela não o via e estranhou quando, ainda de longe, o viu vestido de vermelho, sentado na beirada do lago artificial. O dia estava nublado mas claro o suficiente pra precisar de óculos de sol.
Ela andou dois passos e parou. Ele estava de cabeça baixa mexendo no celular sem percebê-la por perto. Foi quando ela sentiu a pressão de existir de verdade e colocar em risco a possibilidade de perder de verdade. Lembrou-se de todos os textos mascarados, quando trocava os substantivos para disfarçar. Quando se alegrava com cada frase mal formulada e ingênua. E cada vez que sentiu raiva da imbecilidade da negação.
Meio passo avançado sem querer e ele levantou os olhos para ela. Como já foi dito, era impossível não se perceberem dividindo o mesmo espaço. Ele a olhou sorriu, mas esperou que terminasse de caminhar em direção a ele. A abraçou forte e a tirou do chão, com a diferença de quem mede mais de um e oitenta de altura. Sem dizer nada por sete segundos infinitos, ela abriu a boca para balbuciar algo que nem lembra quando ele antecipou-se “Sim, fizemos tudo errado. Vamos reforçar cada laço”.Como resposta, ela deveria cumprir o favor prometido. E cumpriu. “Pediram-me um favor. Pediram-me para ser menos medíocre e mais sincera. Pra que não percamos tempo fingindo que não nos importamos. Para nos darmos a chance que sempre quisemos”. O dia em que a covardia foi perdida. Quando se escolheu tentar ser feliz ao invés de fingir ser feliz.

Quem inventou o amor?

Após os extensos dias de otimismo, daqueles em que eu paro para pensar no que me levou até ali, para tentar memorizar a receita e repetir quando ficasse difícil de novo. Após conversar e pensar sobre longos temas acerca do amor, dos términos e das reviravoltas a qual somos impostos, percebi que tenho medo. Que na verdade eu morro de medo de não saber o que fazer e me achar fraca demais pra isso tudo.

Dessa vez usei, sem querer, a tática da antecipação. Já me preparei aos poucos e vivi pequenos pedaços de precipício pra tentar amenizar essa queda tão devastadora e tão inevitável. Esqueci de pensar nisso tudo por alguns dias, mas quando lembrei passei a tomar as injeções junto ao café da manhã, vendo ligação em tudo, enxergando bom gosto, os agrados e as manias em tudo, o tempo todo.

Lembrei da última vez, que já parecia muito ser a última, em que decorei cada segundo para nunca esquecer. Como se eu fosse capaz… Não preciso de nenhum grande esforço de memória para ter meus dedos contornando o maxilar, a boca pequena e o contato com a barba. Não preciso de nada para sentir a respiração em meu ouvido ou rir pelo canto da boca com a risada nervosa enquanto me segura pela cintura. Posso descrever com cores e detalhes cada uma das fases e dos encontros, vendo cada vez mais sentido e admiração em cada célula viva dessa existência.

Por tanto tempo estive atrás de cada passo, esperando o vão que fosse do meu tamanho. E agora me pego na dúvida se desejo, para mim mesma, continuar sob a sombra. Mas a certeza em não querer é assustadora. Vejo-me divida entre duas razōes opostas. É como se ao desistir de tudo eu me sentisse traída, roubando de mim mesma uma das melhores partes.

Sinto orgulho de cada pequeno sentimento, como se o conjunto deles todos me tornasse uma real merecedora de tudo. Como se ninguém fosse capaz de gostar assim, tanto quanto eu. E na verdade, ninguém é. Mas, afinal, e porque é que não mereço então estar livre dessa ansiedade insustentável? Dessa esperança pífia e praticamente irreal?

A sensação é de ter que estar perto. Quando não mais existir ali, as coisas realmente mudarão. Mas se eu não quiser que elas mudem? Mas… ao negar quase que pra mim mesma esses sentimentos, já não estou cometendo o crime de me afastar?

Acredito que tomar um choque de realidade seria o melhor pra mim. Porém, ainda não quero. Ainda, já que uma hora tudo acaba e pareço estar bem perto disso. E eu odeio estar perto do fim. Primeiro porque quando tudo realmente acabar estarei submersa em outro mundo sem expectativas. Segundo porque nunca estive tão perto. Nunca me senti tão parte e tão necessária. Nunca senti algo que me fizesse tão bem por tanto tempo. E nunca senti um amor tão intenso.

Aliás, se isso não for amor não deve passar de uma forte alucinação, idêntica àquela que foi sentida por quem inventou o amor.