Ahh, se eu pudesse…
Pudim
Mas, não é porque as circunstâncias tomaram um rumo diferente daquele inicialmente esperado, que não possam ser agradáveis. E acrescenta agradáveis nisso.
De longe se foi a época em que eu saia de casa com uma única e infalível companhia para reclamar. Hoje, meus dias estão sendo marcados com muitas risadas e bom-humor, fazendo com que tudo vire piada e planos cada vez melhores.
Com alguns reais, boas amigas, e lugares legais eu pude ter um início de noite incrivelmente americano. Com direito a acolchoado de couro e festas sujas. Festas devidamente sujas e cheias de copos descartáveis vermelhos.
Dias que aparentemente não parecem reservar grandes surpresas e lembranças amáveis (ou melhor, amorosas), tornam-se ainda melhores quando tudo corre perfeitamente bem abrindo espaço para a alegria. Alegria de viver cada momento simples, mas cheio de significado. Alegria de viver cada plano e cada dia que os antecedam. Alegria de simplesmente viver por estar feliz.
Como se cada comentário não tivesse sido incrivelmente cômico, ainda tivemos o momento de decidir entre a partilha do pudim com as amigas, ou a solitária degustação do prato de cocô.
Acima de qualquer sintoma e declaração de carência, não tem jeito: Estou mais do que na fase de dividir o pudim com as amigas, estou na época perfeita para isso.
Feita a escolha, basta planejar as festas quase-americanas – quase, afinal somos limpinhas -, e escolher cuidadosamente o sabor de cada pudim. Escolher, anotar e experimentar.
Afinal, esses você tem que compartilhar com as amigas!
Vamos fazer virar realidade?
Eu só não imaginava que quando eu “acordasse” eu estaria realmente prestes a rever seu rosto. Tudo foi combinado de uma maneira bem simples e prática, e num piscar de olhos minha mãe estava me levando para a sua casa, por um caminho que me pareceu ser o do aeroporto – só que o aeroporto errado. Mas, apesar do caminho não me parecer o certo, não demorou para que eu estivesse na sua branca e enorme casa, muito bem arejada devido às janelas enormes de vidro.
No hall de entrada, havia uma chapeleira de madeira, e no patamar da escada – onde as paredes tinham uma coloração azul – havia uma mesa com tampo de vidro, com um vaso trabalhado e branco, cheio de flores. Uma casa grande igual a sua, eu só havia visto no filme “O Diabo veste Prada”.
Para a minha surpresa, fui recebida calorosamente pela sua mãe, que apesar de não me conhecer me tratou como se eu já fosse da sua família. Enquanto eu colocava minhas duas malas grandes e marrons, dentro de um quarto escuro – que mais tarde eu descobriria ser o seu -, alguma coisa aconteceu comigo.
E quando eu me dei conta, estávamos em uma grande festa. Numa festa de quinze anos, de alguma garota que eu mal sabia quem era, e você cansou de jurar que não havia problema algum pelo fato de eu não ter sido convidada.
A aniversariante não deu as caras durante toda a festa, se é que ela realmente existia. Mas eu pude reparar que a organização da festa deve ter sido muito trabalhosa pois o lugar era incrivelmente lindo, tinha ambientes descontraídos com suas paredes vermelho-berrante. Sem contar os espelhos em formatos variados e os globos de espelho pendurados em todos os ambientes.
Eu estava usando um vestido preto de dar inveja, super curtinho e justo. Estava muito bem combinado com saltos altos pretos, bem retrô. E como toque final, eu usava uma maquiagem um pouco pesada, e cabelos enrolados para ficarem propositalmente bagunçados. Tudo estava em perfeita harmonia, com exceção da minha enorme bolsa roxa que minha mãe costurou dias atrás. E algo me leva a crer, que além da bolsa exageradamente grande, eu carregava algumas sacolas de plástico e de lojas do shopping.
A festa estava tão lotada, que grande parte do tempo nós passamos dentro do banheiro. Que além de ser unissex, era todinho revestido por espelhos de ponta a ponta. Os lavatórios eram todos cromados e super brilhantes. A movimentação por lá era tão rotativa e repetitiva que por alguns momentos eu cheguei a suspeitar que o melhor da festa acontecesse por lá.
Quando por fim eu me decidi por usar o banheiro, cerca de duas pessoas simplesmente acharam normal entrarem no reservado junto comigo. E você ficou me olhando com aquela expressão calma, enquanto meu queixo caia. Após observar meu desespero em fase inicial, você apoiou cada uma das sacolas e minha bolsa roxa na pia – afinal, eu pedia incansavelmente para você segura-las pra mim, e me puxou pelo braço delicadamente fazendo com que aquelas duas pessoas esquisitas e com hábitos mais estranhos ainda, percebessem que eu não estava sozinha.
E de uma maneira mais doce ainda, você passou a mão pela minha cintura abaixando até o quadril – onde meu vestido era ainda mais justo – causando-me uma espécie de frenesi, pois por mais que ambos soubéssemos o que estava acontecendo naquele dia, não haviam sido dados sinais de que aquilo realmente era real.
Assim, saímos de mãos dadas daquilo que erroneamente recebeu o nome de banheiro, à procura de alguns de seus amigos. Quando os encontramos, não tivemos outra escolha além de nos sentarmos na escadaria de metal, pintada com um branco contrastante, porque todos os sofás, cadeiras, e poltronas estavam ocupados. Como se todos os convidados tivessem saído do banheiro decidindo sentar-se por um momento.
Aquele certamente foi um dos momentos mais doces da festa. Entre muitas risadas e conversas, inclusive com um dos garçons, eu pude ver como o seu sorriso irradiava felicidade. E a cada momento que você notava meu olhar fascinado pelos seus traços, você sorria ainda mais enquanto fazia carícias de leve na minha mão – que ainda continuava grudada na sua.
Tudo parecia incrivelmente bem e finalmente estável, até que numa fração de segundos já estávamos no carro voltando para sua casa. O carro movimentava-se suave pelo asfalto, mas havia algo estranho novamente. Somente nós dois estávamos naquele veículo, eu estava no banco do passageiro com minha bolsa roxa nos braços, e você estava curvado amarrando o cadarço do seu tênis enquanto mais uma vez gargalhava e dizia estar feliz.
De qualquer maneira, chegamos na sua casa. Você estava com outra roupa, vestindo agora uma pólo listrada vermelha e azul, e eu já não carregava mais minhas sacolas de plástico. Subimos as escadas ainda de mãos dadas, e novamente entre risos nos direcionamos para o quarto onde eu havia deixado minhas malas.
Ele já não estava mais na mesma escuridão de antes, pois havia uma enorme televisão ligada fazendo com que o quarto se enchesse de luz, o suficiente para revelar que haviam pessoas ali. Eram seus amigos, que também pareciam estar se divertindo pois riam muito enquanto jogavam vídeo-game.
Nós passamos abraçados pelo seu quarto, e você observou seus amigos como se aquilo fosse algo corriqueiro. Fomos em direção ao fim do corredor, onde depois de um estalo estávamos olhando o céu. Depois disso, tudo aconteceu rápido demais.
Quando eu voltei meu olhos para nós, você ainda estava ao meu lado, mas agora já havia soltado minha mão para se deitar na esteira em que sentamos. Eu estava segurando um ‘notebook’ no colo, e digitava tudo o que eu gostaria de te dizer, tudo que eu havia sentido nessa noite tão maluca.
Só que eu estava cometendo um grande erro, pois estava enviando isso tudo para outra pessoa que parecia se identificar com cada sentimento enquanto dizia sem parar “Como eu me apaixonei rápido!”. Quando eu realmente me dei conta de que estava me declarando para a pessoa errada, eu entrei em pânico por alguns segundos, e cheguei inclusive a pedir ajudas e conselhos para alguns amigos. Mas foram apenas segundos, porque você voltou a segurar a minha mão e sorriu.
E aquele momento não precisava de palavras, pois aqueles sorrisos e olhares brilhantes comprovavam: nós namorávamos, e como se isso não nos bastasse, éramos muito, mas muito felizes juntos.
Três, dois, um!
O tempo passou devagar, e cada risada a pilha de copos aumentava. E tudo bem se foi difícil pra levantar da cadeira e captar um ponto fixo!
O banho que eu tomei, iluminado pela luz natural da lua serviu de conclusão: já sei o que quero para parte dos meus dias. Tudo aquilo que eu sempre achei causador de puro disperdício de dias proveitosos, tornou-se característico de boa fama.
Quero mais é que os dias aconteçam, e que venham mais e mais copos de cerveja. Mesmo que isso resulte em confissões desnecessárias…
BeiraMar
Reunião III
Tudo bem. Eu sempre tive que ser paciente, tento que (quase) não sofro mais de angústia. Esse não chega a ser um “tudo bem” incrivelmente conformado, mas pelo menos não é um “tudo bem” iludido demais.
Ler tudo aquilo que eu já sei, não soa como repetição. É confirmação e alívio. Não me importa mais se falei mais do que deveria, ou menos, ou de um jeito errado…
Nunca precisarei ser o que não sou para chamar a atenção de quem quer que seja, e o principal: nunca precisarei ser estúpida (em vários sentidos) para conseguir o que eu quero.
Encerro minha participação nas reuniões como olheira, afinal, meus planos agora são os de aproveitar cada segundo em que meus pés tocarão a areia da praia, com a mente livre e orgulhosa de tudo o que consegui realizar e mudar em tão pouco tempo.
Os pinos no tabuleiro estão todos dispostos aos mesmos desafios, estão todos no mesmo barco – ou tabuleiro. Agora que o meu peão entrou em recesso – não na cadeia, e sim no paraíso – ficará sem jogar por algumas semanas, mas continuará sólido e otimista. Ainda há muito para jogar, e para vencer.
