Suíça

Certas situações demonstram risco. Não vou mudar, mas minha postura passou a ser outra. Afinal, são seis anos de consideração contra um ano e meio de carinho recíproco.
Se meus dedos agirem após meu consciente relutar, será para apaziguar. Para evitar situações comuns e infantis demais, onde a falsidade vem muito acima da consciência leve.
Nesse momento, preciso tentar pensar em mim. Nesse momento, nada como ser um país neutro.

Eco

Está tudo bem, está tudo certo. Não pense que dessa vez vou me sucumbir a possibilidades que te favoreçam. Hoje apostarei nas piores possíveis, afinal elas me fortalecem permanentemente. Está tudo realmente certo se você acredita que assim tem que ser, eu nem mesmo penso em abaixar minha cabeça.
Já passei por coisas, de longe, muito piores. E aliás, eu me conheço, sei que assim sou bem melhor.

Alicerce

Essa programação pacata me agrada mesmo. E a perspectiva menos dramática me equilibra. Mas, aposto algumas moedas que isso acontece devido a alguns quilômetros longe da minha fraqueza. E isso é tão egoísta… Mas, hoje eu não quero dar a volta por cima, não hoje.
Não demora nada para que eu seja pega novamente com a sensação de crescimento. A vida realmente me surpreende, e eu não demoro nada para reconhecer que a figura forte e confiante é tão vulnerável a erros como eu. Isso é tranquilizador, tanto pelo lado egoísta de não ser a única a sofrer, quanto pelo lado incentivador de ter tanto potencial quanto.
Igual para igual. Vejo tudo por um lado simplório e viável, onde a amizade cresce surpreendentemente. Daí a gente entende que nada é como nos filmes, principalmente na parte em que as amigas de infância viram madrinhas de casamento. Por mais frustrante que seja, é também muito bom.
Eu, de fato, não seria metade do que sou se não tivesse sofrido no começo. Numa visão geral, posso até arriscar que já me torcei mais forte do que quem sempre me pareceu inabalável.
Não há do que se queixar, tenho muitas histórias para enfrentar e um belo alicerce para me escorar.

Quadriculado

Essa história hipócrita de certas pessoas serem mais bem cotadas começa lá atrás, onde eu ainda não tinha muita vocação para ser vaidosa e destruia as piadas dos meninos. Consegui respeito e aprendi fielmente que não precisaria me rebaixar ao que nunca fui para ser alguém legal. Logo, não fui bem cotada.
A gente cresce. E muda. Porém, em alguns sentidos não. Meus princípios continuam os mesmos, mas aprendi a misturar melhor. E passei a perceber que a ausência de cotação é sinônimo de verdade.
Nacionalidade em forma de comida, pouca desenvoltura gastronômica e muito assunto. A perspectiva de um sábado sem garçons é tão adequada e… bem cotada!
Vejo o quanto mudei e aprendi. São fases e mais fases, mas me sinto bem cercada como nunca. E esse mesmo bem-estar me lembra que reconhecimento pode estar oculto.
Novamente me remeto aos números, mas os uso somente para demonstrar que as cotas não são fundamentadas por cálculos confiáveis. O que há de mais interessante, geralmente está por trás de qualquer sistema classificatório.
E no fim, somos todas iguais nos problemas e às vezes mais práticas para resolvê-los. A diversão é a mesma, a risada é pela mesma piada e as circunstâncias não variam muito. Com uma única diferença: ser bem cotado te torna mal falado.

Altruísmo

Não é sede por piedade que me faz tomar as dores dos outros. Devo ter herdado da minha mãe esse tal coração mole que quase gosta de passar por cima dos próprios batimentos para zelar pelos dos outros. E repito: nada de piedade.
Mas nada posso fazer se uma tarde pacata, um pouco fria e com alguns raios de sol tornou-se um dia cheio de voltas. Com todos os devidos personagens presentes, qualquer roteirista romanticamente normal, e clichê teria dado continuidade lógica para a trama. Porém, o destino quis surpreender os telespectadores logo hoje… E o frio aumentou diretamente proporcional aos acontecimentos.
Entre pequenos intervalos serenos para conversar, eu mantia-me aquecida com minha blusa, e ainda meio encoberta com a falsa sensação de que o que me espera não estava naquele loteamento. Pensando que talvez a sorte teria se voltado para mim.
A situação mudou, e eu desviei os pensamentos para cada fagulha de informação que eu coletava. Não me disseram como reagir, logo meu senso me tornou perspicaz o suficiente para atacar de João. Cada uma das frases rapidamente calculadas eu guardei em arquivos, sem analisar profundamente pois naquele instante eu visava quantidade, para depois despejar numa mesa e transformar em qualidade. Antes de qualquer atitude eu já me perguntava como contar isso a quem realmente precisava saber, depois do ato consolidado eu já misturava raiva com pena e transparecia desaprovação.
Em outro cômodo outra vida que zelo, ainda mais eu diria, passava por altos e baixos numa confusão de passado mal curado com presente misturado. No fim, me vi sentada em meio a pessoas que não fazem parte da minha vivência, pensando naquele acúmulo de problemas alheios prestes a sugar minhas energias.
Fugir foi uma boa tática. Ainda mais depois de um dia que já havia começado agitado, com exames, remédios, soro e agulha, tudo devido a um emocional à flor da pele.
Apesar das canções perdidas, as letras que restaram continham as palavras que calharam adequadas à situação. Não demorei em observar o céu escuro ao cantar a música escolhida a dedo.
Nem sempre vencer é a melhor saída, manter a cabeça erguida e consciente do meu melhor é um bom começo.

“Faço o melhor que sou capaz, só pra viver em paz” (Los Hermanos)

Baú

Chega a ser toscamente clichê, mas é inacreditável como o que um dia foi a última novidade em pouco tempo torna-se ultrapassado. Inclusive me pego imaginando se um dia serei um casal cafona, ou uma solteira chata.
Basicamente três gerações que freqüentaram e aprenderem tudo o que havia de errado no mesmo lugar, estavam juntas. Três conceitos do que é ser uma pessoa legal, três conceitos e duas vivências de como é a vida adulta.
Eu cresci acompanhando a infinita ascensão dessas pessoas modernas. Elas sempre foram legais, atualizadas e impecáveis. Como se fossem casar, ter quatro filhos, um emprego de dar inveja e continuassem a serem as pessoas que ditam o que é passar vergonha e quem define qual lugar deve ser badalado e onde era é freqüentado.
Mas, o papel estranhamente se inverteu. Vejo que aqueles perfis não são mais parâmetros do que um dia eu quero ser. Agora quem é legal aqui sou eu, eu que conheço os lugares que todo mundo quer ir. Sou eu quem sabe na ponta da língua quais são as bandas do momento. E isso está naturalmente certo.
Mas, isto é quase um segredo. Ou quem sabe uma verdade imperceptível aos olhos deles. Afinal, eles ainda acreditam que eu seja uma pessoa bem mais nova, que ainda tem muito aprender. E eles certamente ousariam dizer que os lugares que frequento não são tão legais perto daqueles que eles costumavam ir. Eles nunca se darão conta de quem está nessa fase agora sou eu. E isso está naturalmente certo.
Eu logicamente vou dizer que não me permitirei ser cafona, mesmo quando o mundo tenha novas tendências. Minha época sempre terá sido a melhor de todas, e as novas bandas serão completamente fracas.
E isso? Está naturalmente certo.

Luna

Às vezes, nada vale mais para o momento do que a superficial sensação de sentir-se um objeto. Como algo para ser balançado e treinado rumo a uma decoração. Saltos, pernas, sofás. Estar no lugar errado nem sempre é tão errado ou sem sentido assim.

Crente

Após umas três horas de frio nos pés e mais umas duas de muita força e condicionador, volto ao meu estado normal. Por um instante eu cheguei a me esquecer de espalhar espuma na parte, até então, encoberta.
Após sustos e saudade explícita, reparei que aquele era um bom momento de manter contato. E cada segundo insano hesitando para pressionar ok são compensados pela agilidade e visível atenção.
Cada demonstração me prende mais ao nada, a essa confortável incerteza. Agora aguenta.

Carreteiro

Toda a energia e falsa sensação de liberdade encerram-se assim que atravesso a rua embaixo de uma garoa fina. E nenhum outro clima poderia ser mais propenso a isso.
Todos os acenos que faço para pedir calma já estão cansados e repetitivos. É como tomar café com leite todas as manhãs, mas sem o gosto adocicado.
Na presença de estranhos as pessoas tentam manter o controle por mais tempo e seguram alguns impulsos. Mas, mesmo assim ninguém pode esconder a essência de uma casa.
Isso me chateia. Não tanto por ser diferente, mas sim por ser desconhecido. Cinco minutos são suficientes para eu voltar ao juízo e correr ao armário de armaduras.
Em algum momento a realidade volta à tona, e isso nunca muda.

Makossa

A locomoção nem pode ser chamada de viagem, pois não teve duração suficiente pra isso. Observar as luzes da cidade em meio ao céu preto e ao som da perfeita trilha sonora pôde me dar uma pequena noção do que me esperava.
Nada como um feriadão de quatro dias sentindo o cheiro do mar. Quatro dias com duas das melhores companhias, com muito trabalho de perna dia e noite.
Um apartamento literalmente vazio, três colchões, uma garrafa de água, algumas sacolas com (quase) comidas nada saudáveis, muitas malas de roupa, e um rádio. Cac, era o nosso cac.
Qualquer sussuro ecoava imediatamente entre as paredes branquinhas cheirando a cal. E a cada espiada pela janela era possível observar a rotina literalmente apertada dos vizinhos da frente.
A longa extensão de areia, e as embarcações indo e vindo. Os passeios no sol, ou no céu nublado. O sol de fritar minha pele de leite, e as noites loucas. A meia verde, o low-fat frozen yogurt. Cada uma das loucurinhas, das besteiras, das verdades, e cada uma dos milhares de risos.
Ah, mas se Santos falasse…!