23h59

Quando bate a luz azul na pista, ao som daquela música anos noventa que você amava, mas ficou anos sem ouvir, toda repaginada num remix bacana, você olha para os lados e vê todo mundo dançando de olhos fechados, balançando a cabeça no ritmo. Mal dá para lembrar a grande verdade, você esquece o quanto as pessoas enganam bem.
A roupa nova que você espera ser única na noite, o perfume incrível que você quer que alguém sinta, a maquiagem leve que demorou quarenta minutos pra ser feita com mais de dez tipos de produtos, o cabelo despenteado que custou a fixar, os pertences que não cabiam na bolsa, a espera pelo táxi. Ou quem sabe a camiseta pra dar sorte, o banho rápido de meia hora, a barba por fazer nada despretensiosa, as poucas trocas de expectativa, o falso coração vazio e a fila no valet.
No fim, todo mundo precisa segurar um copo pra ter o que fazer com as mãos. Como se o copo fosse capaz de sustentar todas as expectativas e frustrações de uma madrugada. Talvez pudesse se ficasse sempre cheio. Mas a gente bebe. Bebe pra esquecer, para fingir que esqueceu, para tentar esquecer e no fim mandar uma mensagem desconexa cheia de saudades. Ou para sorrir para o gringo que está sozinho no bar, para dançar daquele jeito que a moça de calça de cintura alta está dançando e você acha incrível. Bebemos para comemorar, para celebrar sabe-se lá o que porque no fim todo mundo esquece. Mas, principalmente a gente bebe para tentar enganar que quer realmente estar ali e que nem liga para ressaca do dia seguinte.
Sempre haverá aquele cara incrível que se veste bem e você nunca vai descobrir se é gay e nem nunca vai falar com ele porque ele é incrível demais pra isso. Ou aquela menina impecável com o cabelo que parece ser mesmo natural, assim como todo o resto. Daquele tipo de gente que inspira ter caído sem querer na festa e mesmo assim sabe lidar com tudo. Nunca vamos deixar de achar que tudo dá certo para ela, da conta bancária ao cargo no emprego, e que o sorriso despreocupado é o segredo de tudo. Sempre vamos ter que aguentar o cara chato que não se toca, a menina que quer dançar ocupando toda a pista e aquela louca que não lembra onde foi parar o celular.
E nós nos empenhamos. Sofremos para sermos atendidos no bar, fazemos melhores amizades dentro do banheiro e tentamos mostrar para todo mundo que aquilo lá não é nada perto do que vivemos lá fora. A gente sente a música, mas a gente dança para mostrar que está sentindo.
Todo mundo treinou na frente do espelho para tentar ser natural. Todo mundo achou que fingir ser despreocupado seria natural. E todo mundo pensou fingir que não havia problemas. Mas a festa acaba e você volta para onde esteve. Porque, no fundo, o que todo mundo quer é alguém para, no dia seguinte, assistir a um filme em casa.

(Texto publicado na Revista Offline N°. 30
http://www.offline.com.br/wp-content/uploads/2012/05/OFFLINE30_Book_BAIXA.pdf)

Quem inventou o amor?

Após os extensos dias de otimismo, daqueles em que eu paro para pensar no que me levou até ali, para tentar memorizar a receita e repetir quando ficasse difícil de novo. Após conversar e pensar sobre longos temas acerca do amor, dos términos e das reviravoltas a qual somos impostos, percebi que tenho medo. Que na verdade eu morro de medo de não saber o que fazer e me achar fraca demais pra isso tudo.

Dessa vez usei, sem querer, a tática da antecipação. Já me preparei aos poucos e vivi pequenos pedaços de precipício pra tentar amenizar essa queda tão devastadora e tão inevitável. Esqueci de pensar nisso tudo por alguns dias, mas quando lembrei passei a tomar as injeções junto ao café da manhã, vendo ligação em tudo, enxergando bom gosto, os agrados e as manias em tudo, o tempo todo.

Lembrei da última vez, que já parecia muito ser a última, em que decorei cada segundo para nunca esquecer. Como se eu fosse capaz… Não preciso de nenhum grande esforço de memória para ter meus dedos contornando o maxilar, a boca pequena e o contato com a barba. Não preciso de nada para sentir a respiração em meu ouvido ou rir pelo canto da boca com a risada nervosa enquanto me segura pela cintura. Posso descrever com cores e detalhes cada uma das fases e dos encontros, vendo cada vez mais sentido e admiração em cada célula viva dessa existência.

Por tanto tempo estive atrás de cada passo, esperando o vão que fosse do meu tamanho. E agora me pego na dúvida se desejo, para mim mesma, continuar sob a sombra. Mas a certeza em não querer é assustadora. Vejo-me divida entre duas razōes opostas. É como se ao desistir de tudo eu me sentisse traída, roubando de mim mesma uma das melhores partes.

Sinto orgulho de cada pequeno sentimento, como se o conjunto deles todos me tornasse uma real merecedora de tudo. Como se ninguém fosse capaz de gostar assim, tanto quanto eu. E na verdade, ninguém é. Mas, afinal, e porque é que não mereço então estar livre dessa ansiedade insustentável? Dessa esperança pífia e praticamente irreal?

A sensação é de ter que estar perto. Quando não mais existir ali, as coisas realmente mudarão. Mas se eu não quiser que elas mudem? Mas… ao negar quase que pra mim mesma esses sentimentos, já não estou cometendo o crime de me afastar?

Acredito que tomar um choque de realidade seria o melhor pra mim. Porém, ainda não quero. Ainda, já que uma hora tudo acaba e pareço estar bem perto disso. E eu odeio estar perto do fim. Primeiro porque quando tudo realmente acabar estarei submersa em outro mundo sem expectativas. Segundo porque nunca estive tão perto. Nunca me senti tão parte e tão necessária. Nunca senti algo que me fizesse tão bem por tanto tempo. E nunca senti um amor tão intenso.

Aliás, se isso não for amor não deve passar de uma forte alucinação, idêntica àquela que foi sentida por quem inventou o amor.

Time cures heart

(Da série que não deveria ter data e nunca chegará ao fim)
Já era a segunda vez na semana que ela entrava na locadora de vídeos para buscar o mesmo filme. Até olhou para as outras prateleiras, mas em pouco tempo decidiu que queria ver aquele, novamente. A capa era um colorido desbotado mas não trazia nenhum desenho que chamasse a atenção, não exatamente como os hollywoodianos.
O balconista começou a comentar sobre os lançamentos que tinham acabado de chegar e ainda tinham unidades na prateleira. Apontou para os cartazes às suas costas, com aquelas luzes circulando constantemente. Carros em alta velocidade, apocalipses, histórias de amor em plena noite de natal e uma boa dose de filmes com sangue e espíritos. Mas ele a conhecia bem. Mesmo quando não era seu turno ele via no sistema que aquele filme estava locado, por ela, claro. E nunca conseguiu entender exatamente porquê a repetição.
Ele se lembra de algumas vezes em que ela optou pelo lançamento comentado do mês, ou por um clássico consagrado e cheio de traças. Porém consegue contar com poucas dezenas quantas vezes isso realmente aconteceu. “Esse, de novo?” Ele já nem tinha vergonha mais de questioná-la.
“A trilha sonora é… Tão boa!”. Ela respondeu sem se importar enquanto levantava os ombros como quem não vê outra resposta mais óbvia para dar. Ela já nem se preocupava em falar o código de matrícula ou mostrar a carteirinha de sócia – que na verdade nem sabia aonde tinha ido parar. Enquanto ele registrava o filme ela esperava ansiosa, batendo o pé esquerdo no chão, no mesmo ritmo do dvd que estava passando na loja. Não era falta de paciência, era o costume de quem já nem percebe os movimentos mecânicos de abrir a caixa, passar o código de barras, imprimir o comprovante, aliás, por que ele sempre circulava a data de entrega?
Ela já nem pedia mais a sacola plástica, quando colocavam o filme dentro ela tratava de tirar e levá-lo na mão. A caixinha sempre ia no banco do passageiro, ocupando com propriedade o lugar que deveria ser de alguém. O papel do encarte, meio amassado nas bordas a irritava em alguns dias. A vontade era de arrancá-lo do plástico e arremessar pela janela, talvez com a caixa junto. Deixando somente o dvd meio gasto, apoiado no veludo do banco do carro.
Algum dia o aparelho vai reproduzir o filme antes mesmo do dvd ser colocado. Até os objetos inanimados acabam por viciar nos atos repetitivos de quem insiste em compreender. Sentada com as pernas cruzadas sobre o sofá ela folheava o caderno bege, surrado, com uns rabiscos que ela mesma titubeava em entender.
Os diálogos eram os mesmos, o personagem continuava naquela jaqueta surrada. A trilha sonora era simplesmente incrível, e não havia nada de errado. Exceto pelo fim. Sempre aquele trem correndo pelos trilhos, a menina desesperada e os passageiros sem entender como alguém poderia ter chegado àquele ponto. Deixá-la sentar não poderia mudar muita coisa, mas quem sabe amenizaria o momento de dor. Ilusão.
E quando o filme começava a mostrar os créditos finais ela voltava. Revia as partes principais, em câmera lenta. Como quem tenta encontrar uma palavra sussurrada, ou um vulto ao fundo que pudesse ser subliminar. Mas o que ela entendia uma vez, nunca se repetia. A palavra que aparecia escrita nas nuvens, simplesmente sumia quando ela acionava o repeat. Nada se repetia, exceto o fim.
Sim. Ela também teve a ilustre ideia de copiar o dvd, comprá-lo ou não devolvê-lo nunca mais, pouco sentido havia nas repetidas locações que além do gasto exigia o empenho de ir até a locadora e procurá-lo nas prateleiras. Aliás, deveria haver uma pequena conspiração para que a cada mês ele mudasse de lugar. Mas ela sempre o encontrava, sem precisar perguntar aos funcionários. Talvez fosse um tipo de magnetismo, algo que a levava ao lugar exato, mesmo se vendasse os olhos.
Sim. Ela já se perguntou o porquê de alugar o mesmo filme tantas vezes ao ponto de encontrar furos, erros de continuidade e (quase) enjoar dos personagens. Mas tudo fazia mais sentindo enquanto cada incógnita aumentava. Algumas passagens eram tão simples que poderiam conter novas histórias dentro delas. Contradição demais pra filme de menos. Nem quatro horas de gravação resolveriam os problemas e clareariam as ideias.
Não era o melhor filme do mundo, o mais bem feito. Estava cheio de defeitos, e era um pouco fraco. Mas era o seu filme. Ela só precisava entender os diálogos, rever a fotografia, ouvir a trilha sonora, retroceder nos momentos decisivos, e escolher parar quando tivesse vontade. E fazer tudo novamente. Voltar ao mesmo lugar para devolvê-lo e retornar quando bem entendesse para começar de novo. E mais uma vez.
Tudo para acordar no dia seguinte sendo a mesma pessoa. E de novo, mais uma vez.

Coisas do Mundo

Eu me agarrei à minha bolsa, que não guardava nada valioso além de filmes e memórias, numa escrita insegura. Dentro do ônibus eu me sentia errada, quase com má vontade. Porém, naquele momento, eu já assumia pra mim mesma que esse era um dos meus melhores disfarces, só pra negar toda a ansiedade e desespero em cada passo que eu dava. Quando me dei conta, estava quase falando sozinha e todos ao meu redor perceberam quando eu voltei na realidade. Era hora de descer.
Em pleno verão o mundo resolveu fazer inverno. Os céus sabiam que não era dia de festa: aquele era o último momento em que eu me sentiria enorme, mesmo com 1,67 de altura. Era a última chance de ser feliz.

A última coisa que eu poderia demonstrar era fraqueza, logo eu que fugi de cada agrado, elogio ou promessa. Incrível como sem nem mesmo pensar pra isso eu já agia normalmente, falando mais que fazendo e esperando cada afeto por sua vez. Mesmo que no fundo eu quisesse fazer o mundo todo parar e me deixar ser feliz pra sempre.

Ao contrário do que dizem, o tempo não passou rápido demais. Foi devagar, e cada vez mais difícil e silencioso. Por mais que eu não tivesse coragem de carregar minhas palavras com tudo o que eu sentia, meus olhos deveriam entregar a verdade: eu já sofria. Sofria mas ficava o tempo todo em dúvida se o sentimento era merecido ou mais um dos milhares disperdiçados. O meu subconsciente me prega peças e eu quase dei razão pra cada bronca que levei.
Mas foi aí que eu lembrei que era tarde demais pra ser especial, não havia mais tempo de fazer mais parte de algo que não sei se pertenço, ou pentencia. Fiz o meu melhor, em algum lugar deve ter ficado um pedaço de mim. Numa mordida de maçã, numa música velha ou em um coração.
Apesar do sono absurdo, culpa de todo o cuidado e dedicação em escolher cada palavra que fizesse sentido (sentir), eu não dormia pensando se uma folha de papel me faria ser menos ou mais. Menos significante, menos comum, mais babaca ou mais importante.
Entreguei. Destrui todo o momento especial com palavras grossas e uma risada desesperada. Mas assim eu não iria conviver com a dúvida e a falta de certeza de que agora sim, eu fiz tudo o que eu pude.
Respirei fundo em cada contato, em cada olhar fundo. Prestei atenção na mesa posta, nos documentos, nas roupas nos cabides e em cada música no violão. Guardei como eu pude cada carinho e esforcei pra que esse subconsciente retardado guardasse a ordem cronológica detalhadamente.

Sempre chego à conclusão de que fui menos. E sou pega no arrependimento de não saber escolher as palavras e atitudes certas. Mas talvez eu deva parar de tentar mudar meu jeito de resolver as coisas. Eu sou assim. E jamais demonstraria que daquele dia em diante seria difícil. E será.

Quando entrei no elevador a pressão do mundo já parecia outra. Eu me sentia muito mais leve, muito. Mas isso é completamente distinto da sensação de alívio. Não me livrei de um problema nem de um mártir. Eu apenas já me sentia vazia.

Quebrei as regras das regras que eu já havia quebrado. Mas desde o começo, lá no fundo, eu já sabia que a cada vez que eu dizia ter certeza do que estava fazendo eu me perdia mais.
E assim fiquei. Eu nem sabia por onde começar. Passei a conferir insanamente alertas no celular e foi aí que eu toquei: acabou. Meus dias não serão mais cheios de atenção e de planos antecipados pro fim de semana. Nas sextas a noite meu rumo não será definido com duas ligações ansiosas. Eu poderia até mesmo agradecer por não ficar mais em cima do muro com cada oscilação frequente de afeto. Mas até disso eu vou sentir falta.

Estou sendo dramática de um jeito que disse não ser necessário, mas é quase engraçado de tão injusto que o destino me parece. Não pedi mais além do que eu pude dar, e mesmo assim recebi o suficiente pra completar os meus dias.
Não é à toa que eu seja forçada a me livrar de algo que me faz bem, e mesmo que eu já havia sido avisada que isso seria necessário, só me resta esperar que eu tenha sido algo também. Não sou de forçar situações e sei que jamais ocuparia o lugar de alguém mais presente e mais importante. Não há como comparar ou eliminar anos de afeto em detrimento de dois meses. Nunca tive essa ilusão.
Mas só espero que de alguma maneira sobre algo a ser lembrado, algo bem guardado. Assim como há em mim. Não consigo saber ainda o que eu farei com os meus dias e com essa minha cabeça teimosa, que insiste em pensar em você. Não me sobrou nenhum plano de ação além do de tentar ser feliz, mais uma vez.
Agora eu sei, que despedida é uma das piores coisas do mundo.

Das coisas que me fazem perder metáforas.

Incondicional e independente. Pensei que essas palavras fossem permanentemente ligadas à felicidade de quem se gosta. Quem me ensinou isso – e deve ter sido a vida -, me enganou feio.
Entendo que encontramos uma bifurcação e cada um de nós optou pelo o que o outro já viveu. Entendo, não julgo, não questiono, apenas entendo.
Depois de algum transtorno e perseguição, aprendi que é fase e naturalmente apoiei. Já guardei tudo o que houve de bom, esperando o momento de abrir caixa por caixa, gaveta por gaveta até encontrar aquelas com feixes coloridos que havia perdido.Mas nada disso significa que eu desejo que encontrem as caixas por mim. O que cabe a mim, cabe a mim e a mais ninguém.
Não há problemas em assumir egoísmo e qualquer outro erro, só não posso trair o forte sentimento de que pra ser, tem que ser meu. Essa convicção e inflexibilidade estão beirando a aceitação. E eu irei aceitar, sem maiores escândalos, demonstrações e palavras. Mas não irei concordar, felicitar, torcer e comemorar. Ainda quererei como quero; Ainda sonharei como sonho; Ainda planejarei como planejo. Tudo para que, no exato momento em que decidir ser e estar, seja meu, esteja comigo e com mais ninguém.
É o poder da madrugada, agravamento de simples pensamento, e exposição de uma única certeza: tempo, tempo de novo.

Maio

Eu me enganei. Pensei que somente a ausência refletisse na falta. Mas o excesso me trouxe um silêncio maior, e mais doloroso. Eu me enganei. Pensei que não houvesse sábado que não fosse cura, amigos que não servissem de consolo.
Com engano atrás de engano eu fui me esquecendo tanto de que você precisa viver seus outubros de sol, quanto que também pode precisar de julhos de frio. Há um ano eu revelei qual era o segredo, e somente agora você soube usá-lo, e talvez nem saiba disso. O desdenho não me é problema, congelar, duplamente, tudo o que eu poderia querer fica fácil quando não existem desequilíbrios.
O desequilíbrio me parece mais forte e verdadeiro que borboletas amarelas de Babilônia. E talvez seja o máximo que eu possa te dar. Mas se quiseres ainda tem meu calor.
O grande problema da realidade é crer tanto na crueldade e esquecer-se de fantasiá-la; É ver em tudo drama, de braços cruzados por um dia quente; O problema de querer que não existam mais domingos é perceber que as segundas-feiras são melhores que sábados.
Posso estar de olhos vendados no sol, mas isso significa que eles estão atentos no escuro: feliz é aquele ignorante que não percebe (e nem quer) nada.
Em tanta cegueira, os goles amargos que tomo só me fazem engasgar, e o descontentamento me sufoca em mais e mais silêncio. A minha falta de agradecimento transforma-se em repugnância por eu não ser corajosa o suficiente para sorrir um pouco. Eu traíria o que sou se pudesse fazer da água vinho.
Num antro pessimista e fundo já posso pensar nos outros sofrimentos que virão, nas flores feias que escolherão.
Não posso ser o que quero. Só consigo ser o que sou nessa fase ruim, nesse Maio ruim e argh.
Time cures hearts.

It’s about time

Não adianta insistir. Quando eu não quero uma coisa e acredito nessa ideia, nem mesmo uma outra ideia de que o contrário seria o melhor consegue parecer, para mim, suficientemente melhor ao ponto de passar a querer o que antes eu não queria.
Poderia ser mais simples que isso. Mas seria fingidamente prático da minha parte resolver tudo de maneira tão certeira. Por mais confusa, indecisa e contraditória que eu possa ser, no fundo sempre permanece um broto dormente que indica o que poderia ser fatal. Confortavelmente posso me excluir de toda a culpa por ser tão difícil: não estou sozinha. Talvez ajude perceber que o instinto natural do ser humano é fugir do que pode lhe fazer bem, desde que o bem esteja em completo desacordo com a vontade inconsciente. Ajuda, mas não resolve. Ter aceitado todos os conselhos e feito o completo contrário poderia me livrar do peso das minhas decisões. Mas ainda não resolveria. Inclusive poderia ser ainda pior.
E eu estava ciente de que essa responsabilidade viria a cair sobre meus ombros, eu assumi o peso por não saber ser inconsequente e precisar, a todo momento, encontrar sentido dentro de mim para o que faço. Esse mesmo sentimento de busca agora me perturba, e me faz querer tudo o que abri mão, numa simples vontade de tomar dessa água.
Talvez eu não fosse tomada pela ansiedade se te conhecesse melhor e soubesse como jogar o seu jogo. Talvez eu não fosse tomada pela angústia se te conhecesse menos, e não soubesse que você não usa jogos, e muito menos sabe usá-los.
O pacote de sementes, que encontro em todos os lugares, poderia ser útil se eu soubesse como usá-lo. Mas a ansiedade me cega, e eu já não consigo saber se estou em busca do que faria germinar, ou apenas do que faria florescer. As últimas flores brotaram coloridas, e poucas até mesmo perfumadas. Flores morrem, ficam murchas e perdem a graça. Um broto que germina está fadado a crescer, a realizar respirações continuamente e alimentar-se com fotossíntese. Mas eu não sei para qual efeito a terra está favorável.
Os feixes de luz coloridos, que antes passaram despercebidos, agora podem fazer a gema apical mudar de sentido. Tudo pode estar prestes a mudar, ou a permanecer tediosa e superficialmente igual. As flores costumam ser tão bonitas que cansam, tão perfumadas que enjoam. No meu outono talvez não haja lugar para elas. E está na hora, de fazer com que algo no jardim seja meu.

Tempo

Por muito reclamei da dúvida, e esta não há mais. Devo ter questionado os intervalos constantes nos retornos, e estes hoje são certeiros. E certamente notei a dificuldade em falar, e aqui há falta de vírgulas apenas. Questionamentos e reclamações atendidas. Não…
Afirmo com todas as letras o quanto posso me o-d-i-a-r por ser capaz de beirar pela burice. Mas sou como um soldado calejado, já aposentado, que não consegue apenas sentar no sofá e esperar tudo acontecer. Acredito, de fato, que eu mereça finalmente estar num momento certo. Mas meu subconsciente não toma essa situação como suficiente. Parece que ele quer mesmo é me assistir indo à loucura.
Estou observando você sorrindo, e dizendo uma porção de palavras coloridas. Mas enquanto elas me atravessam sem sentido, eu olho para os lados vendo quantas pessoas seriam capazes de encontrar consistência nessas tentativas, desenfreadas, de fazer alguém ser sua. Enquanto não sinto a textura, não percebo o gosto da incondicionalidade, guardo o que posso em caixas e anoto o que quase passa despercebido. Além de mim, outras tambem torcem para que isso venha à tona enquanto é tempo.
É como sentir medo, por não ter tudo sob controle. Por estar atravessando uma atmosfera nova, onde, num piscar de olhos posso ser tudo aquilo que sempre desaprovei vindo dos outros. Não podemos atropelar os minutos, não podemos praticar excesso, e a falta por outro lado. O tempo é assim. Tempo, de novo.

Aligator

Diário de férias sete.

O dia amanheceu frio, mas não demorou para esquentar com o sol. Limpando o céu, deixando à mostra os feixes azuis, que sempre me remetem aos domingos. Mas hoje ja é segunda-feira, e como a maioria delas onde a rotina volta à tona, esta não será muito diferente.
Seis dias foram mais que suficientes para me adequar ao estilo de vida, vícios de linguagem e vivacidade nas coisas simples. Tanto que me pego tentando imaginar como serão os dias a frente sem as tardes na Gabi, os jogos com colher, o excesso de refrigerante, exagero de condimentos, o céu cheio de estrelas, a tranquilidade em caminhar pela madrugada, as conversas antes de dormir… Enfim, cada um de todos que me receberam cheios de simpatia, paciência e boa vontade em me acolher por uma semana. Isso também me faz pensar que como vocês, eu não encontraria a trezentos e tantos quilômetros.
Toda despedida é triste, mas estas, em especial, são sempre um “atá logo”, sendo apenas um intervalo entre outros dias inigualáveis. Porém, entrar no onibus, colocar o cinto e acenar na janela, vendo você pra trás com seu sorrisão, mudou o clima. Para contrastar com o sol reluzindo algumas gotas cairam, molhando a base da janela.
Sei que nao demora, afinal não aceito demoras, mas tudo isso deixará saudades. Muitas saudades. See you later…

Lobato

Não poderia ser uma festa natalina, dia das mães, apresentação de ginástica rítmica ou ação de graças. E nada disso é culpa das bandeirinhas que indicavam a festividade junina. Elas funcionaram como simples adornos. O fim justificará a introdção.
Em meio a uma aglomeração de conhecidos e amáveis desconhecidos não havia como fugir sem faltar com a educação. Mas, nada que pessoas com menos educação ainda não possam cortar a conversa e salvar a falta de assunto.
Eu só não senti a sensação de um dejà-vú porque me lembro perfeitamente do cenário anterior. Porque as condições foram tão parecidas que se isso não for charme e implicância, é personalidade. O orgulho transbordando pelas listras pode te dar sensação de poder, mas pra mim te ver quase amuado esperando reação é fraqueza. Poder passa s ser merecimento de quem faz e tem a situação na palma da mão.
O raciocínio já conhecido de sair quebrando a cara para não me odiar pela manhã foi o mesmo porém, quase tardio. Quando o relógio quase quebrou eu pude perceber o quanto aquilo tudo era importante e faria sentido pra mim. Mas, como que para compensar a não-surpresa da sua presença, pude surpreender-me com a sua reaparição. Meu subconsciente está tão calejado com a teoria que automaticamente faz a contagem para o consciente criar (ou acionar) as pernas, e juntar fragmentos rápidos como as batidas cardíacas. A cena nunca muda muito. O meu excesso de palavras, sua sobra de vergonha. Mas, opa. Essa cara e essa pressa eu não conhecia. Sou eu que te mando não se atrasar!
Se eu pudesse ver a minha cara no instante seguinte ela, de fato, seria um tanto quanto interrogativa. Acho que ninguém absorveu muito daquilo tudo. O apoio provém de uma grosseria altamente peculiar e geniosa, da qual eu não deveria mais dar muita atenção. Em contrapartida, a mesma mente é sempre a responsável por me levar a atos de loucura. E quase como uma volta por cima já me sujeitei à observação, campo de iniciação. A novidade é algo de fato, novo. Está anotado, graças aos olhares de volta.
Mas, uma conversa normal me pegou de supresa, em ambos sentidos, me arrastando para de trás de bambus. Onde pude constatar friamente sua falta de jeito e insegurança. Se tivesse parado por ai, não teria sido nada novo pro seu perfil. Nada pior que risadas espontâneas e, com os olhos, direcionadas para causar dúvida. É algo como sentir-se patética por tentar, por não esperar. Onde acaba todo o encanto de ser idiota, e passa a ser alvo de comentários destorcidos pela própria fonte.
Como diria a minha mãe, pessoas da cidade com falta de jeito para com tudo e vergonha demais, não precisam nem mesmo de chapéu e camisa xadrez. Ainda me acho otimista por natureza por imaginar continuidades felizes e floridas. Tudo bem, quem disse que essa tambem não pode ser uma boa continuidade? Encerro meus esforços, distribuo meu tempo e abro as gavetas. Se ainda não foi: adeus.