All happening

Prólogo

O contar da história é lento, mas o ouvir é apressado. O resumo da obra termina por ser subestimador e coloca o diferencial como fator comum. Entretanto, a história é longa, agregadora, compartilhada.São as músicas preferidas, o jeito de falar e o café da manhã. As manias da adolescência e os ídolos do rock que levaram ao jeito de se vestir. Os lugares que levam a você, a mania de arrumação e as caixas de remédio.

Do despertar ao deitar. O primeiro dia, a nota baixa, o atraso no emprego e um cd novo. A fantasia de astronauta que somente a mãe acha bonito te ver usando. É o meu número, afinal.

Eu-lírico

Eu já quis correr contra o vento ou a favor da maré. Pensei que nada fosse passar e tudo passou. Achei que não podia levar nada disso a sério, esqueci de ter expectativas e de repente ouviu-se o sussurro ao pé do ouvido: It’s real, baby.O começo tão improvávell, o futuro distante que se aproximou de um jeito tão errado que acabou por ser o jeito certo. Quando eu achava que fazer minhas vontades e colocar os sentimentos à prova era me ser pelo bem e pelo mal para me ser, por ser, descobri que me fui esse tempo todo sem perceber.

Cada palavra não dita, cada teoria guardada na gaveta deixou o tempo agir naturalmente. E trouxe tudo que deveria trazer na hora certa. Nada do que é vivido hoje se baseia em certezas concretas nem nunca se baseará. Mas a questão definitiva é prender-se no que foi construído e não no que poderá vir.
Nunca me fui tanto do jeito que eu quis ser. Encontro duplo, simultâneo e sincronizado. Dos.

A obra

Não se trata de injeções de alegria, doses homeopáticas ou doses cavalares de seis em seis horas. É um constante e permanente estado de felicidade. Sincera e clandestina.Tão clandestina que transborda para fora do recipiente. Pelo simples fato de ouvir as botas baterem forte no chão ao caminhar. Tão clandestina que corre riscos por ser quase irregular. Chutei todas as regras para longe e vomitei para fora as cores e as texturas que furtei esse tempo todo.

Foi quando arrumei os meus cabelos frente ao espelho e vi que não se tratava de um espelho. Era simplesmente a minha imagem refletida numa pessoa tão semelhante a mim que eu precisava de placas penduradas no bolso da camisa identificando, pelo sobrenome, quem era quem.

O modificar, também clandestino, do outro acaba por voltar-se para dentro. O que eu quero mudar não é justamente o que me falta? Mas, quando foi que você se tornou o que eu sou? Ou melhor, quando mesmo eu me tornei quem você é?

Aprendi nesse tempo o charme por trás de uma risada no lugar de uma resposta longa, explicativa e massante. É tarde demais para procurar as respostas. It’s all happening and I don’t wanna change fucking anything.

Epílogo

Enquanto houver fôlego. Piadas boas e os acordes repetidamente viciados. Na verdade, nós não somos o mesmo. Apenas nos tornamos o mesmo quando. Quando estamos. Juntos.

Last Year

Eu estava descendo a rua apressada por viver aquela noite. De mãos dadas com quem me segurava forte, mas sem pretenção própria. O plano da noite era voltado pro suéter quieto e inseguro.
Numa daquelas esquinas cheias, e igual como todas as outras, um tropeço me colocou em frente com um erro de quinze dias atrás. E quem mente paga, paga caro. E quem ouve a mentira fica com o troco. Duas palavras gaguejadas, uma simpatia de última hora e eu já nem sabia mais no que pensar. Retomei aquelas ideias de destino e de que haveria reencontro se ele fosse necessário e justo. E houve. Completamente despreparado e indevido.
Por dígitos a menos, quatro se tornaram três na mesa do bar. A reserva pra trinta pessoas foi em vão e logo a noite parecia outra. Tinha que ser outra.
Uma fila enorme se estendia à esquerda da casa com sacada. Alguém disse que aquele seria o dia, e sobrou quem concordasse. Casa cheia, contagem regressiva. O brinde no bar e já não havia amanhã. Como um grito de guerra que precede a vida a ser vivida. E foi.
Música boa e gente demais pra assunto bom de menos. Encostar elimina e implorar só piora. Cinema, bom gosto e nada que mude minha vida. Até aparecer um nome estranho, que não mudou nada mas chegou perto disso. Um assunto prepotente, interessante mas insuficiente. Até que me deram as costas, numa timidez mal educada, mais prepotente, mais interessante e quase suficiente.
Uma conversa tão previsível, tão fantasiada. E a música boa que nos levou pra pista. Open up my eager eyes. Cinquenta ideias num segundo. O assunto não podia acabar, e eu precisava voltar. O espaço era pequeno e ainda assim todos haviam sumido. De longe eu via quem eu queria ver, já duvidando encontrar reciprocidade. Outros cinquenta pensamentos pra ter, e logo o único mal idealizado veio à mente. Ponto final, erro cometido.
Eu continuava precisando encontrar uma companhia e teve de ser a voz rouca prestes a acabar. Enquanto o olhar me buscava de cima. E eu pensava mil vezes por que é que eu era tão pouco esperta. Não é por ser você, aquele ou outro qualquer. É o não poder ter, o desafio e a renúncia. As palavras acabaram, os argumentos e a voz. Alguém tinha de vir resolver aquilo tudo. E veio.
A reprovação e a aprovação de mãos dadas, numa festa prestes a acabar, sorrindo sem pensar que aquilo ainda era totalmente errado. Torcicolo, o clichê e a mesma conversa de quinze dias atrás. E eu devia, de novo acreditar naquilo. A luz negra tira toda e qualquer racionalidade em perceber as mentiras e falsas intenções. Ele não ia ligar nem que quisesse, odiava aquilo.
Subi a rua pensando que havia vivido em dobro: pelo errado e pelo quase certo. Dessa vez sem crer na carochinha, por ter, antes de mais nada, quebrado o sapatinho de cristal e ter entrado direto na abóbora.

Era pura teoria. Mas a prática foi quase infalível. Não ligou. Nunca disse que ligaria. Mas escreveu. E não parou mais.
Outras vozes me ligaram, muitas outras palavras me foram escritas e eu pronunciei tantos outros verbos aleatórios. Inúmeras tentativas de viver metade do que seria possível.

Last year. To happen in this year. To live this year. To be now. To love today. Next year.

Você tem meia hora

Logo a janela que eu queria aberta é a única que permanece fechada. Todo sol que penetra pelas outras quatro não fortalece meus ossos e não ilumina o quarto, que além das venezianas parece haver uma cortina bem escura e grossa. Não é questão de tempo. Esperar os dias correrem soa como uma doce melodia, que embala os passos logo cedo na grande avenida. O coração palpitante mal pode segurar o sorriso querendo abrir. Esperar é pouco. Eu poderia ser ainda mais após a força de uma palavra, eu poderia oferecer muito mais após a certeza de duas palavras. O orgulho de quem caminha de cabeça erguida frente ao leque de possibilidades, de pratos postos na mesa e convites solenes. Enquanto todo o resto simplório não se torna menos. Uma vida inteira bem servida pela frente.

Mas os dedos estão congelando ao tocar a geada cobrindo as folhas do jardim. E não vai mudar. A única janela que eu queria aberta é a única emperrada e impossível de abrir.

De frente ao mar

Fiquei doente. Aquele peso esmagador, que não se decidia qual parte do metabolismo atacava, resolveu não decidir. E de repente, fiquei doente, de toda e qualquer maneira. Mas foi logo nesse ato de constatação que eu lembrei que não havia solução: antibiótico não cura doença de amor.

Abrir mão, enquanto ainda se pode ter nas mãos parece algo pouco inteligente. E meu ego me reprovou em cada atitude que agora tirou da reta as flores na porta de casa. Mas eu sou piegas.
Quebrei o que poderia facilmente ter quebrado, e agora ultrapassei o inesperado. Não encontrei mais nenhuma regra a ser seguida, além daquela voz que pertinentemente gritou para que eu desse um passo de cada vez e vivesse uma história por vez. E errasse por me ser, para no fim, me acertar.
Terminar uma coisa que não começou soa como algo muito calculista (algo muito vindo de mim), e eu nunca tentei tanto e nunca quis tanto que a situação fosse tomada por causas naturais. Mas não foi. Não penso em me desculpar e não sobra qualquer espaço em mim para que eu sinta culpa. Eu só fico com saudade do que acabei de impedir que aconteça, do que eu senti e poderia sentir.
Contudo, eu já me sinto forte. Exagero nas palavras, e essa atitude inédita de tomar as rédeas parece muito mais de carne e osso do que sentar e esperar, ou do que manter perto o que me faz bem pra quando quiser o bem – só para quando eu quiser. Não estou esperando ser canonizada por atitudes altruístas. Inclusive, vejo mais egoísmo que altruísmo em meus atos.
Qualquer calafrio ou bem estar não me impediram de ver de maneira clara, foi a única vez em que tentei ser inconsequente e viver aos tropeços, desde que me fizessem bem. Porém, o impossível é me enganar por muito tempo: a ideia é muito boa, mesmo, mas não poderia funcionar na prática, simplesmente porque fora do papel, o papel jamais seria cumprido como se deve. Posso me arrepender, posso e possivelmente fraquejarei, mas nada paga a minha cabeça deitando leve no travesseiro para dormir.
Sinto alívio, mas pouco conforto. Não troquei instabilidade por certezas absolutas. Estou na corda bamba de quem pode estar tentando ser justa, e por fim (e não pela primeira vez) perder tudo. Se é que alguém perde o que não tem.
Estou pouco preparada pra lidar com caixas vazias, páginas mal respondidas e comportamento virado do avesso. Mal sei o que fazer com essas paredes, que não possuem ouvidos mas são tão sensíveis que absorveram cada lembrança sua. E, agora, elas lembram de você antes que eu cogite pensar nisso.


A história não acaba aqui. As ondas nunca vão parar de avançar na areia. Pelo contrário: por mais forte que voltem ao mar e quebrem nas pedras, a calmaria retorna aos pés na beira da areia molhada.
Ainda transtornada deixei que as febres aflorassem, que todas as dores pulsassem. Inutilmente tomei cada uma das pílulas, não queria dizer adeus. E foi quando adormeci, leve.

Não apenas uma, mas aquela de amor.

Na penúltima linha, quando houve o prenúncio do clímax absoluto da linha de pensamento, meu primeiro, e mais natural impulso, foi tacar a folha pra longe de mim, no outro canto da cama. Levei a mão à boca e fiquei a imaginar se aquele turbilhão era felicidade, surpresa ou apenas mais um loop inesperado.
Não sei por que as pessoas enfrentam filas num parque de diversões para quando sentar no carrinho da montanha-russa fechar os olhos e só abrir quando os freios são acionados. Você espera por algo, pensa em desistir, teme, precisa de incentivos e depois, simplesmente, fecha os olhos esperando que tudo acabe logo. Mas então porque decidiu andar na montanha-russa?
Talvez pela primeira vez eu não esteja com o dicionário em mãos, buscando sinônimos, ouvindo músicas atrás de inspirações. Tudo para mascarar, ou melhor, conseguir me permitir dizer o que precisava dizer. Estou sendo claramente sincera como poucas vezes. E quem sabe pela última: eu sei bem quem presta atenção no que eu digo, ou escrevo. Ao menos conheço quem frequentemente brinca nas interpretações dos meus erros, dos meus sentimentos mais errados e absurdos. E eu sei que a pessoa dona dessas palavras ainda irá lê-las. E espero que as entenda também.

Os dois parágrafos acima me parecem pobres, fracos e mais descarados do que o meu bom senso poderia permitir. Nunca escrevi pra isso, nunca imaginei que alguém além de mim pudesse ler e encontrar sentido, semelhança. Mas hoje eu faço uso do pombo correio.
Eu queria chegar em casa e salvar o mundo, ou tentar consertar um coração partido. Mas quando finalmente respirei fundo, cantei um refrão da música que estava ouvindo, e terminei de ler a carta eu simplesmente segui meu instinto quase animal: desabar em letras tudo o que isso significa pra mim.

Pode parecer que não, mas a cada momento, a cada pedaço de vida compartilhado, eu me vejo pensando em como não machucar quem eu quero bem. E até mesmo pensando se eu ainda sou culpada, se antes plantei sementes que hoje não condizem com o meu terreno. Ou, se num momento de baixa racionalidade, brinquei com o que não posso cumprir. Nunca agi além do que pensei ser capaz, nunca pronunciei palavras que não me fossem verdadeiras. O rumo simplesmente acabou sendo outro.
Não acho que assim seja ruim, injusto ou diferente do que eu imaginava. A família que construímos, hoje, é como um castelo feudal. Protegido por enormes muralhas, soldados eficientes e servos obedientes. E eu sou cada servo que cumpre suas funções, cada soldado que age instantaneamente quando algo parece ser perigoso. E justamente por isso, ainda carrego o peso de fazer tudo errado, mais uma vez.

Eu não tenho capacidade de prever, e muito menos noção de palpite para tentar adivinhar cada curva que essa história ainda irá percorrer, cada linha em branco que será verdadeiramente preenchida. Hoje, eu só consigo ter certeza de até onde eu consigo ir. E eu temo por ser pouco.
Poucas pessoas no mundo merecem confiança prévia, respeito absoluto e carinho eterno. Mas, parece que você, desde o primeiro suspiro de vida, já tinha, na minha vida (que ainda não era fisicamente real), esse posto intocável e insubstituível. Só consigo concluir que não mereço o cuidado, a letra desastrosa, a seleção musical e o amor. É tudo tão absolutamente sincero que não posso retribuir, pelo menos como talvez você espere que eu retribua.

Não pensei que, tão cedo, fosse ter que lidar diretamente com essa situação. Ou talvez eu até imaginasse, mas fingi não ver só para não cair na certeza de que iria decepcionar quem menos merece.
Assim, você me deu as palavras. Eu as captei, juntei com os sorrisos e tomei pra mim de forma natural, que condiz com o que eu sinto e com o que faz sentido nesse momento.

Não há nada errado, fora de hora, exagerado ou não correspondido. Apenas pode ser que, lá no fundo, os princípios sejam outros, e as raízes sejam feitas de compostos vegetais diferentes. Contudo, elas convivem num mesmo gramado, vaso, jardim ou floresta. Onde quer que esteja, seja, faça, diga, a verdade não muda: em mim também cabem sorrisos e amor, que crescem conforme os ciclos de claro e escuro intercalam-se.

O pior é saber que ainda cometerei erros enormes. Decepcionar e chatear você são erros dos piores: sei que cometerei, sei que terei a culpa, e ainda assim não posso detê-los. Minha vida ainda tem rumos a seguir, histórias para construir, frustrações e outros amores. Acredite. Eu me sinto incapaz, impotente e imbecil de não poder poupar que você presencie algumas coisas que talvez não te façam bem. Mas, eu preciso viver a minha vida. Preciso escrever minhas linhas tortas e respirar cada sopro de vida.

Soa clichê, mas eu também não posso fugir da palavra mais simples e significativa que consigo encontrar agora: desculpe. Por não ser quem você espera que eu seja, por não corresponder ao que você deseja e por ser tão burra, inquieta, e ainda assim consciente, de preferir viver pelo erro.

Castelo de areia

Condições adversas. Eu estava onde não queria estar, cercada por pessoas as quais eu não gostaria de compartilhar do meu tempo. Mas eu estava adorando aquilo.
É exatamente o momento em que não há condições de se passarem muitas coisas pela cabeça além do fazer ou não fazer. E tudo se resume na enorme besteira de guiar os seus atos já pensando no que os outros irão pensar. Começar a dizer que não me importo é a maior afirmação de que exito por me importar.
Às vezes uma linha muito fina e frágil separa dois rumos distintos. Eu entendi onde estava e cada uma das não-regras embutidas nisso, mesmo que os coadjuvantes fossem fora da minha realidade, e talvez parte de onde eu queria estar e tinha certeza que nunca estaria. Mesmo que agora já estivesse.

Isso me remete à longa e dura transição do ser ou não ser, obrigatoriamente embutida na vida de quem se aventura a viver. Pode até ser que haja vida, e boa vida, além disso. Mas, a minha ganhou cores a partir do momento em que as duas caixas derramaram seus conteúdos no chão. E não houve mais distância, diferença e empecilho entre os de lá e os de cá.
Foi assim que me lembrei de que não há segredo. Que o justo fato de não ser naquela época está me fazendo ser agora. Ser alguém pra que se saiba que existe, sem as manchas de quem já existia.

Não houve mais limite, e eu não pude me desprender do peso de quem, mil quilômetros depois, vai me julgar pelas minhas escolhas. Faço bom uso do álibi. Terra sem lei, atitudes sem lei.

As linhas em branco receberam tudo aquilo que elas não estavam prontas pra receber. Mas ainda assim, tudo o que faltava pra completar o capítulo. Muito teria sido diferente, para menos, sem os detalhes de afeto e desafeto. As histórias contadas seriam outras. Se é que haveria alguém para ouvi-las.
Todo álibi depois, não existe isso de pregarem com pregos de aço as histórias, cada uma aonde aconteceram. Elas voltam, dentro do maleiro do avião. E aqui reaparecem, consequência por consequência. Julgamento por julgamento. 

O castelo foi construído. E apesar da fraca fundação, das rachaduras, e das frequentes e insistentes ameassas de tempestade. Mas eu quero que ele continue de pé, pelo menos até a data do fim.


Maionese

Diário de férias seis.
O acaso, o destino, a sorte ou simplesmente um acontecimento comum. Uma ligação não completada. Uma chamada não atendida. Ou quem sabe a força do pensamento.

Eu deveria estar enxergando nostalgia em cada passo que as pessoas davam. Ou quem sabe fosse o sentimento ingrato de domingo, pois todos estavam combinando com o céu cinza, sem gritos eufóricos, empolgação ou músicas pra dançar. Havia um aniversário ali, em meio a tantas blusas de frio e isso implica com planos e convidados.
Algumas situações constrangedoras típicas, dicas eficientes, colheradas de sinceridade após e eu estava vivendo meu dia de encerramento, minha última chance, as últimas fotos, os últimos esforços em ser alguém que eu gostaria de ser, as últimas piadas, as últimas risadas, os últimos goles. A derradeira.
Poucas palavras, alguns olhares desviados, a colocação distante no retrato. Meu consciente não sabia como tudo deveria ser, apesar de ter seu palpite racional e calculado; Já meu subconsciente tinha total certeza de como queria que tudo fosse, e até mesmo já estava pronto para criar esperanças ou desapontar-se.
Quando meus pés pisaram no asfalto da rua tranqüila, dois braços alheios não pensaram duas vezes em me empurrar, logo após a seqüência ansiosa das sobrancelhas, fazendo aquilo que as minhas próprias pernas não conseguiram fazer sozinhas: tomar proximidade.
Agora mesmo eu posso fechar os olhos e recordar o caminho que me leva ao T da história. A leve subida, o desvio na praça (dado um pouco para a esquerda), a passagem pelo piso mal terminado, algo que deveria ter sido uma fonte, e novamente à esquerda. Após atravessar a rua, a chegada onde deve-se seguir reto. As janelas da academia, as casas beges sujas de terra, o café e do outro lado, logo à direita, a casa da garagem aberta.
A garagem não estava aberta e não havia recepção com robe cor-de-rosa. Mas eu pude tomar cada detalhe decorativo como um cartão de entrada. Mais de dez pessoas, divididas em vídeo-game, violão, pipoca, e um jogo qualquer. Eu fiquei na equipe que mais me identifiquei: a da observação.
Ambiente amplo, três sofás, uma poltrona nos tacos de madeira. Logo na entrada um aparador com um espelho, uma estante para guardar a tevê. Cortinas longas e brancas. À direita uma cristaleira (mais uma, pois já havia outra ao centro), um piano com as teclas cobertas pelo veludo vermelho. Muitas fotos de família e quadros. Talvez formal e com muitos detalhes para a situação, mas após me sentar na banqueta do piano e respirar fundo, meus olhos puderam captar a menina com roupa de bailarina, os copos empoeirados, a escola retratada na tela, o tecido quase rendado da cortina, e até mesmo o tom amarelado que a luz deixou no ambiente.
Meu subconsciente não precisou mostrar muito ao meu consciente, pois somente o interesse incomum ao trocar a partida fictícia de futebol pelo jogo – literalmente – de olhares, já me mostrou o quão perto da família eu poderia estar. Não me lembro ao certo em que momento as pessoas foram tomando outras atividades e o sofá foi esvaziando, só pude prestar atenção na conversa paralela e na atenção redobrada a cada palavra recíproca.
Naquele momento eu teria levado outro empurrão caso minha bolsa ainda estivesse ocupando meu colo, e claro, se isso não fosse tão descarado e grosseiro. Apenas convivi com o gaguejo e as sussurradas nervosas, novamente com a dança das sobrancelhas e algumas risadas. Esperei o tempo suficiente para eu me convencer de estar agindo por mim e não pelos comandos direcionados para dar trabalho, ou função, aos meus braços tão perdidos e sem saber com o que se ocupar.
Algumas boas músicas, explicações sobre quadros e fotografias, promessas sobre o piano e então a boa e velha sinceridade. Meu subconsciente acertou em como as coisas deveriam ser e as esperanças foram superadas, sem mesmo precisar que fossem desapontadas.
Meus ouvidos até então atentos ao som da televisão, à música ou à conversa das garotas teve o foco inteiramente redirecionado quando começou a tocar uma melodia doce, leve e verdadeira. Não era uma música no ipod, tocada no violão ou até mesmo no piano. Eram palavras ditas em voz baixa, com sotaque e pausas cautelosas. Impossíveis de não arrancar sorrisos e evitar que a contagem regressiva se tornasse a cada momento mais dolorosa. Os pedidos para ficar, as revelações, as explicações e os planos datados para seis meses. Em meio à coceira desnecessária no nariz, proveniente da tensão momentânea, eu sabia que podia falar um pouco demais, porém já temia a reação posterior e todos os efeitos da abstinência.
Quando os detalhes captados do ambiente já me pareciam o mais familiar que eu já pude chegar, me chamaram para atender uma ligação. Enquanto eu respondia automaticamente a cada pergunta desnecessária e previsível aproveitei para captar um pouco mais. O bilhete colado logo ao lado do telefone, o calendário, a porta. Ao voltar tudo ainda era meu, e parecia ainda mais real. Real e não menos assustador… Minhas mãos, meu sorriso, minha reação e meu consciente estavam ocupados em processar tudo com rapidez e naturalidade, até que me desvencilhei num reflexo rápido e normal. Porém, não havia nada de errado naquilo, a não ser pra mim. Apesar de toda a vergonha, mantive-me próxima sem mostrar intimidade. Ao invés de lidar com um monstro de sete cabeças, apenas me vi de frente a uma mãe coruja, orgulhosa e simpática. Eu gostaria de poder usar cada dica que ela rapidamente me deu, mas todas elas foram inúteis, dada a distância que eu tomaria no dia seguinte.
Os estômagos roncaram, e mesmo que o meu parecesse nervoso demais para ingerir alguma coisa eu me levantei rumo à cozinha. Tratei de parecer uma boa pessoa e respeitar os limites de um lar, mas em meio a risadas (e mais sotaque) alguém parecia comemorar que todos os quadros, móveis e familiares o estavam vendo acompanhado.
Aquele era mais um cômodo novo e cheio de detalhes, apesar de parecer até mesmo familiar. Era revestido com janelas, havia uma mesa de madeira com várias cadeiras (afinal, sobraram apenas duas pessoas de pé), um armário de pratos e muitas risadas. Devorei meu lanche para que aquele momento desnecessário acabasse logo. Ou talvez eu estivesse realmente com fome. O molho que coloquei no pedaço a ser mordido pareceu ridículo perto dos lanches banhados a condimentos a minha volta. Enquanto um pouco de mostarda fez meu lanche um pouco mais saboroso, algumas pessoas disputavam por saquinhos transparentes com um creme bege. Ah, maionese. E segundo eles, a mais digna maionese caseira.
Ao retornar para a sala, eu já soube que não tinha muito mais que meia hora. Ouvi novamente a música doce em meus ouvidos que ficava a cada momento mais ansiosa, apressada, desesperada e quase triste. Ouvi uma música no piano seguida de frases superprotetoras. Reconheci a pasta de dente e segurei a vontade de rir por um ato tão engraçado e cuidadoso. Quando uma terceira voz, que até então só me deu empurrões e broncas, avisou que onze horas chegariam a quinze minutos, eu mesma pude sentir minha música desesperada e ainda assim otimista tentando ser desapegada. Tudo o que foi contido acabou por ser dito, e o que seria precipitado ou exagerado ficou guardado no silêncio com cheiro de roupa nova.
Despedi-me calmamente de cada pessoa na sala, agradecendo, sorrindo e prometendo meu retorno ansioso. Dez minutos. Um comparativo de altura, e a planta enroscando no meu cabelo. Quando o carro branco chegou, eu processei que não me restava mais um minuto sequer, apenas segundos urgentes. Eu volto, foi bom, cuide-se. Três curtas frases quase frias para conter o que deveria ficar guardado.
No banco de trás do carro, eu não ousei olhar para trás. Não deveria começar mal essa história de seis meses. E no vidro embaçado eu tive a besteira de escrever com o dedo a inicial do meu nome, só para distrair a felicidade e a nostalgia antecipada.
Enquanto eu guardava as últimas peças, recolhia o que ficou espalhado e procurei pelo o que poderia ser esquecido, fui tomada pela tristeza de já ter chegado a hora. Por ter passado tão rápido e por ter sido tudo tão incrivelmente bom.

O acaso, o destino, a sorte ou simplesmente um acontecimento comum. Uma semana bem aproveitada. Uma viagem bem vivida. Ou quem sabe uma fase boa, fechada com chave de ouro.

Risca de giz

Não deveria me precipitar tanto quanto eu sempre faço… Mas, eu devo gostar mesmo disso. Não há cálculos exatos que substituam a sensação livre de segundas-feiras. Logo hoje que é domingo… Essa falta de concentração, sobra de energia, e vontade de ser absurdamente inconsequente. Algo me incomoda muito agora mas, tá longe de ser só fome. O calendário exige paciência, e nisso eu sou quase experiente. O quase é atribuído apenas pela frequência, apesar da falta de prática. Já me vejo falando demais, exagerando e quase perdendo a noção. Mas, eu adoro essa perspectiva. Adoro a ideia de me sentir bem, de estar bem, de ficar bem.

Colisão Inelástica

Eu troco a surpresa e todo provável frenesi por frangalhos de certeza. Porém isso não me faz imediata, apesar das listras e dos olhares curiosos por trás.
Diagonal e várias risadas desnecessariamente naturais. A postura despreocupada poderia ser facilmente desmascarada pelo nervosismo hiperativo nas pernas, que mexiam-se freneticamente por baixo da mesa. Apenas postura, eu bem que disse. Afinal, enquanto eu não estiver perdendo, uso minhas fichas. Mais vale tentar do que ter apenas pensado.
O retorno novamente me incentiva a persistir. Palavras cantadas diziam para eu ir atrás dos meus direitos, e não há metáfora alguma nisso. O interesse nas palavras apressadas que eu loucamente mal processo é crucial. Às vezes me surpreendo em como posso pensar em tantos assuntos sequênciais.
Não precisou que ninguém fosse claro com frases cheias de verbos transitivos diretos, apenas a procura pelo encontro dos olhares foi suficiente para que a sintonia se equalizasse.
Os corpos de gravidade 10 m/s e massa de valor não informado percorriam uma tragetória não retilínea em sentidos contrários, onde após desviar de obstáculos ocorreria uma colisão. Perfeitamente inelástica.
Ciências exatas muitas vezes exigem paciência para obter resultados. Paciência eu nunca tive. Quebro os teoremas e fórmulas matemáticas para encontrar a razão das minhas próprias equações. Iniciativa eu sempre tive.
Sem palavras mágicas e respostas consideráveis, ninguém ali estava com dúvidas. Tudo foi tão diferente. Diferentemente novo… E bom. Num piscar de olhos cada dúvida e neurose dissolvem na consciência de que é um processo natural onde naturalidade reflete insanidade.
Isso me remete a uma satisfação pessoal, onde cada uma das quinhentas pessoas presentes podem constatar que cada pensamento tem com quem se ocupar. Mas, não demora muito para as minhas expectativas murcharem… Parece que sempre tentarei lembrar-me de não esperar muito dos outros. Essas são as circunstâncias: aceite-as.
Aceito. Aceito de tão bom grado que não exito muito. Levante. Logo ouço o conforto de que tudo ficará bem, sem metáforas novamente. E fica… A gente se entende!
Ali, naquele tempo espaço posso perceber que desatenções são ingênuas desatenções. E sinto aquela incrível sensação de querer descobrir cada pequeno detalhe, saber dos problemas diários e ser alguém para estar. Você me faz sentir coisas que eu jamais pude experimentar antes. Não se trata das listras ou elegância de loja. É algo com os seus olhos e a sinceridade por trás deles…
Eu provoco e quase pressiono. Não me arrependo de uma fagulha sequer, confio nas minhas impressões. Os pontos positivos sobem, e eu sei que pontuo também. Engulo o orgulho que não tenho e levanto-me cheia de assuntos por quantas vezes for preciso. Apenas mostre-me que estou fazendo certo em abandonar os números. E que você quer me ver de pé. Afinal, sempre preferimos as áreas humanas. Levante-se.