Chita

Eu já tinha completa consciência de que minha decisão havia sido tomada a partir de critérios emocionais e racionais. Mas eu não sabia que isso poderia atingir níveis extremos ao ponto de perfurar a malha de tom pastel que compõe a cortina das janelas.
Eu não sei se isso é conseqüência de certeza demais, vontade demais, planos demais… Ou de desgaste demais. Na verdade todas as citações anteriores não passam de meras desculpas esfarrapadas pra fazer com que tudo tenha tido sentido. Afinal, somente um tecido desgastado pode apresentar furos tão rapidamente.
Ao mesmo tempo em que eu pareço estar cheia de segurança ao reproduzir essas palavras, um subconsciente defende pelo menos cinqüenta por cento do meu ser que reluta para sobreviver a essa nova postura de vida.
Por mais que a dúvida tenha pairado em alguns momentos eu também tive extremos de conforto e certeza, daqueles em que a gente quer sair correndo gritando pro mundo e, principalmente, mostrando pra quem tem que saber o que é que a gente está sentindo.
Na verdade, eu devo mesmo é assumir que foi impossível estar coberta de ambas as certezas em todos os momentos. Mesmo naqueles casos onde tudo é extremamente escancarado e demonstrado, sempre há um lado pra fraquejar…
Todas ou nenhuma das circunstâncias simplesmente fizeram com que eu passasse a enxergar certas coisas com outros olhos. Simplesmente não faz sentido eu juntar todas as minhas mobílias e ir para uma casa menor, restrita e nova quando eu ainda não pude mudar e desmudar a decoração da minha casa grande e muito bem arejada, onde todas as manhãs o sol entra radiante.
Tenho pilhas de calendários cheios de dias livres onde ainda posso ser fútil e um pouco infantil, ao ponto de sair atrás de quadros a venda. E pretendo sem medo comprar aqueles da qual meu netos ao menos me ouvirão contar, ou até mesmo aqueles em que ao observar de pertinho a primeira reação seja jogar para as traças no fundo do porão.
O tecido da cortina já recebeu alguns retalhos como emenda, e nesse momento está no cesto de roupas sujas esperando por uma boa lavagem com direito a sabão de coco. Enquanto isso, eu deixo as borboletas entrarem livres pela janela e mesmo que esteja chovendo me recuso a fechar as venezianas.
Não ligo se os respingos encharcarem meu vestido novo de chita. Porque ele faz com que eu me sinta livre para aproveitar cada uma das primaveras.

Goodnight

As expectativas nunca haviam sido muito fervorosas, comparando com os outros cem e tantos dias que estavam por vir. Mas, nada como olhar a contagem e constatar que faltavam apenas cinco, quatro, três, dois, um!
É só abrir os olhos que você se acha embaixo do chuveiro morno cantando e dançando como uma louca, músicas que você até então não agüentava mais escutar.
E não demorou nada para eu pular do estágio fervoroso pré-acontecimento para a fase “Meu Deus, a ficha não quer cair!”.
Após cerca de três piscares de olhos o Maroon 5 já estava no palco e eu já estava cantando – ou seria gritando? – enquanto me sacudia numa dança completamente sem gênero, ritmo e definição.
Obviamente tudo sempre passa mais rápido do que a gente havia desejado, e o Goodnight foi trocado pelo Goodbye.
Uma contagem a menos. Porém, muitas lembranças a mais.

Turquesa

Mais que a brisa noturna. É uma brisa pura acompanhada pelo frescor de orvalho e cheiro de grama. Ou seria de barro? De qualquer forma… O inteiror tem um cheiro tão fresco, leve!
Mesmo que um vidro temperado me separe da imensidão que o céu lá fora esconde, dá pra sentir aquela sensação de conforto, de serenidade. É um pouco como aquela história da brisa leve e da forte ventania.
Incrível como a ausência de luz no céu, ou a presença invertida dela, faz com que eu sinta esse poder maleável. Só de imaginar meus pelos e poros todos arrepiados em contato com o ventinho noturno já me sinto vulnerável, mas de uma maneira positiva.
Vulnerável pra viver a vida, e cada um dos detalhes de cada uma das histórias. Principalmente daquelas que eu mal tenho consciência de que começarei a viver.
Dá uma vontade de largar toda a poluição, arranha-céus, e turbulência só pra sentir a sensação de ter do lado de fora de casa, todos os dias, aquele pasto umidecido que enquanto amedronta, convida. Convida pra viver a liberdade, e a naturalidade.
Não sei se a cor do céu está realmente turquesa, mas ele me pareceu naturalmente claro o bastante pra ser um azul marinho…

Metade

Agora há pouco eu estava andando de carro com a janela abertíssima sentindo aquele ventinho fresco enquanto olhava o céu escuro. E não coincidentemente me lembrei de que uma de nossas primeiras conversas foi sobre como essa brisa fresquinha ao som de Los Hermanos é brisante (palavra que até então você desconhecia).

E meu coração bateu apertado quando eu lembrei de uma noite não muito quente de janeiro, onde nós estávamos deitadas na cama elástica olhando o céu, que para mim costuma ser sem estrelas.
Mas a saudade começou a palpitar quando lembrei de que nessa mesma noite, momentos depois você me deu a estrela que mais brilhava no céu. Não coincidentemente, de novo, eu só posso ver a estrela que me pertence quando estou aí, perto de você.
Mas, não preciso estar perto pra estar com você. Acredite quando eu disser que você é a minha vida!

Relento

O dia será muito quente. Aliás, não só o dia, mas a semana provavelmente me fará agradecer por não morar em Cuiabá.
E coincidentemente, ou não, a primavera realmente chegou. Já não há mais aquele ar leve e fresco em cada uma das noites em que antes de vagar pelos próprios devaneios era preciso vestir, no mínimo, um moletom fino.
Mas as noites quentes e abafadas trazem uma brisa fresquinha que passa despercebida mas que é considerável o bastante para causar arrepios e proporcionar serenidade.
Finalmente assumo que dias cinzas e pesados não combinam com cachecóis e que esse contexto já não condiz com meu guarda-roupa.
E isso me faz imaginar que ao invés de caminhar vestindo diversas camadas de blusas e capas, um simples vestido faria com que o som dos meus pés pelo asfalto soasse alto mas leve, sem permitir impacto porém sem criar asas.
A cada semana as repórteres anunciam uma temperatura diferente e dão uma previsão variada para o fim de semana, e só me resta por e tirar meus casacos do armário. E mesmo que isso aconteça, eu admito que a sensação de me sentir dentro de uma regata branca reluzente é além de confortável um sussurro de otimismo.

Dig

Logo de início palavras são desnecessárias para descompactar o arquivo de memória. Aliás, não há nada mais adequado do que a falta delas para que um sorriso escape pelo canto.
Lembro-me da contagem de tempo, da ordem sincronizada de cada um dos passos e até mesmo da respiração acelerada competindo com o coração.
Pelo reflexo posso ver a foto que abriu as portas e carrega sentimentos que representam uma fase considerável. Hoje, ela não fecha as portas… Somente faz com que ao penetrar neste cômodo eu me lembre de cada uma das sensações e seja preenchida com nostalgia.
Cada personagem e pensamento bobo, hoje, só podem me fazer sorrir sem me arrepender de nada. Foi de fato o meio termo da porta giratória.
Não sei se atingi o cômodo ao lado por completo mas ao menos sei que cada passo bem equilibrado e cuidadoso fizeram com que as inúmeras camadas de tecido transbordassem realização.
Um dos marcos iniciais do primeiro degrau carrega um símbolo do passado, presente e futuro. Mesmo que incompleto ele é grande o suficiente e não tão objetivo como parece ser.
Não tenho registros musicalmente ao vivo mas somente sua carga emocional faz com que cada pedacinho de mim seja preenchido com bem-estar.

What a difference a day made, twenty four little hours.

Dia vai, dia vem. Vinte e quatro horas mudam tudo, ou não mudam nada. Um dia de cada vez, um degrau de cada vez, um comprimido de cada vez. Com intervalos de silêncios intermináveis…
Janelas, portas, borboletas, jaquetas, chuva… Tudo se mistura com o giz de lousa e o 182. Já não sei mais nada, já não quero mais nada.

A cada conjunto de horas em que perco a oportunidade de refletir conforme o sentido de algumas letras, eu mudo de idéia. Mudo de posição, de resolução e de opinião. Já não sei mais qual dos momentos devo aproveitar para me pronunciar. Posso usar o instante errado, e acabar por decidir da maneira errada…

Dez minutos mudaram a ordem das palavras, e a colocação dos pontos finais. Dez minutos mudaram o sentido, o caminho, e o objetivo.

As incertezas só me levam ao nada.

Nervos

Sempre atrasada, atarefada, atordoada, irritada, ocupada e neurótica.
Meus músculos já não suportam tanta rigidez, em duplo sentido. Estou somente aguardando o dia em que eu irei acordar e me deparar com uma ruga gigantesca cortando lado a lado em minha testa. Aí sim será o marco da neurose.com.
Sempre preocupada, ansiosa, pensando em mil soluções, objetivos e principalmente clareza. Tanta dúvida e ânsia pela certeza me leva de volta ao decadente. O decadente que me atrai, que me balança. O decante imperfeito, que me chama atenção por ser impossível.
Mais uma vez o que está ao meu alcance passa a ser pouco. Pouco e pouco.
E ao acordar, tudo não passe de uma crise nervosa.

Cem

Cem. Centenário. Centésimo. Um e dois zeros. Ou até uma letra C. Um número redondo que desencadeou uma mudança. Desisão tomada, fechadura trancada.
Janelas abertas, juntei cada tranqueirinha, uma por uma. Coloquei em caixas separadas das mágoas, das vitórias, dos amores, e separadamente de cada sentimento de felicidade que passou despercebido por falta de expressão. Lacrei as caixas e atravessei a rua, na tentativa de levar cada fragmento para a nova moradia… Mas fraquejei.
Eu mal havia começado, e já tinha mudado de idéia. Não conseguiria deslocar cada quadrinho das pequenas, e ao mesmo tempo amplas paredes, enquanto deveria sentar à luz fraca do sol para desenhar.
Decisão tomada, mudança desfeita. Com uma rapidez incrível tudo que eu havia empacotado, magicamente retornou aos seus devidos lugares dando a impressão de uma casinha levemente empoeirada, com cheiro de biscoito doce.
Tranquei novamente a porta, reguei as flores do canteiro, e preguei um laço vermelho no centro da porta de madeira escura, e envernizada.
Atravessei a rua novamente, mas dessa vez com as mãos vazias, abanando. Abri a portinha branca que levava a um cômodo ainda mais branco, com janelas amplas que deixavam a luz do sol atravessar sem qualquer tipo de bloqueio.
Decorei as paredes de verde, com um toque de marrom. Plantei uma árvore no jardim e sentei na varanda. Desenhos deveriam ser feitos, uma casa tão arrumadinha e ensolarada não poderia ficar tão vazia!
Fazer festa na casa errada, não significa esquecer de espiar a janela ao anoitecer pra conferir se está tudo certo. Não significa que as mobílias foram deixadas para trás, elas só estão acomodadas no lar que as concebeu com o antigo cheiro de biscoito – de chocolate meio-amargo, sempre -, postas como uma boa lembrança a ser lustrada.
O numeral está do outro lado da rua, mas ele ainda contém todo o seu prestígio, mesmo que tenha sido preguiçosamente demorado. Cem!
Cem. Cem dias se estenderiam até dezenove com dois. Cem horas são dois dias e mais dois migalhos. Cem brigadeiros podem sem ingeridos em meia hora. Cem carambolas eu comeria facilmente em uma semana. Cem anos, só podem ser vividos por orientais. Cem anos são comemorados por orientais. Cem é dois e oito, mais um zero. Cem pode ser uma maioria se acompanhando pelo cento. Cem pode ser cento, sem ser cento. Cem pode indicar ausência se for mal interpretado, ou se conter um ‘s’. Cem pode ser muito, e pouco. Cem reais não dá pra nada. E Cem pode ser dois, se de centavos virar reais.
Cem letras podem ser uma introdução. Cem linhas formam parágrafos. Cem parágrafos compõem uma bela história. Cem histórias, aaaahh. Se estendem do recreio até o instante em que mudam de cor.