Na penúltima linha, quando houve o prenúncio do clímax absoluto da linha de pensamento, meu primeiro, e mais natural impulso, foi tacar a folha pra longe de mim, no outro canto da cama. Levei a mão à boca e fiquei a imaginar se aquele turbilhão era felicidade, surpresa ou apenas mais um loop inesperado.
Não sei por que as pessoas enfrentam filas num parque de diversões para quando sentar no carrinho da montanha-russa fechar os olhos e só abrir quando os freios são acionados. Você espera por algo, pensa em desistir, teme, precisa de incentivos e depois, simplesmente, fecha os olhos esperando que tudo acabe logo. Mas então porque decidiu andar na montanha-russa?
Talvez pela primeira vez eu não esteja com o dicionário em mãos, buscando sinônimos, ouvindo músicas atrás de inspirações. Tudo para mascarar, ou melhor, conseguir me permitir dizer o que precisava dizer. Estou sendo claramente sincera como poucas vezes. E quem sabe pela última: eu sei bem quem presta atenção no que eu digo, ou escrevo. Ao menos conheço quem frequentemente brinca nas interpretações dos meus erros, dos meus sentimentos mais errados e absurdos. E eu sei que a pessoa dona dessas palavras ainda irá lê-las. E espero que as entenda também.
Os dois parágrafos acima me parecem pobres, fracos e mais descarados do que o meu bom senso poderia permitir. Nunca escrevi pra isso, nunca imaginei que alguém além de mim pudesse ler e encontrar sentido, semelhança. Mas hoje eu faço uso do pombo correio.
Eu queria chegar em casa e salvar o mundo, ou tentar consertar um coração partido. Mas quando finalmente respirei fundo, cantei um refrão da música que estava ouvindo, e terminei de ler a carta eu simplesmente segui meu instinto quase animal: desabar em letras tudo o que isso significa pra mim.
Pode parecer que não, mas a cada momento, a cada pedaço de vida compartilhado, eu me vejo pensando em como não machucar quem eu quero bem. E até mesmo pensando se eu ainda sou culpada, se antes plantei sementes que hoje não condizem com o meu terreno. Ou, se num momento de baixa racionalidade, brinquei com o que não posso cumprir. Nunca agi além do que pensei ser capaz, nunca pronunciei palavras que não me fossem verdadeiras. O rumo simplesmente acabou sendo outro.
Não acho que assim seja ruim, injusto ou diferente do que eu imaginava. A família que construímos, hoje, é como um castelo feudal. Protegido por enormes muralhas, soldados eficientes e servos obedientes. E eu sou cada servo que cumpre suas funções, cada soldado que age instantaneamente quando algo parece ser perigoso. E justamente por isso, ainda carrego o peso de fazer tudo errado, mais uma vez.
Eu não tenho capacidade de prever, e muito menos noção de palpite para tentar adivinhar cada curva que essa história ainda irá percorrer, cada linha em branco que será verdadeiramente preenchida. Hoje, eu só consigo ter certeza de até onde eu consigo ir. E eu temo por ser pouco.
Poucas pessoas no mundo merecem confiança prévia, respeito absoluto e carinho eterno. Mas, parece que você, desde o primeiro suspiro de vida, já tinha, na minha vida (que ainda não era fisicamente real), esse posto intocável e insubstituível. Só consigo concluir que não mereço o cuidado, a letra desastrosa, a seleção musical e o amor. É tudo tão absolutamente sincero que não posso retribuir, pelo menos como talvez você espere que eu retribua.
Não pensei que, tão cedo, fosse ter que lidar diretamente com essa situação. Ou talvez eu até imaginasse, mas fingi não ver só para não cair na certeza de que iria decepcionar quem menos merece.
Assim, você me deu as palavras. Eu as captei, juntei com os sorrisos e tomei pra mim de forma natural, que condiz com o que eu sinto e com o que faz sentido nesse momento.
Não há nada errado, fora de hora, exagerado ou não correspondido. Apenas pode ser que, lá no fundo, os princípios sejam outros, e as raízes sejam feitas de compostos vegetais diferentes. Contudo, elas convivem num mesmo gramado, vaso, jardim ou floresta. Onde quer que esteja, seja, faça, diga, a verdade não muda: em mim também cabem sorrisos e amor, que crescem conforme os ciclos de claro e escuro intercalam-se.
O pior é saber que ainda cometerei erros enormes. Decepcionar e chatear você são erros dos piores: sei que cometerei, sei que terei a culpa, e ainda assim não posso detê-los. Minha vida ainda tem rumos a seguir, histórias para construir, frustrações e outros amores. Acredite. Eu me sinto incapaz, impotente e imbecil de não poder poupar que você presencie algumas coisas que talvez não te façam bem. Mas, eu preciso viver a minha vida. Preciso escrever minhas linhas tortas e respirar cada sopro de vida.
Soa clichê, mas eu também não posso fugir da palavra mais simples e significativa que consigo encontrar agora: desculpe. Por não ser quem você espera que eu seja, por não corresponder ao que você deseja e por ser tão burra, inquieta, e ainda assim consciente, de preferir viver pelo erro.