A roupa nova que você espera ser única na noite, o perfume incrível que você quer que alguém sinta, a maquiagem leve que demorou quarenta minutos pra ser feita com mais de dez tipos de produtos, o cabelo despenteado que custou a fixar, os pertences que não cabiam na bolsa, a espera pelo táxi. Ou quem sabe a camiseta pra dar sorte, o banho rápido de meia hora, a barba por fazer nada despretensiosa, as poucas trocas de expectativa, o falso coração vazio e a fila no valet.
No fim, todo mundo precisa segurar um copo pra ter o que fazer com as mãos. Como se o copo fosse capaz de sustentar todas as expectativas e frustrações de uma madrugada. Talvez pudesse se ficasse sempre cheio. Mas a gente bebe. Bebe pra esquecer, para fingir que esqueceu, para tentar esquecer e no fim mandar uma mensagem desconexa cheia de saudades. Ou para sorrir para o gringo que está sozinho no bar, para dançar daquele jeito que a moça de calça de cintura alta está dançando e você acha incrível. Bebemos para comemorar, para celebrar sabe-se lá o que porque no fim todo mundo esquece. Mas, principalmente a gente bebe para tentar enganar que quer realmente estar ali e que nem liga para ressaca do dia seguinte.
Sempre haverá aquele cara incrível que se veste bem e você nunca vai descobrir se é gay e nem nunca vai falar com ele porque ele é incrível demais pra isso. Ou aquela menina impecável com o cabelo que parece ser mesmo natural, assim como todo o resto. Daquele tipo de gente que inspira ter caído sem querer na festa e mesmo assim sabe lidar com tudo. Nunca vamos deixar de achar que tudo dá certo para ela, da conta bancária ao cargo no emprego, e que o sorriso despreocupado é o segredo de tudo. Sempre vamos ter que aguentar o cara chato que não se toca, a menina que quer dançar ocupando toda a pista e aquela louca que não lembra onde foi parar o celular.
E nós nos empenhamos. Sofremos para sermos atendidos no bar, fazemos melhores amizades dentro do banheiro e tentamos mostrar para todo mundo que aquilo lá não é nada perto do que vivemos lá fora. A gente sente a música, mas a gente dança para mostrar que está sentindo.
Todo mundo treinou na frente do espelho para tentar ser natural. Todo mundo achou que fingir ser despreocupado seria natural. E todo mundo pensou fingir que não havia problemas. Mas a festa acaba e você volta para onde esteve. Porque, no fundo, o que todo mundo quer é alguém para, no dia seguinte, assistir a um filme em casa.
(Texto publicado na Revista Offline N°. 30
http://www.offline.com.br/wp-content/uploads/2012/05/OFFLINE30_Book_BAIXA.pdf)