Encontro

É mais que comum ouvir alguém falar sobre o quanto as despedidas são tristes. Principalmente nos filmes românticos, lindos e chorosos as despedidas chegam a doer em quem assiste de tão sentimentais e sofridas que aparentam ser.
Mas eu particularmente nunca passei por situações de despedidas tão avassaladoras desse jeito. Nunca sofri mais que amigos na rodoviária e último dia de aula – que não chega a ser uma despedida propriamente dita.
Na verdade, minhas despedidas em rodoviárias são divididas em dois blocos. Um em que as lágrimas foram de premeditação e na segunda fase foram suspiros de alívio, e outro bloco onde as despedidas são marcadas com abraços e sorrisos. E é deste que eu gosto.
Não que eu goste e seja a coisa mais agradável do mundo ver uma grande amiga entrar num ônibus que irá, mais uma vez, nos separar com cinco horas de viagem. Mas nossas despedidas são sempre tão positivas e sem sofrimento, que chega a ser engraçado.
Tudo não passa, mais uma vez, de uma porção de otimismo. Não há motivos para eu me afundar em prantos quando eu sei que a distância será um detalhe, muitas vezes chato, mas pequeno. Esse tipo de despedida é um tanto quanto otimista pois me traz a sensação de que outros bons momentos estão por vir. Afinal, não há como a pessoa retornar e trazer um monte de alegria se primeiro ela não partir.
Como diz a música de Milton Nascimento: “O trem que chega/ é o mesmo trem da partida/ A hora do encontro/ é também despedida”,
e se eu preciso escolher entre duas dessas palavras, realmente escolherei encontro. Pois só ela pode resumir a positividade da despedida e a certeza de que nem mesmo uma situação melancólica pode afastar e impedir a alegria de voltar, ou melhor, de ter de volta.

Cápsula do Tempo

E tudo começou na segunda-feira, quando num momento de pura falta do que fazer meu dedos no controle remoto direcionaram a televisão para o canal trinta. Entre algumas conversas dispersas e uns momentos de atenção, as imagens de One Tree Hill fizeram com que o silêncio permanecesse, e a partir daí surgisse a curiosidade.
Afinal o que de tão revelador havia sido registrado naquela cápsula do tempo para que tivesse vontade de violar as regras e deletar? Os extremos detalhes não me convêm no momento, mas só pra constar a tal personagem, que eu pra variar não me recordo do nome, havia revelado no vídeo gravado confidencialmente que era lésbica. E por outros motivos que desconheço, afinal estávamos conversando em todas as cenas anteriores, ela precisava desesperadamente deletar todos os fragmentos dessa revelação.
Além de contar com a ajuda do personagem a qual o nome começa com a letra “m” para arrombar o cofre que guardava as fitas, me lembro que houve choros, arrependimentos e confissões. Por fim eles caíram na tentação e acabaram vendo outros vídeos de outras pessoas, o que acabou desencadeando uma revelação generalizada dos vídeos. No que essa história toda deu, no final, confesso que não sei. Sabe, não demorou muito para que a gente começasse a tagarelar e desviasse completamente a atenção.
Mas de qualquer maneira, os poucos minutos em que demos completa atenção ao seriado, foram de total efeito para que o dia seguinte marcasse história.
Após todo aquele clima de fim de festa, com os presentes todos abertos e as cadeiras postas de volta em seus devidos lugares cumprimos o que havia sido combinado: gravar a nossa cápsula do tempo.
M. V. de A., B. Vi de A. e G. P. de S. Três meninas de, respectivamente, dezenove, dezesseis e quinze anos com minutos livres na frente de uma câmera sem qualquer outra pessoa por perto, dizendo suas vontades e suas realidades em 2008 e tentando imaginar como estarão em 2013.
Aparentemente tudo soou como uma simples brincadeira, mas não é que isso causa mais impacto do que aparenta? Não posso, não quero e nem devo tentar relembrar e citar tudo o que eu disse no meu vídeo que durou quase oito minutos, afinal fomos fieis nas regras usadas no seriado em não revelar aos outros quais foram as considerações citadas.
Mas não há como não pensar e não pincelar sobre o assunto. Como é difícil e estranha a sensação de se imaginar daqui a cinco anos. CINCO anos… É tempo demais! Todas as perspectivas e sentimentos podem me parecer muito infantis e pequenos, ou engraçados, ou ultrapassados.
É estranho mais levemente corriqueiro não conseguirmos ter noção de como será o futuro ou até mesmo os próximos dias que estão por vir. Mas é pra lá de assustador não conseguir ao menos deduzir como você mesmo será daqui a uns anos.
Apesar de todos os medos, sensações estranhas e choros (!) decorrentes da gravação desses três vídeos, vejo tudo isso como uma postura otimista. Otimista por acreditarmos nas nossas permanências em vida – isso soa um tanto quanto macabro, mas não deixa de ser verdade -, e principalmente na permanência de nossa união e amizade. É quase como um pacto de amizade e de consideração.
LEMBRETE: ABRIR EM 25/11/2013

6teen

“Um ponto seeeeeeeeeeis!”, não foi a saudação mais calorosa da face da terra, mas já era de se esperar que esse seria o tipo de recepção que eu teria ao entrar pela cozinha no dia do meu aniversário.
Quer dizer, dizem por aí que era meu aniversário nesse dia… Porque até mesmo quando eu estive no meio de dois fortes abraços de parabéns não parecia que fazia um ano em que eu tinha completado quinze anos.
Mas não digo que por isso tive um aniversário ruim… Pelo contrário! Acredito que o fato de não parecer meu aniversário foi quase determinante para que eu tivesse uma terça-feira feliz. Afinal, o que se pode esperar para uma terça-feira de aniversário em meio a uma turbulenta semana de provas?
Eu só temi por me sentir mal pelo fato de estar tendo um dia banal para quem completa dezesseis anos. Mas, não passa de uma ilusão acreditar que tudo deve parar só porque faz mais um ano que você está vivo e cheio de saúde. A vida continua e o mundo não pára, até mesmo quando você está assoprando velhinhas.
Meu dia, inclusive, foi mais banal que o de costume. Como se não bastasse andar de ônibus e lavar alfaces ainda enfrentei crises contra o relógio e irritações de mãe via telefone.
Mas, novamente, acho que cada uma das banalidades foram importantes para que não fosse simplesmente um aniversário. E exatamente por isso eu devo confessar que me arrependi por ter feito um cochilo tão extenso…
Se tivesse sido simplesmente um aniversário eu provavelmente não teria tido uma metade de mim andando ao meu encalço o dia todo. E devo dizer que nada como ter um par de bochechas te seguindo pela casa!
Eu não teria tido uma comemoração tão pouco planejada e tão adequada para o que eu queria. E provavelmente não teria entrado em pânico ao me deparar com duas velas acesas esperando serem apagadas, e um bolo escrito “Parabéns” prontinho para ser cortado juntamente com o tal do pedido.
PEDIDO! Eu mal consigo me lembrar perfeitamente de qual foi o pedido que eu fiz ao cortar o primeiro pedaço de bolo debaixo para cima… Eu sempre planejava com antecedência qual pedido fazer, mas eu simplesmente havia me esquecido que não era mentira o fato de meu aniversário tger chegado, de novo.
Quando chega o fim da festa e os ponteiros do relógio indicam que falta muito pouco para você ter um dia além dos anos recém-completados bate aquela nostalgia de leve… Aquela impressão de que o dia seguinte não poderá ser tão bom quanto e de que tudo voltou ao normal.
Não quando você tem dois principais convidados debaixo de seu teto para te ajudar com os presentes e te dar os últimos parabéns num intervalo de um ano.

É estranho não conseguir entender como o meu aniversário passou e eu mal tive a percepção disso. A única explicação possivelmente aceitável é a de que alguns meses foram diretamente decisivos para que eu me transformasse e fizeram com que essa nova idade marcasse uma fase incrivelmente nova. As mudanças realmente caíram como uma luva nessa nova unidade a ser acrescentada nos anos de vida.
É como um marco onde posso dizer “Com quinze anos era assim… Com dezesseis já é assim!”. Ridiculamente, claro.
Agora que eu já tenho dezesseis e algumas horas é como se o dia vinte e cinco não tivesse passado propriamente dizendo, mas é como se eu já carregasse a positividade e as mudanças tão pouco notáveis.

Goodnight

As expectativas nunca haviam sido muito fervorosas, comparando com os outros cem e tantos dias que estavam por vir. Mas, nada como olhar a contagem e constatar que faltavam apenas cinco, quatro, três, dois, um!
É só abrir os olhos que você se acha embaixo do chuveiro morno cantando e dançando como uma louca, músicas que você até então não agüentava mais escutar.
E não demorou nada para eu pular do estágio fervoroso pré-acontecimento para a fase “Meu Deus, a ficha não quer cair!”.
Após cerca de três piscares de olhos o Maroon 5 já estava no palco e eu já estava cantando – ou seria gritando? – enquanto me sacudia numa dança completamente sem gênero, ritmo e definição.
Obviamente tudo sempre passa mais rápido do que a gente havia desejado, e o Goodnight foi trocado pelo Goodbye.
Uma contagem a menos. Porém, muitas lembranças a mais.

Turquesa

Mais que a brisa noturna. É uma brisa pura acompanhada pelo frescor de orvalho e cheiro de grama. Ou seria de barro? De qualquer forma… O inteiror tem um cheiro tão fresco, leve!
Mesmo que um vidro temperado me separe da imensidão que o céu lá fora esconde, dá pra sentir aquela sensação de conforto, de serenidade. É um pouco como aquela história da brisa leve e da forte ventania.
Incrível como a ausência de luz no céu, ou a presença invertida dela, faz com que eu sinta esse poder maleável. Só de imaginar meus pelos e poros todos arrepiados em contato com o ventinho noturno já me sinto vulnerável, mas de uma maneira positiva.
Vulnerável pra viver a vida, e cada um dos detalhes de cada uma das histórias. Principalmente daquelas que eu mal tenho consciência de que começarei a viver.
Dá uma vontade de largar toda a poluição, arranha-céus, e turbulência só pra sentir a sensação de ter do lado de fora de casa, todos os dias, aquele pasto umidecido que enquanto amedronta, convida. Convida pra viver a liberdade, e a naturalidade.
Não sei se a cor do céu está realmente turquesa, mas ele me pareceu naturalmente claro o bastante pra ser um azul marinho…

Dig

Logo de início palavras são desnecessárias para descompactar o arquivo de memória. Aliás, não há nada mais adequado do que a falta delas para que um sorriso escape pelo canto.
Lembro-me da contagem de tempo, da ordem sincronizada de cada um dos passos e até mesmo da respiração acelerada competindo com o coração.
Pelo reflexo posso ver a foto que abriu as portas e carrega sentimentos que representam uma fase considerável. Hoje, ela não fecha as portas… Somente faz com que ao penetrar neste cômodo eu me lembre de cada uma das sensações e seja preenchida com nostalgia.
Cada personagem e pensamento bobo, hoje, só podem me fazer sorrir sem me arrepender de nada. Foi de fato o meio termo da porta giratória.
Não sei se atingi o cômodo ao lado por completo mas ao menos sei que cada passo bem equilibrado e cuidadoso fizeram com que as inúmeras camadas de tecido transbordassem realização.
Um dos marcos iniciais do primeiro degrau carrega um símbolo do passado, presente e futuro. Mesmo que incompleto ele é grande o suficiente e não tão objetivo como parece ser.
Não tenho registros musicalmente ao vivo mas somente sua carga emocional faz com que cada pedacinho de mim seja preenchido com bem-estar.

Cem

Cem. Centenário. Centésimo. Um e dois zeros. Ou até uma letra C. Um número redondo que desencadeou uma mudança. Desisão tomada, fechadura trancada.
Janelas abertas, juntei cada tranqueirinha, uma por uma. Coloquei em caixas separadas das mágoas, das vitórias, dos amores, e separadamente de cada sentimento de felicidade que passou despercebido por falta de expressão. Lacrei as caixas e atravessei a rua, na tentativa de levar cada fragmento para a nova moradia… Mas fraquejei.
Eu mal havia começado, e já tinha mudado de idéia. Não conseguiria deslocar cada quadrinho das pequenas, e ao mesmo tempo amplas paredes, enquanto deveria sentar à luz fraca do sol para desenhar.
Decisão tomada, mudança desfeita. Com uma rapidez incrível tudo que eu havia empacotado, magicamente retornou aos seus devidos lugares dando a impressão de uma casinha levemente empoeirada, com cheiro de biscoito doce.
Tranquei novamente a porta, reguei as flores do canteiro, e preguei um laço vermelho no centro da porta de madeira escura, e envernizada.
Atravessei a rua novamente, mas dessa vez com as mãos vazias, abanando. Abri a portinha branca que levava a um cômodo ainda mais branco, com janelas amplas que deixavam a luz do sol atravessar sem qualquer tipo de bloqueio.
Decorei as paredes de verde, com um toque de marrom. Plantei uma árvore no jardim e sentei na varanda. Desenhos deveriam ser feitos, uma casa tão arrumadinha e ensolarada não poderia ficar tão vazia!
Fazer festa na casa errada, não significa esquecer de espiar a janela ao anoitecer pra conferir se está tudo certo. Não significa que as mobílias foram deixadas para trás, elas só estão acomodadas no lar que as concebeu com o antigo cheiro de biscoito – de chocolate meio-amargo, sempre -, postas como uma boa lembrança a ser lustrada.
O numeral está do outro lado da rua, mas ele ainda contém todo o seu prestígio, mesmo que tenha sido preguiçosamente demorado. Cem!
Cem. Cem dias se estenderiam até dezenove com dois. Cem horas são dois dias e mais dois migalhos. Cem brigadeiros podem sem ingeridos em meia hora. Cem carambolas eu comeria facilmente em uma semana. Cem anos, só podem ser vividos por orientais. Cem anos são comemorados por orientais. Cem é dois e oito, mais um zero. Cem pode ser uma maioria se acompanhando pelo cento. Cem pode ser cento, sem ser cento. Cem pode indicar ausência se for mal interpretado, ou se conter um ‘s’. Cem pode ser muito, e pouco. Cem reais não dá pra nada. E Cem pode ser dois, se de centavos virar reais.
Cem letras podem ser uma introdução. Cem linhas formam parágrafos. Cem parágrafos compõem uma bela história. Cem histórias, aaaahh. Se estendem do recreio até o instante em que mudam de cor.