Tédio

Quem é normal morre de tédio. No caos alucinado em que a vida nos engole antes que o dia amanheça, vive mais quem se esgueira, entre passos trêbados de dança, por cada um dos dedos. Como quem desliza, não sem se deixar prender fios do cabelo. Em meio à tanta mediocridade, só quem vive o coração ao extremo é capaz de respirar fundo após dois dias cinzas seguidos, fechar os olhos, e sentir uma felicidade incabível em palavras. Quem não sente, morre de tédio. Mesmo sem nunca ter amado, já sabia o que era o amor. Poesia não precisa fazer sentido. Quem não ama, morre de tédio.

Ligação

Originalmente publicado em 20 de agosto de 2010.

Abri a boca para falar minhas primeiras palavras naquela manhã comum, sem emoção. E o bolor de um dia-a-dia tão cinza me paralisou por excesso de palavras. Eram tantas conjugações verbais, flexões de gênero e coletivos, que o português aprimorado por anos de estudo e leitura soaram como um estrangeiro desmedido. Tentei seguir as normas e de repente me vi presa a outra, a norma da Língua Portuguesa.
E eu não consigo parar de ver metáforas, afinal foi tudo realmente ordenado. Os verbos que, gramaticalmente, não representam nem efetuam ações são exatamente aqueles que tem feito tudo parecer virado ao contrário. E só por isso já utilizei inúmeros transitores de estados. As dúvidas ultrapassam o uso de acentos em ditongos abertos, e nem mesmo o dicionário consegue achar significados coerentes para cada raio de luz de nome desconhecido. As análises sintáticas não encontram o complemento nominal e eu nem insisto que o sujeito seja, por enquanto, oculto. Nada impede de ser inexistente ou simples. Simples.
Quando eu imagino que os domingos de tédio chegaram ao fim, vejo que os feriados prolongados são ilusórios e a voz reflexiva insiste em ecoar que eu pratiquei e recebi, sozinha, a ação de enganar-me. Ou mesmo quando eu penso ter encontrado um sentido pelo qual quero e preciso seguir, encontro a bifurcação da sinonímia: duas coisas podem ter o mesmo, ou aproximado, significado.
Depois que o eufemismo chega ao fim, eu percebo os erros e os fracassos. Entendo que até o que antes foi neologismo, hoje pode fazer parte da classe de palavras. Mas pior ainda é aceitar aquilo que cai em desuso. Vossa mercê ficaria melhor ainda se tivesse um grupo “gue” ou “gui” pra acrescentar trema. Só para não abrir mão daquilo que fez sentido, pelo medo do novo, de novo.
A Gramática não é a única desnecessariamente complicada, cheia de regras desfeitas sem piedade nos acordos ortográficos, verbos com inúmeras conjugações e contradições. Desde os verbos de ação, até aqueles de predicados nominais: nenhum até hoje me pareceu simples e com manual de instruções. Não há figura de linguagem capaz de impedir que eu me perca e me sinta passada para trás, por todas aquelas regras que eu mal sei quem dita. Não há tradutor de intenções, e principalmente quem saiba o que está fazendo.
Eu também não sei nada disso. Mas sou constantemente tomada pela consciência de que preciso rascunhar e apagar o quanto for preciso. Já que uma folha sem palavras pode significar uma imensidão de palavras em potencial, ou fazer a vez de uma única: vazio. 
Estar, permanecer, ficar, ser.

Cidade fantasma

Ao piscar os olhos, a vista marejada esforçou-se para focalizar as mãos espalmadas sobre o colo. Elas abriram e fecharam duas vezes, em um tipo de teste de reflexo vitalício. Então, foram levadas ao rosto no primeiro momento em que a percepção desviou-se das linhas da palma das mãos, permitindo acordar para um sentido menos motriz e ainda mais vivo.
As mãos correram para as duas laterais salientes do rosto e constataram que a pele fina estava levemente áspera, iniciando um processo descamativo. O que levou as mãos às bochechas foi justamente o fato de que elas ardiam, e provavelmente estavam rosadas. O espelho na parede comprovou que as maçãs do rosto não poderiam ser melhores denominadas. Os tons variavam discretamente quando observados de longe, mas apresentavam traços em borrões que, de perto, deixavam longe a ideia de que os tons rosáceos mudavam em nuances discretos. Seguindo os nervos do rosto, a pele próxima à boca e abaixo dos olhos continuava branca, quase pálida, mostrando alguns pequenos vasinhos e poros levemente obstruídos. Mas, na faixa em forma de meia lua, contornando o maxilar, a pele ainda mais rúbea parecia crestada por um dia de sol intenso.

Os dedos indicadores e médios brincaram em forma de círculos pela vermelhidão na pele ressecada e chegaram juntos aos lábios. Cortado do lado esquerdo, o lábio inferior ainda continha resquícios da manteiga de cacau, a possível responsável pelo toque macio, disfarçando os pequenos machucados, das peles salientes que foram arrancadas com os dentes da frente. A temperatura em estado quase febril aumentava se os dedos tocassem o limite delicado entre os lábios e as partes internas da boca, já em contato com a saliva.
O dedo indicador direito passou pelos lábios, contornando a delicada curvatura que divide os dois lados do lábio, acompanhando a simetria pretendida pela natureza, em sua individual assimetria. Subiu pelo septo e, então, passou direito até o osso entre as sobrancelhas. Fez o caminho de volta, numa pequena montanha-russa, diminuindo a velocidade ao passar pelo osso saltado, em que os óculos apoiam-se, desde os quatro anos de idade.
O contato com a pele do terceiro olho, na altura do sexto chakra, revelou os pelos claros, como os do rosto todo, mas maiores e levemente mais grossos, como candidatos que não conseguiram chegar até as sobrancelhas. Deslizando pela sobrancelha esquerda, dois dedos da mão direita chegaram à delicada cicatriz na têmpora, fechada com a ação do tempo, conquistada cedo demais para levar pontos.

Caminhando pelas têmporas, passando acima das sobrancelhas, os dedos indicadores foram até o extremo superior do rosto e voltaram devagar, sentindo o calor brando em relação às bochechas. A pele quase uniforme da testa guarda pequenas bolinhas e leves marcas da oleosidade que obstruiu os poros anos atrás. A estreita área no osso frontal do crânio garante a característica familiar em que após três dedos de testa, o couro cabeludo toma conta em grande quantidade e volume.
As mãos, então, abriram-se espalmadas, novamente. Próximas ao rosto, na altura dos olhos. Cada um dos dedos se mexeu, em ordem ritmada, fingindo saber tocar acordes num piano de calda. Foi quando os dedos alvos, com as pontas em tons coral aproximaram-se ainda mais. As digitais apresentaram seus detalhes. Já não foi mais possível focalizar e rápidas sombras anunciaram a escuridão.
Em frente ao espelho, com as duas mãos cobrindo os olhos, a escuridão nunca foi tão clara. Sentir-se à beira do precipício é sentir o sangue correndo apressado, os músculos contraídos no impulso de fugir pelo mundo. Às vezes o paraíso é uma cidade fantasma.

Ensaio sobre o sono

Eu acabara de deitar na cama, sentindo o espaço vazio entre o fim das meias e o punho das calças acostumando-se com o gelado do edredom. Posso jurar que mal tinha acabado de pegar no sono quando o som estridente recordou-me o que relutei a aceitar com bom humor: sete horas passaram-se enquanto eu estive no que, para o meu organismo preguiçoso, não passou de um ensaio sobre o sono. Não que eu seja uma pessoa amargurada que vê tons de cinza numa manhã precipitando um céu aberto. Apenas vivo num ciclo em que acordar, automaticamente, significa calcular cada um-minuto-qualquer-que-seja para cochilar durante o dia.
A consciência trôpega, que sempre me faz derrubar algum objeto ou chutar a ponta do tapete da sala nos primeiros minutos da manhã, despertou apressada quando recebeu o sinal de que aquela coisa laranja no meu prato era mamão. Odeio mamão. Gelado, com mel e aveia. Rápido, engole, depressa, argh, acabou. Já eram sete, e eu saí de casa.
Vaguei durante as nove estações de metrô que separam as imediações da minha casa até a faculdade, como quem dorme em pé ou caminha deitado. A relação é quase análoga quando o vagão do metrô parece uma cápsula sonífera, onde pessoas posicionam-se acompanhando os movimentos de parada e partida. Estaríamos todos confortavelmente deitados esperando nosso ponto de chegada, não fossem os noventa graus que, por um deslize, nos forçaram a ficar em pé.
Caminhei rápido até o novecentos, sem pressa, apenas acompanhando o fluxo de pessoas. E num espaço de tempo curto para processar, já estava completamente desperta, anotando palavras entre moeda, inflação e empréstimo. Entre vírgulas e pingos do “i” colocados fora do lugar, na afobação em escrever as melhores partes do discurso, alternei entre um pouco mais de sono e dinamismo. Meu organismo trabalha num processo matutino de sabotagem. Buscando os minutos perfeitos para um cochilo, pareço intercalar entre presteza e torpor.
Na volta, caminhei com pressa. A pressa era fome, animada pela certeza que não encontraria mamão no prato do almoço. Nove estações, um trem e um ônibus depois, sentei na mesma cadeira em que tomei o café da manhã, metodicamente programada. Então, mais rápido do que eu gostaria que fosse, entrei na última sala do corredor do terceiro andar, onde o telefone já me esperava tocando. Trabalhar torna-se um pouco mais fácil quando crianças de trancinhas e cabelos separados referem-se a você como “tia”, enquanto é mais difícil evitar que elas encostem os dedos curiosos na lente da câmera fotográfica do que realmente fotografá-las em boas poses. Duas xícaras de chá silvestre, quatro e-mails, cento e vinte jornais impressos e eu estava voltando para casa.
Tão logo realizei o que o dia ainda me cobrava, o banho quente lembrou-me que cada um-minuto-qualquer-que-seja não usado para cochilar durante o dia estavam batendo na porta de casa, esperando, então, que fossem solicitamente usados durante a noite. Eu acabara de deitar na cama, sentindo o espaço vazio entre o fim das meias e o punho das calças acostumando-se com o gelado do edredom. Posso jurar que mal tinha acabado de pegar no sono quando o som estridente recordou-me o que relutei a aceitar com bom humor: sete horas passaram-se enquanto eu estive no que, para o meu organismo preguiçoso, não passou de um ensaio sobre o sono.

Cidade da chuva

Eu não teria apostado uma só moeda se me pedissem para palpitar se haveria um segundo dia. Se você visse minha cara de quem incendeia por incendiar e lesse meus pensamentos de quem ouve por ouvir, não apostaria trocado algum que eu atravessaria a fronteira com apenas uma bagagem de mão.
Mal posso explicar como parei nessa cidade acalorada, e onde eu aprendi a falar essa língua bonita, que espalha frases demoradas. Tão naturais quanto os olhares de estranhamento que as pessoas disparam em minha direção, enquanto simplesmente atravesso a rua vasculhando a bolsa atrás das minhas chaves de casa.
Não sei quantos dias minhas moedas ainda serão suficientes para pagar a estadia. Mas, exatamente por não ter apostado que gostaria tanto daqui, tenho algumas de sobra. Também ouvi cochicharem que o banco está flexível. Sei que um carimbo verde vai colorir a minha folha de requerimento. Posso pagar com tempo e calmaria.

Esqueci de pedir o mapa de turistas e erro algumas ruas para voltar para a casa quando saio a noite. E ainda assim eu gosto de tentar. Gosto de sentir o vento quase-gelado-e-ainda-quente do entardecer, sem a preocupação de arrumar os cabelos ao vento. Pelo contrário. Tenho andado com naturalidade, e de tão despreocupada e à vontade, ouvi dizer estar melhor. Melhor. Maior.

Abri as janelas para uma cidade hospitaleira. E no horizonte vejo o caos urbano que deixei pra trás. Apressado em cumprir os horários, em tomar o café da manhã plastificado e ser tão bonito quanto um manequim. Que deixa o coração em casa e esquece de ordenar que os olhos escondam a sinceridade de quem tem medo de seguir o que gosta.

Entrei no terceiro trem e saí de férias.

Cinco

As figuras atrás das janelas mudando vertiginosamente rápido e os degraus demorados, que levam à sala com tacos de madeira. Alguns barulhentos e gastos, mas nunca soltos.
Acabei por me tornar tudo que nunca imaginei, exatamente por, sem querer, julgar impossível. O sonho desmoralizado pela realidade, que apressa a vontade de tudo terminar. Por terminar, não por realizar.
Não me orgulho disso, pelo contrário. Esmagada pelos dias apertados e a eterna falta de tempo, ou do que pensar. Não saberia dizer que me tornaria esse meio-amargo, estarrecido pelos deveres, frustrado pelas vontades.

Como quem está num furacão e, por um instante, só consegue acreditar que não será possível sobreviver, no seguinte momento a vida ainda batendo no peito parece elucidar que há muito o que fazer.
E então, a realização do sonho frustrado, visto de longe, iluminado pelas luzes alaranjadas, transforma-se, sim, num sonho realizado mas, de alguma maneira tomado por consciência de realidade.
O sonho de uma criança que sem referências específicas não sabia por onde começar é agraciado pelas primeiras palavras reconhecidas. E o rabisco na capa de um livro lembra que posso odiar completamente tudo o que faço, extamente por amar e me reconhecer em cada pedaço, gota por gota, letra por letra.

Pó instantâneo

Dormi e acordei sabendo ler e escrever. A primeira rasa lembrança de como me tornei alfabetizada é justamente essa. Como se eu tivesse dormido incapaz de reconhecer os códigos e simplesmente acordara lendo placas pelas ruas. Não estou fazendo do processo de aprendizagem uma ação diminuta, pelo contrário. A magia em escrever meu próprio nome entendendo as sílabas, e não mais apenas numa repetição de símbolos estranhos que disseram que compunha o meu nome, simplesmente fez com que a alfabetização parecesse um pó instantâne,o ingerido no café da manhã, mais saboroso que o achocolatado.

Deixei de colorir as palavras monossilábicas da cartilha “Caminho Suave” e comecei a rabiscá-la de vermelho, brincando de professora, como quem pensa saber o suficiente para corrigir o erro de outras pessoas. Logo minha mãe pediu-me para ler em voz alta um livrinho quadrado, de capa marrom, com a história de um macaco e suas bananas. Achei que ali estava comprovado que eu sabia ler e escrever completamente. Demorei pouco a descobrir que, na verdade, eu ainda não sabia nada.

Em todos os momentos eu queria ler para as pessoas o letreiro do ônibus, o folheto de propaganda, o gibi e os preços no supermercado. O entusiasmo em reconhecer os símbolos sem ter que processar a ação de lê-los, não demorou a fazer-me uma criança que falava muito, e muito rápido. O excesso de palavras fluindo com mais velocidade do que era realmente possível processar, aliado à pressa absurda em expressá-las, deu-me, aos seis anos de idade, uma leve gagueira.

Consegui falar normalmente após os inúmeros conselhos para respirar fundo e pronunciar palavras com mais calma, e tornei-me uma das melhores leitoras de textos da turma da terceira série. No Natal desse mesmo ano ganhei de presente do meu pai o livro “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, com a justificativa de ser um dos livros mais famosos no mundo, feito para crianças. Alisando a capa branca, colorida e reluzente, comecei a lê-lo no dia seguinte, e parei logo após. Não porque o havia terminado, e sim porque não entendia o sentido de uma jiboia engolir um elefante e tudo isso parecer ser, simultaneamente, um simples chapéu.

Abandonei-o na prateleira e continuei a leitura dos livros de Manuel Bandeira e Cecília Meireles, tendo a aula de produção de texto como a preferida, sempre me excedendo na quantidade de páginas do caderno brochura. Poucos anos depois me encantei com bibliotecas e a cada semana emprestava um livro. Aos treze, resolvi retomar o “O Pequeno Príncipe” e parei de lê-lo logo após, mas dessa vez porque havia terminado a leitura. As metáforas pareceram-me tão claras que me senti preguiçosa por não ter insistido na leitura na primeira vez.

Contudo, quando conheci Guimarães Rosa, e a sua “A terceira margem do rio”, entendi o que era subjetividade. Ou não. Mas, foi o primeiro momento em que não tentei entender, e deixei-me levar por tudo o que senti. E senti que a Língua Portuguesa era a mediadora de tudo aquilo que ela própria era incapaz de representar. Os momentos em que neologismos são insuficientes, sem metáforas amenizadoras e sem tradutor de sentidos.

Assim como o processo de aprendizagem, falta na minha memória a imagem do dia exato em que escolhi fazer das palavras o meu objeto de trabalho. Parece-me como se elas tivessem me escolhido e eu aceitado de bom grado. Apesar de exercitar o que sempre me serviu como válvula de escape, a escrita coloca-me diariamente como se eu não fosse o suficiente para ela. E talvez eu não seja. Mas sou constantemente tomada pela consciência de que posso rascunhar e apagar o quanto for preciso. Descobrindo aos poucos, que na verdade eu ainda não sei nada.

Szívem

Não sei como é possível cair, cair, cair e ainda assim observar as imagens vagarosamente nesse poço marrom, cheio de gavetas. Algo como Alice no País das Maravilhas que sente tédio numa queda que, curiosamente, custou a terminar.

Depois que passa a gente realmente pergunta se custou tanto assim. E vendo por esse aspecto, eu poderia estar numa grande subida, bastam cento e oitenta graus para qualquer um dos lados. Descida ou subida, enfim, cada pedaço desse percurso foi arrastado e cravado no papel, como um giz de cera forçado contra a superfície, soltando lascas e despedaçando a cada letra a mais escrita.

Três dias. Três fases. Comecei nessa história toda muito ansiosa e pouco orientada, caindo cada vez mais na contradição de não querer encarar o dia e ao mesmo tempo desejar passar por ele três vezes. Quando lembrei de não criar expectativas eu já havia mergulhado de cabeça, depositando a responsabilidade de um dia feliz na proporção direta com a proximidade de dois corpos.

Envelhecer, digo, passar os anos é algo fácil, escorregadio e perigoso. Quando menos se espera lá está de novo a montanha russa te chacoalhando para todos os lados, transtornando – e não menos transformando – o que termina com um simples soprar de velas.

Maldita falsa expressão de quem pouco espera e, na verdade, dedica cada centímetro da existência para um momento de reconhecimento e realização. Dois toques no celular, um mimo como presente ou um drink colorido. Quem sabe algumas três palavras bonitas e “não, que isso, sei onde estou pisando”.

Colapso da não-programação mal programada. Quem não envia convites obviamente fica sem convidados. Mas, eu fui. Se eu não fizer por mim, quem é que vai fazer?

Somente as selecionadas do carro, as que nunca escolhi no cd, que simplesmente tocavam antes da locutora falar sobre o dólar no dia clareando aos poucos. As músicas que sem querer falam muito mais do que já fomos capazes. E que talvez só falem por mim. A ansiedade desmerecida e a confiança rara, a traição de acreditar estar tudo certo justamente quando blocos de gelo descem rolando pelas escadas.

O desespero do amanhã, as tardes vazias e as noites desencontradas. Perdi o caminho de casa e sabia que precisava voltar. Quis guardar tudo num pote de vidro, ao lado do doce de leite mas tudo o que pude fazer foi decorar os gestos, o carregar da mochila, o timbre e o tchau. Era preciso começar, recomeçar, ou começar. Mas eu não queria, se eu não quero quem é que vai fazer por mim? Dia de nascer é também dia de inexistir.

Acordei com a sensação de roupa fresca com amaciante. O despertar tranquilo de um coração apertado. A tristeza também é bonita, justamente pelo acalmar narcotizante. Esqueci de esperar alguma coisa.

Quando pequena, esse momento sempre entrava na fila dos melhores do ano. Se eu tivesse conseguido usar um diário durante um ano inteiro, essa página certamente seria coberta de corações. Bastava enrolar os docinhos, tomar banho às quatro da tarde e esperar, sentada, usando algum vestido bonito. E tudo infelizmente terminava com o desembrulhar dos presentes, que ficavam semanas espalhados pelo quarto.

Além dos doces, restava-me a refeição completa. A simples lembrança do ritual que sempre me fez tão feliz foi amenizadora. Afinal, não estava somente eu naquele mundo.

Na realidade, é injusto deixar nas mãos, de quem nem sabe ser responsável, o que se espera pra um dia ou para uma vida. Vida. Justamente esse suspiro de existência pode ser o suficiente desde que seja grato. Gratidão, também reconfortante com um punhadinho de boas amizades.

Sentir cada pedaço desse fervilhão me fez esquecer que nessa queda (ou subida?) uma gaveta esperava aberta para ser preenchida. Sem ter preparado qualquer tipo de discurso ou objetos coloridos para trancar dentro da gaveta e abrir no ano que vem. E justamente por isso, cada sopro de desejo foi o mais sincero e visceral possível.

Um dia após o outro, e tudo parecia ter sentido novamente. O carinho dos pequenos detalhes, o conversar tranquilo. O despertar vagaroso de quem já não espera muito e busca em cada pedaço de sol um passo além do que já foi. O silêncio compartilhado e a falação descontrolada. Bastou-me aprender a perceber quem está junto e que insistir nem sempre é a solução.

Uma flor de papel amassada, uma caixa toda escrita e o fluxo acelerado na rua. Uma pedra tão grande e maciça fica tão pequena e destrutível quando é colocada frente a um vulcão, um mundo de tantos acontecimentos que mal começaram a, simplesmente, acontecer.

 Você é feliz? O que você está fazendo pelo o seu futuro? Quem você admira? A genialidade de quem é julgado como pouco, como invisível e, na verdade, é muito mais, muito maior do que qualquer terno apressado que passa pelas ruas perpendiculares pensando em número e em negócios. E quem sou eu pra reclamar? E quem sou eu pra duvidar do que a vida tem pra me trazer? Eu não sou ninguém. E eu quero mais é que a vida venha, venha com tudo. Que satisfaça a minha sede ao mesmo tempo que me deixe louca por mais um copo. E que me lambuze com cada parte boa e ruim, pois só assim abrimos os olhos e percebemos que realmente, nunca vamos entender nada, absolutamente nada do que estamos fazendo aqui. E continuemos, nos perdendo e nos encontrando a cada esquina dobrada, a cada vez que olhar pro céu e pensar que sim, a vida está lá fora.

Três dias que renderiam um livro sobre o aumentar em metros de uma pequena existência. Sincera e visceral.

Vinte e seis

Eu mal me aguentava de ansiedade nas coxias. Andava descalça pra lá e pra cá naquele chão frio e empoeirado, não conseguia ficar parada um minuto sequer naquele dia que estava sendo o segundo do conjunto dos três melhores.
A manhã começara me distraindo com algo entre física e geografia, num ar condicionado gelado que ardia os olhos de quem havia desacostumado a acordar tão cedo. O calor da hora do almoço triplicou dentro do carro parado no minhocão. O trânsito ia me atrasar e eu não podia. Salva por alguns minutos, cheguei a tempo de um grande abraço e palavras boas. Mergulhos na ressonância e eu já dava braçadas de encantamento. Quis sair rabiscando as paredes da casa toda mas, de novo, eu precisava correr.
De frente pro espelho do banheiro-camarim eu arriscava os passos que tinha de cor mesmo sabendo que algum faltaria no momento certo. Uma sombra preta atrapalhada, barulho de todos instrumentos sendo tocados ao mesmo tempo e pedidos inúteis de silêncio, eu não era a única ansiosa.
Pessoas mais atrasadas do que eu, vozes trêmulas e velas que não paravam acesas. Planos de uma sexta a noite que mal começava e passos animados no canto do palco prontos pro acorde combinado. Entrei, dancei, errei e não pude enxergar nada além de um palmo à frente e luz me ofuscando a vista. Estaremos juntos no ano que vem, abraços e o choro que não saiu.
Pela última vez no dia eu estava atrasada. Ainda deveria comer a pizza o mais rápido possível e mostrar que eu podia. Foi quando me lembrei que mal tinha pensado em tudo o que deveria ser feito, nem mesmo numa roupa poderosa ou um drink desencanado pra segurar na mão desatenta. Mas a imagem, no meio da pista, a minha mente estava decorando com esmero.
A pizza tardou a chegar e eu me vi desviando o plano perfeito. Poucos caracteres num pedido de desculpas e me vi esperando algo maior – que, na verdade, resume-se numa desimportância quase extrema. Você cogitou o vestido amarelo e acabou no casaco azul bebê. Eu fui de couro.
Conhecia aquela rua, mas não imaginava qual era quando li o endereço. A casa transbordava de gente, o portão estava aberto mas eu liguei antes de entrar. A sala de estar não estava menos abarrotada. O sofá arrastado, o tapete amarrotado e a mesa vazia. Todos os objetos deviam estar trancados dentro dos armários para evitar maiores problemas. Mas a medida de prejuízo foi pouca.
Ganhei um copo de plástico e reconheci os convidados na cozinha em meio a outros que já passaram do ponto. Dali eu podia ver, pela janela, o quintal, com tantos outros rostos que eu mal começara a decorar os nomes. Um rodo limpando o chão, e você batendo a cabeça na geladeira. Nos sentamos no aparador da sala de jantar, de frente para a mesa com sacos de salgadinho rasgados. Algumas palavras insistentes, convidados de uma festa de debutante e em dois flashes havia alguém em cima da mesa, gritando que a festa havia acabado. Gritou, apenas. A festa custou terminar.
Em pé na sala de estar conversávamos floridamente sobre coisas floridas. Algo entre os porta-retratos ao lado da televisão e os autênticos documentos de identidade que justificavam os copos nas nossas mãos. Apenas cinco sirenes de polícia depois alguém gritou que apenas os convidados deveriam permanecer na casa. Ou seja, a rua automaticamente sofreu com a superlotação de pessoas evitáveis, inevitáveis, substituíveis e insuportáveis.
Subimos a rua, nós três, para chegar ao táxi. Pessoas, que de tão conhecidas se tornaram todas iguais, fizeram piadas que voltamos para ouvir. Roupas de mulher, conversas virtuais, feriado, quinze dias atrás. Juntei as informações e entrei no táxi, aliás, um dos poucos legados sobreviventes daquela época. Tão logo cheguei em casa já me esqueci de tudo.
Mal lembro o que comentamos depois de tudo o que passou, aliás, se comentamos alguma coisa depois. Exatamente por não imaginar o que viria depois minha memória exclui os maiores detalhes. O caos de um dia que haveria de ser completamente diferente do que foi, refletido no que não esperávamos que fosse hoje. E agora você segura naquela mão e eu, mal me aguentando de ansiedade na coxia, espero pela próxima cena.

Maracujá

Foi numa dessas mordidas geladas que doem os dentes de baixo que pensei: poucas coisas na vida me lambuzam como um picolé natural de maracujá. Azedo o suficiente pra não melar os dentes de açúcar e doce o bastante pra não fazer careta feia.

Descobri que gosto da vida-maracujá. Aquela que me dá sede pra beber uns dois copos de água trincando de tão gelada e deixa ferver qualquer temperatura ambiente. Sobrando apenas o palito melecado que arrepia só de imaginá-lo raspando, de novo, nos dentes de baixo. São os amores-maracujá que não precisam de corante algum. São amarelíssimos só por existirem. E me mostram cada uma das sementes que estalam nas mordidas. Cleck.

Poucas coisas me são tanto na vida quanto um picolé de maracujá. Não tem meio termo e quem gosta adora. Não adianta colocar açúcar e dá pra percebê-lo de longe. Eu no palito.