Calendário

Parece um poster, quase um quadro ou um mural de avisos. É musical mas não canta. Aliás, só é musical para quem lhe é familiar. Parece tudo isso mas ele é muito mais simples: trata-se de um calendário.
Separando cada dia com um quadradinho me faz lembrar minha noção infantil do passar dos dias. Quando comecei a entender que dormir virava o dia, enxergava uma linha contínua cheia de quadrados, como uma amarelinha, e me via pulando cada um deles toda vez que alguém dizia “daqui três dias…” Minha imagem mental talvez não tenha mudado muito, e muito menos agora que eu realmente pulo os quadrados. Pulo e os desenho.
Quando paro pra pensar qual roupa vou usar em tal festa penso junto qual será o desenho para aquele dia. E eu nunca adianto as informações, o espaço só é preenchido após serem completadas as vinte e quatro horas correspondentes. Pego o porta-canetas, sento em frente ao calendário e penso o que quero deixar marcado daquele dia, ou como toda teimosia na minha vida às vezes escrevo o que devo e não o que quero. 


Registro as músicas tocadas repetidamente, viciadas no meu ipod e que são o que estou ou o que sou. Depois, tomo o cuidado em não repetir cores e tento desenhar. Tento, pois quando erro colo adesivos feios em cima que de nada adiantam por gritarem: “alguém errou por aqui”.
As franjas beatlenianas e os trechos escolhem, sozinhos, dias para preencherem de vida, ou de suspiros, a cada mês. Me vejo imaginando quais serão os desenhos do mês começando e faço balanceamentos dos que estão pra acabar.
Apenas sento e penso no meu dia, no que pensei e ninguém sabe, no que falei e todo mundo ouviu. É repetitivo, decodificado e com mais letras que desenhos. É o meu lovesick diary, como não poderia ser diferente vindo de mim. 

O ano está acabando. Me restam pouco menos de sessenta quadrados. Preciso de um novo. Urgente.

Anti-herói

Duas cicatrizes no queixo. Três pontos para uma brincadeira de cobra-cega quando criança, cinco pontos para uma queda de skate durante uma manobra, já adolescente. Marcas que não sem propósito costumam caracterizar quem não costuma ficar tempo demais no sofá. Na ausência de uma nova cicatriz, o zumbido doloroso da máquina de tatuar estava, naquele momento, registrando uma nova fase de vida. E não necessariamente como uma atitude desenfreada e instantânea como um corte que sangra, e sim como uma linha fina que também sangra, mas segundo por segundo registra na pele o que a vida se encarregou de fazer até aquele momento.

   Quem o ouve falar baixo e devagar mal imagina que a calma não impede que a personalidade forte transpareça. E paradoxalmente as pausas nas frases bem pensadas transmitem força. Sem parecer rude, apenas forte. E por ser forte é também verdadeiro. Não há equívoco ao achá-lo correto ou transgressor demais.

   Sem ser contraditório, Laercio aglutina a atitude de quem já subiu em janelas pra pichar muros, mas não por falta do que falar: exatamente por sobra do que dizer, como quem lê e tem uma resposta firme pra tudo. Certa vez pegou o último trem partindo de São Caetano, e com seus amigos e algumas latas de spray desceu em Mauá para deixar marcas urbanas nos muros da cidade, que nenhum deles conhecia muito bem. Enquanto ele e um amigo pichavam um prédio, outro ficou encarregado de observar a chegada de qualquer estranho a eles, e não deixou de cumprir a missão em avisar: a polícia veio e cada um deles correu para um lado. Mesmo sem as latas de tinta, as mãos ainda estavam sujas e não pôde fugir das viaturas que os perseguiam separadamente. Quando questionado sobre estar pichando, negou. Mas a criatividade foi falha ao justificar estar indo para casa, àquela altura da noite. Sem demora foi colocado dentro da viatura e foi de encontro a outro amigo que também havia sido pego.

   Em momento algum conversou com seu amigo, apenas o observou de longe enquanto os policiais riam e combinavam a regra do jogo: a cada vez que ele desse uma resposta negativa, seu amigo situado há alguns metros em outro muro sofreria consequências. Concordar com os questionamentos sobre estar sujando as paredes ou ter vontade de ir até a delegacia parecia incoerente. Mas ao mesmo tempo em que seu amigo recebia os murros sem poder ouvir as respostas, ele sabia que ao ver o amigo balançar a cabeça negativamente não ficaria barato para ele também. Passados dez minutos de tortura psicológica ambos foram liberados. Com vários hematomas, mas aparentemente não o suficiente para aprender a lição.

   Outra vez foi necessária, e nesta tapas ou arranhões não foram as medidas tomadas. Teve que cumprir trabalho voluntário na Escola de Ecologia, local em que teve gosto em ajudar. A pior parte era alimentar as cobras. E não só pela sensação de risco ao abrir o viveiro do animal, mas também pela necessidade de dar ratos vivos como refeições. Cobras, num ambiente de estudos e exposições, têm mais validade que um mero rato, não podendo correr o risco de que num momento de distração seja atacada. Como precaução, os ratos deveriam ser dados à cobra após um tratamento de choque: eram pegos pelo rabo e levemente batidos numa mesa. O suficiente para ficarem zonzos, sem que os ossos se quebrassem e tivessem que ser substituídos por outros ratos.

   Desde cedo lidou com a arte gráfica e seus primeiros trabalhos foram aos quinze anos, quando nem mesmo sabia qual quantia decente deveria ser cobrada. Dezoito meses de curso técnico em publicidade e propaganda abriram ainda mais seus olhos para perceber que a arte que fazia em muros, primeiro com grafites e depois com stickers poderia certamente ser feita pra vida inteira. Depois desse momento nunca mais teve dúvidas de que tinha uma relação vital com o design, sendo essa uma das poucas e mais reais verdades em sua vida.

   Cursou a faculdade de Design Gráfico custeado pelo ProUni sem que a dedicação viesse somente pela obrigação em tirar boas notas. Por um tempo utilizou um caderno feito com folhas escolhidas à dedo: tons de azul, algumas folhas pretas no fim e uma capa de papelão bege. Aproveitava cada pedaço das folhas para desenhar e fazer anotações na borda, com uma letra geométrica, expressiva e não menos artística. Sempre viu brilho nas aulas teóricas de História da Arte, que valoriza tanto quanto as práticas, pela necessidade de formação consciente. Por descuido e euforia de começo de semestre, faltou a algumas aulas de Antropologia e precisaria tirar mais pontos do que o previsto. Ao conversar com o professor, aceitou a proposta: se proporcionasse ao menos duas discussões verdadeiramente boas durante as aulas, seria aprovado. Passado o período o professor não pensou duas vezes, disse que cada comentário não proporcionou somente duas boas discussões como também o semestre mais acalorado e proveitoso da disciplina. Laercio fala, mas fala com propriedade.

   Muito do que sabe aprendeu com o pai, que quando jovem deixou de lado os estudos em Engenharia na Unicamp para lutar no movimento estudantil. Não é à toa que discute política com interesse e conhecimento de quem não lê jornal apenas os títulos nos portais da internet, e sim de quem cresceu pautado nesses temas. É na mesa do jantar que discute com o pai coruja, que o espera chegar em casa todos os dias, os assuntos que aconteceram ao longo do dia. Aposentado, seu pai faz questão de ir todos diariamente até a banca de jornal para comprar a Folha de São Paulo. Não quer saber de assinaturas mensais, receber o exemplar em casa acabaria com uma das atividades mais animadoras da manhã.

   É também nos jogos de futebol que acentua os laços familiares. São paulino desde pequeno, costuma ir assistir aos jogos com o pai sem que caia no clichê da relação pai e filho. Vê num pai uma figura de base, e só se interessa em ir às festas de família se o pai for, para que assim tenha com quem conversar. Chama a avó de abuela e diz que os palavrões nunca são medidos na hora das refeições. De origem espanhola, fala da cultura como quem conhece mais que a comida e dança típicas. Tem uma irmã mais velha de quem pouco fala, e um primo que considera muito. Demora para encontrá-lo, mas quando o vê, dá problema. Conta de viagens repentinas, pouco conscientes e com consequências econômicas a serem recuperadas por meses à frente. E ainda terá muito o que contar.

   Aliás,o próprio apelido, que por senso comum não costumam ter explicações, possui uma história. Hoje caracteriza o apelido como uma atitude meio prepotente, já que deu a si próprio. Com um nome que não possui sílabas sonoramente fáceis e práticas, adotou o termo monossilábico Lex. Precisava de algo curto e fácil que
pudesse ser utilizado para assinar seus desenhos. Não encontrou saída melhor do que um apelido que faz alusão ao seu nome e ao mesmo tempo opõe-se ao Super Homem. De Lex Luthor a Lex Lopo, nasceu o anti-herói.

   Através do vidro que separa a sala de espera do estúdio do tatuador pude acompanhar a cara de dor para a agulha que cobria lentamente sua costela esquerda. O desenho foi escolhido para representar algo que considera transcendental: a mudança para uma fase madura, de certezas e perspectivas positivas. Um desenho forte, significativo e apesar ser uma caveira, é extremamente vivo. Uma escolha mais madura e pensada ao contrário da primeira tatuagem que carrega no braço esquerdo, da qual se arrepende, não gosta de mostrar e pretende encobrir. Fruto de quem aos catorze anos acha que tem todas as certezas do mundo. Mas não exatamente precipitado.

   Laercio Lopo Juarez hoje trabalha na agência de publicidade Mccann, onde apesar do ambiente descontraído não possui responsabilidades menores. Entra para trabalhar no meio da manhã sem saber a que horas será possível voltar para casa. Já chegou a passar dias inteiros trabalhando, com colegas de trabalhos tão expressivos quanto ele próprio. De tão aberto, o ambiente de trabalho chega a tornar-se cruelmente sincero quando os colegas já não censuram respostas grossas ou piadinhas para ele, que sempre chega depois das nove. Uma resposta áspera bastou para que não fizessem mais comentário algum, sem crises, sem brigas.

  Sempre gostou mais das pessoas introspectivas e aproximou-se de quem seria normalmente considerado estranho. Foge de tudo o que é superficial, sem se limitar a encontrar sentido em tudo o que faz. Odeia quem anda de patins e se irrita fácil com gente ignorante. É eterno adepto do papel e caneta, e acha que nada substitui o cheiro de livro novo entre os vários que ocupam suas prateleiras – já sofrendo com a falta de espaço para novos exemplares.

   Quatro horas depois, Lex saiu do estúdio com a tatuagem contornada, ainda como um esboço do que completará o ritual de passagem. Antes seu armário de roupas era composto por camisetas brancas, pretas e cinzas; hoje possui inúmeras camisas xadrez. Muda de fase com um passo firme ou em uma acentuada manobra de skate. Acentuada e mutável. Assim como o paradoxo de ter ao mesmo tempo uma aura que transmite paz, mas que não deixa de queimar por dentro.

  Seus vinte e poucos anos parecem já ter delimitado sua personalidade. Mas assim como é impossível criar uma arte sem ao mesmo tempo destruir outra, o seu desenho nunca estará pronto. Como numa tatuagem sem fim, que enquanto a figura ganha mais adornos e parece cada vez mais bonita aos olhos, ela não deixa de sangrar. E ser viva.

Site com portfólio e trabalhos de Laercio Lopo Juarez: http://www.laerciolopo.com

 

Anos-agora

De quatro a sete mesas enfileiradas frente, ou lado, às janelas. Poucas vazias, outras fora da minha visão periférica – logo as que me fogem da contagem precisa. Por serem de quatro lugares – e pequenas, em comparação com as mesas redondas ou as que mais parecem de reunião -, são comumente ocupadas por pessoas isoladas, e não necessariamente sozinhas.
Tomada pela culpa de ocupar um espaço maior do que preciso, dividi a mesa com uma moça, que provavelmente me xingou por pensamentos, pensando porque raios eu decidi sentar-me com ela, quando poderia ocupar qualquer outra mesa vazia.
Sentei, e não tardou para que ela se levantasse. Exitei mudar de lugar e ocupar a posição em que ela estava: de frente para quem também dividia o mesmo ambiente. Permaneci de costas, não pela opção de me virar contra as pessoas, e sim atraída pela perspectiva de observar ainda mais as pessoas. 
Por trás das janelas fumê, o sol tímido de começo de outono coloriu a imagem como uma fotografia retrô. Mas as roupas e a dinâmica das ruas não possibilitavam que se imaginasse estar nos anos 50. Era uma típica imagem dos anos-agora, só que com um tom amarelado, talvez de quem usa óculos de sol e não consegue saber exatamente quais são as cores dos objetos.
I’ll make you mixtape that’s a blueprint of my soul.
A faixa de pedestres e cada uma das pernas compassadas. Sem saber, compõem uma sincronia angular, frenética e constante. De tempos em tempos. Esperar e andar, esperar e andar. Como uma ordem pré-estabelecida, como um grupo que segue para um único destino.
It may sound grand but babe it’s all you need to know.
As cores pouco diferem do cinza-asfalto-calçada-parede. A palheta de cores, fixada na escala de tons-escritório coincide com a correria, com as pernas compassadas, constantes.
I’ll make you mixtape that will charm you into bed.
Tudo o que passa correndo também se demora amargamente. E não precisa ir rápido. Pelo menos não como as pernas compassadas, constantes. Correndo, aqui, só os pensamentos.
It details everything that’s running round my head.



(Mixtape – Jamie Cullum)

Littera

Toda decisão relevante envolve sofrimento. Porém, acima disso está o benefício da escolha, ao invés de ser escolhida. Prefiro assim: um passo de cada vez, mas um passo bem dado, bem pensado e bem vivido. Nada supera o viver saudável, um sono tranquilo e um fim de semana de diversão – pois também há muita vida lá fora.
Não pretendo parar tão cedo, mesmo. E quando se tem um sonho, e muita vontade de alcançá-lo não existe tempo certo ou errado, cedo ou tarde. Estou certa, mas ainda não estou exatamente segura. Na verdade, nunca estarei. E esse constante sentimento é o que me faz querer ir até o último andar.
Enfim troco letras pelo conjunto delas. E que venham frases construídas, parágrafos completos e muitos outros textos inteiros.

Since

E quando foi que nós nos perdemos? Não vejo um divisor de águas, um copo a mais ou uma tragada a menos que tenha mudado nossas verdades. Então o que é a verdade? Algo que muda ao longo dos dias não pode ser exato, racional e iniludível. A constante permutação de tudo aquilo que abraçamos e defendemos com unhas e dentes exclui o conceito de veracidade nos primeiros pré-requisitos. Então, diga-me, o que é a verdade?

Foi no momento em que eu abri uma janela que você fechou outras duas? Ou foi quando eu tapei o sol com a cortina que você se protegeu com óculos de sol?

Quando tudo que fez parte parte do meu passado caiu em ruínas, que mal servem como boas lembranças, acreditei na ilusão de que você permaneceria aqui. E de repente eu ouço você me pedir “por favor”, como se sete anos se reduzissem a nada.
Vejo um muro divisor. Grande em todos os sentidos (assumo todo o rancor comparativo), mas ainda assim pequeno. Pequeno de positividade, pequeno de atitudes e situações concretas. Transbordando de sonhos utópicos, alegóricos. Sonhar tem sido pouco.

Ainda que eu me veja coberta pelo sagrado manto da razão, não esqueço o outro lado da moeda. A coroa me incentiva enquanto a cara me mantém com os pés no chão. Basta virar a moeda para que eu seja exibicionista, vulnerável, e mais uma. Enquanto você é quem tem o real valor, quem a mãe passa a mão na cabeça enquanto consola, que o mundo é sim ruim, mas quem é realmente bom tem seu lugar guardado. Você tem todo o talento do mundo, cabeça forte, personalidade e apoio familiar. A idiota aqui, sou eu. Eu quem faço tudo errado.

Dia-a-dia me consumo em favores da qual nunca fui obrigada ou recompensada. Fico articulando palavras e tentando me colocar numa gaveta que não caibo mais. Até uma criança já teria resolvido seu problema dividindo suas canetas coloridas novas pra cativar amizades. E eu continuo a passar, dia após dia, pensando quando é que isso vai acabar.
Mais quatro, cinco, seis anos é mais do minha capacidade apaziguadora pode suportar. Até lá, tudo o que permaneceu entalado, como biscoito água e sal, terá me transformado no que eu sei que não sou, e que não preciso ser relembrada.

Que assim seja. Assumo a imbestilidade ou qualquer desgraça que me for classificada, com um dedo indicador que só desqualifica. Por alguém que separa por defeitos, e que o melhor é menos pior.
Acima de qualquer discurso furado de quem acha que venceu mais uma batalha: cada passo que me afastou de você, e que aproximou a muralha das lamentações, me fez bem e satisfeita. Não me arrependo de cada passo novo, e de cada pedaço que me coloca onde eu quis. História de vida.

Adrenalina

(Da série que não deveria ter data)
Logo eu, que por tanto tempo evitei as filas de quatro horas por alegar queda de pressão, fui designada aos trilhos de madeira. Que por si só, sacolejam como batedeiras de bolo. Ainda sem um cinto de segurança que prende pelo peito, apenas uma barra fina na cintura. E de costas, pressionando o pescoço contra a gravidade, sempre de costas. Mas nunca para trás.
Logo eu, que sempre achei essa comparação muito fraca e previsível, percebi que nada tem sido diferente dos pontos médios que desenham o polígono de frequência. Com frequência pouco frequente: altíssimos ou baixíssimos pontos máximos e mínimos, repectivamente ou não. Verde e preto. Como um eletrocardiograma oscilante, agudo, preciso, pulsando e vivo.

Vivendo. Foi assim que já nem me lembro de como eu era há cinco minutos, apenas recordo de que estou onde eu, um dia, quis estar. E como já não é novidade: não era exatamente assim que eu imaginava.
Tudo tem acontecido, tudo tem mudado. Mas nada está acontecendo, e nada está mudando. É a luta dos extremos, ter tudo e nada ao mesmo tempo. Ter logo dois pássaros nas mãos, e ainda ver outros dois voando.

Não quero descer. Não sou bem aquela que grita pra acelerarem o controle, mas não pensei em ir para o carrossel. Tenho raras lembranças dos cavalos dourados, que se restringem a fundos de fotos. Sem lembranças do que ficou, ou do que me contaram. Lembro das curvas, do dragão vermelho na frente do primeiro lugar e da cauda espetada logo ao fim. 



Sou viciada em adrenalina, o tremer ansioso de uma perna sob a mesa é a espera pela próxima curva. E justamente ao contrário do que parece, não é um lugar na carruagem espelhada a resposta das perguntas. A calmaria e a música melancólica vão contra ao que corre nas minhas veias. O preenchimento das lacunas é o traçado de uma ferradura: dois extremos, ligados por um caminho curvado.


E logo eu, que pensei não  precisar de mais nada, nunca precisei tanto. Nunca achei que poderia ser tão necessário me livrar das lembranças dominicais. Nunca pensei que fosse assumir ser de pele e ossos e muito mortal, ao ponto de ser mal completada.

Mas eu não vou descer. Vou ficar bem aqui, à espera do looping que fará o mundo virar de ponta cabeça. Para que mesmo que eu veja o céu azul com nuvens brancas, eu retorne rapidamente ao eixo, e volte a ver o chão, mesmo que com a maior brutalidade possível. Já que dizem que o certo é o lado direito e ainda assim tudo continua virado, só me resta virar do avesso pra ver se assim alguma coisa passa a fazer sentido por aqui.

Sorriso

Pessoas em fase adulta costumam dizer que representam alguns personagens diariamente, para cumprir suas funções na sociedade e poupar (ou estabilizar) as dores de cabeça na vida. Mal sabem elas que não aprenderam a atuar na marra, já nasceram sabendo.
Desde criança uma força interior, aguçada por outra exterior, mostra que sem forte dramatização algumas coisas não são alcançadas. Basta reparar em uma criança numa loja de brinquedos, no setor de doces do mercado, no dentista ou no parquinho. Sem o choro desesperado e exagerado o brinquedo não seria comprado, não haveria doce antes do jantar, não receberia mimos e promessas por não morder o dentista, e não teria agrado algum depois da imperceptível ralada no joelho. A arte de chorar pode causar alguns estragos, enganar algumas pessoas e chantagear emocionalmente. Mas a ferida não é maior daquele que finge sorrir.
Quando quero, e principalmente quando não quero, faço jus ao meu nome: atuo como ninguém. Sorrio pra gente grossa, após uma ofensa, pra quem erra meu troco ou me atende mal, e ainda mais pra quem me chateia. Poucas coisas fazem meu sorriso falhar e ser pouco convincente. Mas quando fazem, não há escola de arte ou retirada de duas letras no meu nome que sejam plenamente potentes pra me fazer fingir.
Agora, meus dentes estão presos numa mordida tensa, engolindo desabafos e puras verdades. Estão tentando unir forças para morder bravamente e me distrair de uma dor maior, que tá aqui dentro. É um sentimento novo, mal sei se comparo com perda ou tristeza. Só sei que é muito mais desesperado do que a ideia de não ter em quem pensar. Tem sido pior que carência, e poderá ser maior que qualquer desilusão amorosa. Não estou pronta – nem nunca estarei!- pra perder um pedaço enorme de mim. Que apesar de não ser do mesmo sangue, segue a sina para que seja tão forte como se fosse.
Três sempre foi meu número da sorte, e em algum lugar deve estar escrito que assim sempre será. A genética uniu dois, e o terceiro veio pra completar tudo o que faltava: o bom humor incondicional, as ideias incabíveis, a ingenuidade e falta de pés no chão.
A falta de perfeição sempre me trouxe alívio por saber onde estar. Mas não deveria ser tão real ao ponto de doer. De pouco em pouco, sem perceber, alguns buracos ficaram pelo caminho e não devem -não é possível que possam- serem preenchidos por lembranças e nada mais.
Todas as avós devem dizer por aí, que nada acontece por acaso e que alguns males vêm para o bem. De males, estou satiafeita. Quero os bens, os acertos e a prova de que o acaso foi generoso em fortalecer laços inquebráveis. Já estou pronta para no meu melhor estilo, engolir algumas pedradas, me humilhar e esforçar sem reconhecimento só para poupar, que a noite meu ser possa doer mais que meus braços.
Eu preciso, e você também. Apesar de tudo que tem se mostrado errado, ou mal sincronizado. O pior erro seria vivermos distantes. Três é meu número, e você é o terceiro sorriso.

Maçã Vermelha

Certa vez me disseram que pouquíssimas pessoas conseguem se realizar inteiramente num ofício, não duvidei. Pelo contrário, custei a acreditar que poderia um dia conhecer uma dessas pessoas. Em qualquer ambiente de trabalho é automático identificar os infelizes. É ridícula a facilidade em encontrar pessoas que se sentem, literalmente, em um “tripalium”.
Além dos completos descontentes, existem os conformados. Ou são aqueles que, depois de muito custo, se acostumaram com a rotina, ou aqueles que deixaram de ver prazer no que fazem após certa desilusão. Algumas pessoas passam a vida toda procurando o amor de suas vidas, ou até mesmo sem saber que não o encontraram. Com a vocação profissional não pode ser tão diferente.
Certas pessoas, por inúmeros motivos, não conseguirão encontrar sentido no que fazem, ou não encontrarão algo que faça sentido, e pior, podem não perceber que não são felizes no que fazem. Acredito que tudo também dependa do estado de humor também. Após um engarrafamento de três horas, uma reunião estressante ou prazos curtos para cumprir tarefas, qualquer um pode reclamar (baixinho ou aos berros) que escolheram a profissão errada.
Porém, poucos nascem com o dom de amar o que fazem, encontrando energia em difíceis tarefas, exalando brilho nos olhos. Algumas profissões são mal interpretadas, classificadas como castigo e penitência. Mas geralmente guardam uma essência rara, que somente quem ama o que faz pode enxergar e sentir.
Enfim conheci alguém que vive para o que faz. Cada dia é marcado por motivação, paciência, educação e otimismo. Cada nova aula é de fato uma aula de esperança de que o ser humano é capaz de construir uma convivência sadia e igualitária. Parte de cada um aproveitar, ou ignorar. Dependendo do ponto de vista tudo não passa de enrolação e desperdício de tempo. Pobre de quem perde a chance de sentir, tão de perto, a pureza de alguém que ama o que faz.
Aqueles treze minutos fizeram a felicidade de quem estava farto dos números, a alegria de quem sentia sono e a distração de quem se dispôs. Crianças falavam numa língua estranha, tijolos estavam sendo feitos enquanto a professora pedia que fossem à aula. Celular, torre? Substantivos simples eram abstratos e utópicos para aqueles pequenos, que mal podiam concluir o efeito de suas vidas na humanidade.
Boas metáforas, fortes mensagens e várias interpretações. Tudo corria como o padrão, até que fui surpreendida pela pausa na fala. Olhei na direção e lágrimas estavam sendo contidas, sem sucesso. Aquele impulso involuntário foi além de um bom coração ou sentimentalismo. Ele traduziu uma alma apaixonada, que não vê diferenças, apenas desigualdades. A alma pura de quem sonha com a mudança, tem como sonho formar bons cidadãos. Uma alma que chora por ver falhas, por ser desiludida e rasgada pelas garras da imperdoável verdade.
Um pedido de desculpas e palavras soltas antecederam um silêncio respeitador e rico. Encontro motivação no que você faz. Não comparo à perfeição, mas sigo de exemplo como é dedicar todo o seu amor a quem nem mesmo sabe disso. E quem agradece aqui, sou eu.

Trufado

Entrei rápido no quarto, carregando uma porção de coisas que deixei em cima da cama. Enquanto abri o armário, mal prestei atenção em qual gaveta estava vasculhando, afinal estava imersa nos meus pensamentos e nas tarefas a cumprir naquela noite. Comecei a me trocar, com pressa para não perder tempo nessa ação sem importância. Até que ouvi vozes, em coro, cantando.
Parei pra ouvir e abri a veneziana atrás da janela emissora do som. Em meio aos latidos dos cachorros da rua, pude identificar um canto de feliz aniversário, de umas quatro ou cinco pessoas no máximo. A voz de um homem adulto puxava o resto do coro, com uma voz feminina no meio. Pela intonação presumi que fosse aniversário de uma criança. Mas, seu nome foi confundido com o ônibus que desceu correndo pela rua, desrespeitando a placa de 60km.
Com as luzes apagadas, o flash se destacou e então não tive dúvidas de em qual janela velas estavam sendo apagadas. Algumas vozes femininas desempenharam o papel, geralmente das tias, em expressar felicidade, com orgulho e entusiasmo (na maioria das vezes, forçado), através de gritinhos “êêê”.
Alguém acendeu as luzes, e pela iluminação da janela da lavanderia, comecei a imaginar que a mãe teria assumido a missão de cortar os pedaços de bolo. Todos ficariam em silêncio para comer, e certamente alguém perguntou quem fez o bolo. E, mesmo que da boca pra fora, pediu a receita.
Quando parei de ouvir as vozes, perdi meu olhar nas outras janelas dos prédios, e em meio a ventiladores de teto ou iluminação azul da televisão percebi que, minutos atrás, estava agitada e focada em não perder tempo mas, me distraí com algo tão simples mas tão significativo quanto um parabéns a você.
Enquanto essa quarta-feira representava, para mim, apenas o meio da semana e um passo mais perto do fim de semana, ela estava sendo especial para alguém. Deve ter sido esperada por alguém. A partir de então, me vi sentada, sorrindo. Contente pela paz daquele apartamento, tranquilizada pela felicidade. Satisfeita por aquele dia ser especial para alguém.

Morena

Foram inúmeras as vezes que você me pediu para ser citada em algum dos meus textos, ou quem sabe ter algum exclusivamente dedicado. Eu sempre te pedi paciência, afinal esse tipo de coisa não funciona com pressão e você merecia algo muito bem feito.
Mas, acredito que tudo isso não passava de discursos involuntários para que meu consciente não reparasse o verdadeiro motivo: não sabia como fazê-lo.
Fico decepcionada comigo mesma só de imaginar que você deve se chatear às vezes, ao ler palavras bem escolhidas que junto e dedico a outras pessoas. Mas, agora parando para pensar fica fácil reparar o quão dificil é escrever sobre alguém tão perto. Não há saudades para florearem textos cheios de melancolia e nem mesmo uma convivência unicamente passada para usar nostalgia.
Eu simplesmente te tenho todos os dias, pronta para ouvir qualquer palavra que me vier à cabeça, impedindo-me de guardá-las aos poucos. Te tenho todos os dias dizendo coisas lindas pra mim, e sempre perto para eu retribuir como posso.
Vendo por esse lado, quase chego a imaginar que voce é uma melhor amiga a qual já não é mais preciso reafirmar a importância. Eu disse quase.
Afinal, não há amizade que possa ser tão boa a fim de denominar nossa relação de irmãs. E não há irmandade forte o suficiente que possa classificar nossa ligação.
Algumas vezes me pego imaginando como tudo isso pode ser possível. E nos últimos dias isso tem tomado parte dos meus pensamentos. Não brigamos com uma frequência de irmãos normais – eu bem disse que ultrapassamos a irmandade humanamente possível -, mas cada desentendimento, por menor que seja, é suficiente para me colocar em questionamentos.
Fico me perguntando como é possível alguém tão azedinho fazer com que meus dias sejam tão doces, e como alguém em surtos de extrema grosseria consegue me travar para dizer não.
Quando eu fecho a cara e fico quieta, você vem me perguntando se ainda gosto de você. Isso não passa de um pecado, você deveria aprender de uma vez por todas que, nesses momentos, te amar demais é o meu maior problema. Isso faz com que eu seja capaz de passar por cima do meu orgulho e da minha, mais íntima, vontade só pra te ver satisfeita.
Todas as vezes que você me magoa com as suas pequenas atitudes cheias de personalidade, eu tento ficar séria e te dar bronca, na tentativa de te fazer melhor. Por mais que isso possa te irritar, acredite: isso me consome. Toma meus pensamentos na tentativa de achar uma maneira de te resolver tudo.
Quando tudo parece estar desabando sobre nossas cabeças e eu desato a chorar, saiba que boa parte é por você. Por saber que por trás dessa mente criativíssima e inteligente existe um gênio forte e tão decidido que me faz parecer vulnerável a tudo.
Quando você parece ter razão minha cabeça trabalha incansavelmente tentando achar uma forma convincente de te conformar. Mas é ainda mais difícil pra mim quando eu simplesmente não posso te defender.
Você diz saber nessas horas que me decepciona, mas pior do que você me decepcionar é você rejeitar meu carinho. Por mais errada que você possa estar, o meu primeiro extinto será te acalmar.
E eu me pego tentando entender como nesses momentos eu consigo ser capaz de pedir perdão por algo que não fiz só pra te deixar por cima, desde que isso te faça bem. Corro atrás de você e me ponho no chão, só pra te mostrar que não está sozinha.
Mas a pergunta que mais me deixa sem resposta é sempre a mesma: como pode ser possível alguém me irritar, magoar e afetar tanto sem fazer com que eu, nem mesmo pense em hesitar no amor que sinto?
Jé pensei em muitas explicações mas apenas uma parece preencher todas
as lacunas: Quando você ainda mal sabia como era viver nesse mundo, a mamãe decidiu que não seria justo e sim bem triste te fazer filha única. Pra te dar uma companhia, eu nasci três anos e três meses depois de você.
Instinto materno é algo forte, naquele dia eu aposto que a mamãe sabia que você não havia ganhado apenas uma companhia e sim alguém com muitas falhas, mas com o coração grande o suficiente pra te amar o quanto fosse possível e viver por você. E não foi por acaso.
Falar sobre boas companhias e pessoas agradáveis é extremamente fácil quando tudo corre perfeitamente bem. Mas com você é diferente. A parte ruim também me faz calcular a dimensão do amor, e o quanto ele é inigualável, imensurável, incondicional e infinito.
Vinte anos após você ter nascido eu te digo: não foi você que me ganhou de presente. E sim eu, que tive a chance de viver por você. A única pessoa que consegue ter sua beleza até mesmo quando só os defeitos estão aparentes para o resto do mundo.
Eu entendo que tudo tem sido complicado, aliás ninguém disse que seria fácil. Desculpa por o mundo ser tão difícil, mas tente entender que é preciso mudar. Se for tão doloroso assim, ao menos tente por mim.
Não há o que me possa fazer voltar atrás de toda a dedicação por você. Estou do seu lado e faço o que for preciso pra te trazer um sorriso.
Eu nunca disse isso com tanta certeza, e isso talvez nem seria possível. Todo o amor é pra sempre, pequena, e nada pode mudar.