Corredor

Não nego que como de costume ensaiei algumas respostas que eu não saberia pronunciar no calor do momento. E pensei em como eu seria vista calçando meus tênis masculinos. Tudo pela falta do que pensar, em conjunto com a proximidade dos portões.
Tudo correu normalmente, até o momento em que eu forçava a vista para enxergar a primeira no painel, da esquerda para a direita. Ao invés de avistar um semblante nítido, deparei-me com cerca de cinco pessoas, onde meus olhos correram nervosos para avistar o que havia embaixo do boné.
Tudo correu numa fração de segundos, afinal num corredor as coisas não podem ser lentas… Ainda bem.
E mais uma vez me pego com o lápis na mão anotando cada um dos pontos faturados. A verdade pode ter sido ocultada mas, eu acredito. Afinal me faltam motivos para acreditar no que não vejo. Aliás, a identificação me leva a crer que estamos no mesmo barco… Não me esqueci de como suas mãos tremiam e como é seu sorriso nervoso.
A ansiedade e a dificuldade em processar boas palavras não fazem parte de mim. Ainda bem que meu consciente é bem treinado, pois naquele momento meu subconsciente estava ocupado agradecendo, boquiaberto.
Ta certo mas, e agora? Ontem mesmo planejei longas noites de sono com pouco, muito pouco drama. O plano continua, com dois adendos: não contenha-se, não esqueça-se da singularidade.

Spots

Por mais que eu tente assumir uma postura indiferente, é incrível o poder que algumas coisas tem de me atingir. E a cada nova tentativa de esquecer por esquecer, eu me pego criando desculpas para salvar as pessoas. Um mecanismo completamente ilusório mas, com traços otimistas.
O otimismo é reflexo de esperanças e ter esperanças, agora, não soa como o mais correto e aceitável.
Enquanto isso, toda (quase) neurose é puramente carência. Afinal, em base no que eu me prendo tanto? Já que tentar viver mais leve, sem se preocupar com detalhes não está sendo possível, a radicalidade deve atravessar a rua. Até porque, o que ainda me resta de orgulho e amor próprio não me permitiria tentar mais em vão.
Responder ainda não está fora de cogitação mas, a prontidão já não será tão exata. Quanto a isso, não se preocupe. Você jamais sentirá os efeitos, pois a luz em que você me viu jamais será apagada.

Quinze para as duas

Tenho horror a correntes, cordas, cadeados. Mas a leve idéia de fitas interligadas fizeram com que eu me sentisse ótima, mesmo que sentada numa mesa com estranhos. Como se todas aquelas silhuetas caminhando estivessem sentido a onda de energia positiva em volta de mim.
É claro que para o mundo todo eu não estava esperando por nada, afinal sou muito forte. Mas, no meu mundo eu sabia que se não tivesse retorno, teria outra coisa: decepção.
Mas, quando eu já estava criando meios de entender que aquele é um processo natural e que há vida lá fora, o visor tomou cor e luz. Nada de decepção.
Acho que sou uma boa atriz, não apelei para um tom afetado e palavras arrastadas. Como se tudo isso fosse muito natural no meu mundo. Claro.
Enquanto houver contato, haverá retorno. Enquanto houver retorno, haverá retorno.

Borboletas instatâneas

Você venceu, conseguiu o que queria. Congratulações!
Caprichei o meu ego durante todo o tempo em que foi possível. Eu não fazia idéia do que estava fazendo, mas tudo aquilo me fazia bem. Principalmente pelo fato de acontecer naturalmente, sem intenções escancaradas, ruidosas.
Tartarugas, parentescos, músicas e banjo. Por mais que eu estivesse apenas desviando meu consciente daquilo que meu subconsciente estava afundado, não posso negar interesse. E muito menos todos os pontos positivos que não param de subir na tela do computador.
E a cada aviso sonoro de mais um ponto computado, colheres de pó instantâneo foram acrescentadas, me remetendo a uma situação estranha, conhecida e distante.
Uma situação boa, renovadora, incentivadora. É como dormir num domingo e acordar numa sexta-feira. Sem dias ruins, sem segunda-feira.
Eu me jogo de cabeça, mas tento manter minhas mãos firmes na borda o suficiente para molhar meus cabelos sem perder o rumo. Nessas águas azuis, translúcidas. Aceito ficar submersa enquanto a temperatura estiver agradável, aceito deixar meu cabelo no cloro enquanto ele for em pó instantâneo.
Uma braçada por vez…

Menta ou qualquer coisa assim

Aquele que nada espera, nunca se decepciona. E apesar de eu atingir o extremo do drama, de fato não esperava mais nada. Não esperava por conformação, depois de quase me deixar vencer pelo sofá e pelo tédio caseiro. Mas, sempre carrego um lembrete que diz “Não deixe que ninguém seja responsável pelo seu humor”, e eu não poderia mesmo deixar que algo que não chegou a existir me privasse de uma sexta-feira. Afinal, sexta-feira é sagrado.
Mas na chuva, na calçada, e na impaciência, comecei a me deixar perceber que eu esperava. E como esperava. Não sei ao certo se acreditava que tudo de fato seria resolvido, mas ao menos uma mudança de personalidade era o mínimo.
E uau. Eu não pronunciei ao menos um verbete em resposta à palavra mágica. Por surpresa? Não. Era porque no fundo, eu realmente esperava que isso fosse acontecer.
Agora penso que fui apressada em me levantar antes mesmo de reagir. Mas, ninguém ali estava indeciso sobre o que estava por vir, não era surpresa pra nenhum de nós.
Quando eu acho que estou acertando, no fundo estou errando mais um pouco. Erro quando me deixo levar pelo calor do momento e falo demais. Erro quando sinto necessidade de ser correta, e na vontade de ser bem vista pelos outros. Acabo por me explicar demais, acabo por me entregar demais, por ser transparente demais.
Mas, no fim, tudo compensa. E tudo que foi dito dissolve-se no ar por outras coisas mais fortes. Sempre assim.
Aquele que espera, pode se decepcionar. Mas, caso ocorra o contrário a euforia pode tornar-se ainda maior. Eu não sabia se estava agindo certo, se estava sendo o que nunca quis ser, ou se estava desagradando. Fiz o que tive vontade sem pensar em me reprimir. Fora de todas as condutas e linhas retilíneas uniformes.
Eu minto se disser que sabia que estava me precipitando, porque não, eu nem cheguei a pensar nisso. Só conseguia asismilar um histórico de erros, acertos, e o presente cheio de motivações. Eu estava radiante, mas me contive em transparecer nada mais que o normal.
O novo não assusta se você esperava por isso. E repito, eu esperava. Tanto que mal tive tempo de me sentir patética, ou idiota. Cada sorriso, e cada movimento incalculado foram fortes, o suficiente pra eu dormir leve.
E esperar mais…

Ahh, se eu pudesse…

Nem tudo funciona como o planejado, e pode ser que em cinco minutos eu tenha estragado algumas semanas, ou meses.
Ah, mas se eu pudesse trocar os personagens. Ah, se eu pudesse ser menos fraca. Ah, se eu pudesse ser diretamente sincera. Ah, se eu pudesse ser menos burra!
Quem cala consente. E eu me calei pelo resto da noite ouvindo cada comentário indireto e cada história desnecessária.
Tudo bem, eu fui realmente uma estúpida e aceito a condição da cara feia e da má vontade. Aceito a condição da cerveja ser mais interessante que todo o resto.
Eu te conheço mesmo sem nunca ter te visto assim. E tenha certeza que, de fato, não aproveitei cada minuto erroneamente gasto. Ou desperdiçado, afinal…
Metódica que sou, já sairia escrevendo monólogos e treinando discursos convincentes. Mas, não. Calma, não posso me precipitar. Pelo menos dessa vez.

Vamos fazer virar realidade?

Enquanto eu me remexia na cama de calor e falta de sono, acabei pensando em algumas possibilidades da gente se encontrar, e alguns lugares em que a gente poderia se ver. Por simples falta do que pensar, afinal essa quase-insônia tem me forçado a ter uma criatividade imensa antes de dormir, simplesmente fiz uns pequenos planos caso realmente estivéssemos dispostos a nos ver e colocar a conversa em dia. Nada que tivesse grande destaque, até porque o dia seguinte me parecia ter acontecimentos mais surpreendentes que um simples passeio pela Avenida Paulista.
Eu só não imaginava que quando eu “acordasse” eu estaria realmente prestes a rever seu rosto. Tudo foi combinado de uma maneira bem simples e prática, e num piscar de olhos minha mãe estava me levando para a sua casa, por um caminho que me pareceu ser o do aeroporto – só que o aeroporto errado. Mas, apesar do caminho não me parecer o certo, não demorou para que eu estivesse na sua branca e enorme casa, muito bem arejada devido às janelas enormes de vidro.
No hall de entrada, havia uma chapeleira de madeira, e no patamar da escada – onde as paredes tinham uma coloração azul – havia uma mesa com tampo de vidro, com um vaso trabalhado e branco, cheio de flores. Uma casa grande igual a sua, eu só havia visto no filme “O Diabo veste Prada”.
Para a minha surpresa, fui recebida calorosamente pela sua mãe, que apesar de não me conhecer me tratou como se eu já fosse da sua família. Enquanto eu colocava minhas duas malas grandes e marrons, dentro de um quarto escuro – que mais tarde eu descobriria ser o seu -, alguma coisa aconteceu comigo.
E quando eu me dei conta, estávamos em uma grande festa. Numa festa de quinze anos, de alguma garota que eu mal sabia quem era, e você cansou de jurar que não havia problema algum pelo fato de eu não ter sido convidada.
A aniversariante não deu as caras durante toda a festa, se é que ela realmente existia. Mas eu pude reparar que a organização da festa deve ter sido muito trabalhosa pois o lugar era incrivelmente lindo, tinha ambientes descontraídos com suas paredes vermelho-berrante. Sem contar os espelhos em formatos variados e os globos de espelho pendurados em todos os ambientes.
Eu estava usando um vestido preto de dar inveja, super curtinho e justo. Estava muito bem combinado com saltos altos pretos, bem retrô. E como toque final, eu usava uma maquiagem um pouco pesada, e cabelos enrolados para ficarem propositalmente bagunçados. Tudo estava em perfeita harmonia, com exceção da minha enorme bolsa roxa que minha mãe costurou dias atrás. E algo me leva a crer, que além da bolsa exageradamente grande, eu carregava algumas sacolas de plástico e de lojas do shopping.
A festa estava tão lotada, que grande parte do tempo nós passamos dentro do banheiro. Que além de ser unissex, era todinho revestido por espelhos de ponta a ponta. Os lavatórios eram todos cromados e super brilhantes. A movimentação por lá era tão rotativa e repetitiva que por alguns momentos eu cheguei a suspeitar que o melhor da festa acontecesse por lá.
Quando por fim eu me decidi por usar o banheiro, cerca de duas pessoas simplesmente acharam normal entrarem no reservado junto comigo. E você ficou me olhando com aquela expressão calma, enquanto meu queixo caia. Após observar meu desespero em fase inicial, você apoiou cada uma das sacolas e minha bolsa roxa na pia – afinal, eu pedia incansavelmente para você segura-las pra mim, e me puxou pelo braço delicadamente fazendo com que aquelas duas pessoas esquisitas e com hábitos mais estranhos ainda, percebessem que eu não estava sozinha.
E de uma maneira mais doce ainda, você passou a mão pela minha cintura abaixando até o quadril – onde meu vestido era ainda mais justo – causando-me uma espécie de frenesi, pois por mais que ambos soubéssemos o que estava acontecendo naquele dia, não haviam sido dados sinais de que aquilo realmente era real.
Assim, saímos de mãos dadas daquilo que erroneamente recebeu o nome de banheiro, à procura de alguns de seus amigos. Quando os encontramos, não tivemos outra escolha além de nos sentarmos na escadaria de metal, pintada com um branco contrastante, porque todos os sofás, cadeiras, e poltronas estavam ocupados. Como se todos os convidados tivessem saído do banheiro decidindo sentar-se por um momento.
Aquele certamente foi um dos momentos mais doces da festa. Entre muitas risadas e conversas, inclusive com um dos garçons, eu pude ver como o seu sorriso irradiava felicidade. E a cada momento que você notava meu olhar fascinado pelos seus traços, você sorria ainda mais enquanto fazia carícias de leve na minha mão – que ainda continuava grudada na sua.
Tudo parecia incrivelmente bem e finalmente estável, até que numa fração de segundos já estávamos no carro voltando para sua casa. O carro movimentava-se suave pelo asfalto, mas havia algo estranho novamente. Somente nós dois estávamos naquele veículo, eu estava no banco do passageiro com minha bolsa roxa nos braços, e você estava curvado amarrando o cadarço do seu tênis enquanto mais uma vez gargalhava e dizia estar feliz.
De qualquer maneira, chegamos na sua casa. Você estava com outra roupa, vestindo agora uma pólo listrada vermelha e azul, e eu já não carregava mais minhas sacolas de plástico. Subimos as escadas ainda de mãos dadas, e novamente entre risos nos direcionamos para o quarto onde eu havia deixado minhas malas.
Ele já não estava mais na mesma escuridão de antes, pois havia uma enorme televisão ligada fazendo com que o quarto se enchesse de luz, o suficiente para revelar que haviam pessoas ali. Eram seus amigos, que também pareciam estar se divertindo pois riam muito enquanto jogavam vídeo-game.
Nós passamos abraçados pelo seu quarto, e você observou seus amigos como se aquilo fosse algo corriqueiro. Fomos em direção ao fim do corredor, onde depois de um estalo estávamos olhando o céu. Depois disso, tudo aconteceu rápido demais.
Quando eu voltei meu olhos para nós, você ainda estava ao meu lado, mas agora já havia soltado minha mão para se deitar na esteira em que sentamos. Eu estava segurando um ‘notebook’ no colo, e digitava tudo o que eu gostaria de te dizer, tudo que eu havia sentido nessa noite tão maluca.
Só que eu estava cometendo um grande erro, pois estava enviando isso tudo para outra pessoa que parecia se identificar com cada sentimento enquanto dizia sem parar “Como eu me apaixonei rápido!”. Quando eu realmente me dei conta de que estava me declarando para a pessoa errada, eu entrei em pânico por alguns segundos, e cheguei inclusive a pedir ajudas e conselhos para alguns amigos. Mas foram apenas segundos, porque você voltou a segurar a minha mão e sorriu.
E aquele momento não precisava de palavras, pois aqueles sorrisos e olhares brilhantes comprovavam: nós namorávamos, e como se isso não nos bastasse, éramos muito, mas muito felizes juntos.

Metade

Agora há pouco eu estava andando de carro com a janela abertíssima sentindo aquele ventinho fresco enquanto olhava o céu escuro. E não coincidentemente me lembrei de que uma de nossas primeiras conversas foi sobre como essa brisa fresquinha ao som de Los Hermanos é brisante (palavra que até então você desconhecia).

E meu coração bateu apertado quando eu lembrei de uma noite não muito quente de janeiro, onde nós estávamos deitadas na cama elástica olhando o céu, que para mim costuma ser sem estrelas.
Mas a saudade começou a palpitar quando lembrei de que nessa mesma noite, momentos depois você me deu a estrela que mais brilhava no céu. Não coincidentemente, de novo, eu só posso ver a estrela que me pertence quando estou aí, perto de você.
Mas, não preciso estar perto pra estar com você. Acredite quando eu disser que você é a minha vida!

Relento

O dia será muito quente. Aliás, não só o dia, mas a semana provavelmente me fará agradecer por não morar em Cuiabá.
E coincidentemente, ou não, a primavera realmente chegou. Já não há mais aquele ar leve e fresco em cada uma das noites em que antes de vagar pelos próprios devaneios era preciso vestir, no mínimo, um moletom fino.
Mas as noites quentes e abafadas trazem uma brisa fresquinha que passa despercebida mas que é considerável o bastante para causar arrepios e proporcionar serenidade.
Finalmente assumo que dias cinzas e pesados não combinam com cachecóis e que esse contexto já não condiz com meu guarda-roupa.
E isso me faz imaginar que ao invés de caminhar vestindo diversas camadas de blusas e capas, um simples vestido faria com que o som dos meus pés pelo asfalto soasse alto mas leve, sem permitir impacto porém sem criar asas.
A cada semana as repórteres anunciam uma temperatura diferente e dão uma previsão variada para o fim de semana, e só me resta por e tirar meus casacos do armário. E mesmo que isso aconteça, eu admito que a sensação de me sentir dentro de uma regata branca reluzente é além de confortável um sussurro de otimismo.