De olhos bem abertos

Não que eu não goste quando você me olha direto nos olhos. Não só gosto como me derreto. É quando tento me dividir em mil pedacinhos no desejo de estar sempre por perto de você, de ter você por perto. Encontro paz quando seus olhos rasgados sorriem pra mim antes mesmo que os lábios se movam. 
Não que eu não goste quando você me olha direto nos olhos. Mas, é quando te vejo de perfil, de frente para o mundo, que me apaixono ainda mais. É quando te pego distraído em pensamentos e vejo o piscar dos olhos acompanhar o andar da vida. Quando você olha pro mundo e o mundo te olha de volta, sei que pelo menos em alguma fração de segundo o mundo viu tudo o que vejo em você.
O mundo para cada vez em que você me olha nos olhos. É quando eu perco o medo do silêncio, porque entendo tudo o que nos trouxe até aqui. É quando vejo graça na diferença entre as suas duas pálpebras e logo me entrego em um riso fácil, porque além de fazer o mundo parar de girar, você também sabe fazer rir. E isso você faz muito bem.
Não que eu não goste quando você me olha nos olhos. Mas, quando você está de perfil vejo a sua maçã do rosto quase rosa e o cabelo liso que acompanha o seu contorno, das têmporas até o fim da orelha. É quando te observo dirigindo, com as luzes da noite correndo atrás de você, o vento entrando frio pela fresta da janela, que tento imaginar cada pensamento que mora dentro de você. É quando tenho vontade de desvendar cada aborrecimento e então, tirar todos eles de você. E então, você me percebe, olha de volta, e sorri. Porque qualquer que sejam os seus pensamentos, eles conversam com os meus.
O amor toma conta de tudo quando você me olha nos olhos. É quando cada mililitro de sangue pulsa mais intenso, ao mesmo tempo em que a respiração se acalma. E mesmo que o mundo nos dê as costas, o nosso amor vira o nosso abrigo. Quando você me olha nos olhos e eu entendo cada palavra que eles querem dizer, é quando eu digo mais uma vez que tudo vale a pena.
Não que eu não goste quando você me olha nos olhos. Mas, quando te vejo dormindo, sem me olhar de volta, eu me sinto onde sempre quis estar. Na calma do seu colo, no calor do seu abraço, na tranquilidade de viver com você. É quando eu me lembro, mais uma vez, que quero viver assim pra sempre. E agora, que você chegue de olhos bem abertos e me diga que sim, será pra sempre.

Sobre o que nunca te contei

Escrevo para te contar algo que nunca contei. Talvez você até suspeitasse depois de cada mensagem cheia de carinho, ou da vez em que te liguei cheia de vergonha para desejar feliz aniversário. Não que hoje eu goste, mas naquela época eu não suportava falar ao telefone. Mas, tudo bem, vamos direto ao ponto: você foi o meu primeiro amor.
Aqui eu estou falando de amor. Não em ser o primeiro de tudo. A primeira troca de cartas não foi com você – troquei alguns papéis amassados e mal escritos na escola. A primeira imagem de futuro sonhado olhando para o lado de fora da janela do carro não foi sobre você. O primeiro presente ganhado não foi seu – antes, ganhei uma caixa amarela em forma de coração, nem sei porque mas amarelo era minha cor favorita. Você não foi o meu primeiro roqueiro – outras pessoas já sabiam tocar violão. E nem mesmo o primeiro beijo foi seu.
Mas, você foi o meu primeiro amor e com ele, muita dor. Foi com você minha primeira ansiosa troca de SMS. Você foi o meu primeiro par de olhos rasgados. E também o meu desejo diário. Minha primeira vontade de gritar pro mundo. Minha primeira vontade de ser uma pessoa incrível. E, minha primeira perda. Doeu, mas passou.
Mas, tem outra coisa que nunca te contei. E essa, você nem imagina. Na última vez em que nos vimos, tantos anos depois do furacão que você deixou em mim, eu não me preocupei com a sua presença. Gostei que você queria muito me ver, mas a reviravolta da vida era mais legal do que ter você cheio de boas intenções na minha frente. Enquanto você veio de longe, sozinho, cheio de inseguranças nos bolsos, eu não tinha nem mesmo ansiedade para te oferecer. E sabe o que mais? Essa nem é a grande novidade que eu tenho para te contar.
O que nunca te contei é que naquele dia, enquanto você tentava me agradar com os seus assuntos para alguém que eu não era mais, sem nem mesmo pretender, eu encontrei o amor. O primeiro grande, verdadeiro, vivido e compartilhado amor. Eu sei, você mal suspeitava. É porque eu também não sabia. Isso eu nunca te contei.
Mesmo tentando lembrar muito, não consigo ter certeza sobre como aquele dia terminou para nós. Se nos despedimos, se você foi embora primeiro, se alguém chegou para te fazer companhia enquanto eu sem querer troquei olhares com alguém a caminho do banheiro. Lembro que nunca mais respondi o último SMS que você me mandou e naquela noite, não quis passar meu número de telefone para mais ninguém. Mas, mesmo sem trocar número de telefone, eu já estava marcada pelo maior amor que já senti na vida. Aquele foi só o primeiro dia de tantos outros. Foi só o primeiro sorriso fácil. O primeiro pulsar intenso. O primeiro dia completo. Naquele dia, o último dia em que nos vimos, eu me abri para o amor. E isso, eu nunca te contei.

Balão Azul

Não me lembro de ter tido um balão de gás hélio quando eu era criança, mesmo que provavelmente meus pais tenham me dado algum em forma de qualquer personagem colorido e com uma cabeça enorme. Mas se eu me lembrasse, provavelmente seria por segurar forte o cordão que o prende dentro da atmosfera. Apertando os dedos contra a palma da mão, até os dedos ficarem vermelhos, com o medo de deixa-lo partir. Voar sem destino, desregrado, sem ter como voltar pra casa.
Foi quando aos vinte anos me vi ganhando um grande balão azul. Quando eu digo grande é porque é grande de verdade. Do tipo que se abraça sem jeito, sem comportá-lo direito nos braços. Talvez ele fosse um balão branco, com detalhes em azul. Mas o branco, por ser tão branco, passa batido. Era um grande balão azul.
Mas não se tratava de um balão redondo, oval ou em forma de um simples balão. Meu grande balão azul era nada menos que um unicórnio, por mais que tenham insistido em dizer que não passava de um cavalo. Cavalos tem a crina penteada, escorrida e lisa. Meu unicórnio tinha o que faz dos cavalos unicórnios: uma protuberância, logo acima da cabeça, pouco pontuda, mas em espiral, caracolando suas voltas que se estendem às pontas da crina, em tons dois tons mais claros. Alguns dos cachos ainda se repetem no rabo, que não cai como o de um cavalo e sim se levanta em uma curva delicada. Se for como o que dizem sobre os cachorros, esse é um unicórnio sorridente.
Sua cabeça branquinha é vencida pela vivacidade dos dois grandes olhos, que brilham arredondados em azul turquesa. Seu pequeno nariz, e o traço que guarda sua boca são pequenos detalhes perto das tiras de sua sela, também azuis, com pedrinhas rosas e amarelas. Estendendo-se pelo pescoço, em forma de um xale com franjinha macia nas pontas, o arreio acolchoado amacia-se no dorso do unicórnio. Com borda dourada, a sela continua cravejada em suas extremidades, com dois grandes pompons de franja robusta, com fios dourados e pouco despenteados por natureza, pela normalidade de um unicórnio que flutua em sua pureza contraditoriamente forte. Sua patas, congeladas num movimento delicado são também brancas, com cascos brilhantes como anil.
Era um grande balão azul. Maior que uma criança de cinco anos de idade, mas com força que diriam ser de gente grande. Durou mais do que diriam, menos do que deveria. Como todo balão, ele também murchou aos poucos. Mas, por longos cinco dias ele preencheu o canto do meu quarto, perto da janela, refletindo o verde-água das paredes, brilhando com o sol. Sem fugir de mim no meio da tarde, ficou preso à escrivaninha que tantas vezes me debrucei para escrever sobre o amor e tantas outras coisas. Sobre o quanto eu queria ali, na vivacidade de um aniversário de vinte anos, ganhar um balão que preenche o quarto todo, a cada inteira e dá sentido a duas décadas de uma vida.
O vazio que ele deixou seria semelhante se tivesse explodido em seu segundo dia. Mas ele murchou, murchou, ficou fraco e começou a descer pelas paredes. Até que se deitou. Recolhi seu corpo então amolecido, mas não menos brilhante. Alisei com as duas mãos, até esvaziar-se por completo. Dobrei em quatro, afinal, um grande balão azul precisa de muito espaço para ser devidamente guardado. Então, guardei. No bagageiro do meu armário, junto com todas as outras lembranças que me trouxeram até aqui.
Ficou aqui o vazio, que nada pode preencher ou consertar. E mesmo a dor do vazio é remendada com amor, pelo sopro de esperança que preencheria o balão de novo, como antes. Segurei forte o cordão que prendia meu balão azul e ainda assim ele se foi. Mas, ele sabe o caminho da volta. 

Mundo de roucos

(Texto cedido gentilmente por um grande amigo, que apelidei carinhosamente pelo pseudônimo Agenor Lebris. Obrigada pelo texto lindo e pela inspiração que é tê-lo como amigo!).

Foram tempos de agitação
De caras pintadas
E bombas na mão
De tiro e de espada

Amor e aflição

Vivia trancado
Com livros e não
Saía do quarto,
Cruzava o portão
Conhecia o mundo
Mas sem a intenção
De mudar o retrato
Daquela nação
Não via seriedade
Na conspiração
Ria de escárnio
Da revolução

Via você
E a procissão
Bloquear a avenida
Com bandeiras na mão
Trazia consigo
A mesma expressão
De quem todo dia
Matava um leão
De quem dava a vida
Por libertação
De quem quer o todo
E não um tostão

E há quem vá perguntar
Quem converteu
O cético prático, o cínico ateu
Em lucido tático, soldado plebeu
E vou dizer que
Você denunciou a praga
E me fez gemer
Mostrou a chaga
Me fazendo crer
Que o futuro um dia
Poderá valer
A pena que queima,
E vemos arder.

Justiça das mãos
Se faz sem recusa:
Direita em punho
Esquerda na sua
De dia na toca
De noite na rua
Na rua em que o silêncio
da separação perpetua
Quando se acorda
Também se assusta
E o fogo queimou
Uma pele nua
Perdido, sozinho
Pedindo ajuda
Seu sopro se foi
E acabou a disputa

Que dessa história não se façam livros
Livros amassam, livros viram mitos

Deixem que a boca distorça os fatos
Deixem a estrada afastar os contatos
A memória cuidará dos cacos

Porque fomos loucos
Metendo os pés
Na dança dos outros
Erguendo a voz
Num mundo de roucos.

Polaroides

Curiosamente adiantada, pela simplicidade de esperar alguém que chega depois, a batida do salto da bota compassava com a melodia de Justice, que ecoava nos fones de ouvido. Com a cabeça fora dali, os olhos acompanhavam o subir e descer dos carros, tentando adivinhar de qual deles sairia quem eu esperava. Com medo de não reconhecer, era melhor ficar ali, parada, esperando que alguém então viesse.
Nessa dezena de minutos, um senhor com uma bengala demorou metade desse tempo para atravessar a marquise, chegando ao meu lado na calçada. Olhei, acenei com a cabeça e sorri de canto de boca. Ele, então, quase como quem atravessou muralhas para chegar até ali, sentiu-se na missão de mostrar para que veio. E não veio à toa, veio à tona “Não é certo uma moça esperar por um rapaz”, a lição de moral guardava um certo riso simpático. “Às vezes a gente espera pelo o que nunca chega”. – Espero que chegue -, respondi por fim, sorrindo com a simpatia em primeiro plano.
E chegou. De jaqueta de couro, palavras de desculpa e elogios para a meia-calça de coração que parecia rins. Entre as paredes vermelhas e o corredor arredondado, ninguém mais parecia estar ali, fora de toda a metáfora para duas pessoas que esquecem do mundo – o mundo é que esqueceu de estar ali. Todos os comentários ecoavam, minha caneta rabiscava no papel e pela única vez senti que estava no lugar certo.

De volta às ruas que sobem e descem, outro senhor que ao invés da bengala, ocupava suas mãos dirigindo um táxi, questionou porque jovens casais saiam tanto sozinhos. – É, né -, respondi. Talvez eles não fossem casais, ou fossem jovens demais. Ou nem mais jovens fossem para serem casais, ou caso casais fossem para serem jovens, talvez fossem sozinhos por si só.

Falei até o que não queria sobre mim, num impulso em que barreiras se quebraram. Parecia que eu já havia estado naquele mesmo balcão, mas conversava com uma pessoa que, assim como uma caixa de surpresas, ainda havia muito pra me mostrar. E eu mal poderia imaginar todas as polaroides que viriam, depois daquela sintonia azul, e do beijo tranquilo.
Ainda um pouco bêbada e apressada, fui para casa sem as chaves. Achei graça em andar pelas ruas, em ter que tocar a campainha para alguém abrir. Achei graça em ir embora para depois voltar. –  Às vezes a gente espera pelo o que nunca chega. Mas, às vezes a gente se espera, para ter de volta aquilo que chegou uma vez e virá ainda melhor.

Bota número 39

Era meio dia e qualquer minuto perto do atraso. Um dia depois em que uma vida transbordando foi estancada. De dentro do ônibus, num engarrafamento, a calçada fez-se cenário. Um morador de rua sentado com as pernas esticadas pegou uma pedra acinzentada, de prontidão a escrever o que tanto o incomodava. Além das roupas surradas, ele calçava um par de botas de couro, já batidas, com furos na ponta, mostrando as meias encardidas.
Não pensou duas vezes e ali escreveu “Bota número 39”. Ele tinha duas delas, furadas. Talvez gostasse delas, precisasse de um par novo ou tivesse acabado de ganhá-las. Ou mesmo que detestasse. Escreveu pelo incômodo, pela perturbação e pela importância.

Há meses e dias atrás, quando o começo ainda prometia mudanças positivas, andávamos de botas pela mesma calçada numa manhã de sábado. Era começo de inverno, mas fazia sol. As botas batiam no chão e as pessoas nos olhavam. Não pelo barulho. Ou pelo menos não pelo barulho dos saltos de couro. Existia ali outro ruidoso som que incomoda. O da felicidade.
E com ela fizemos música. Fizemos uma história. Cada dia ruim fora transformado em melodia e a sinceridade que só algo simples e da alma poderia fazer. Criamos laços que não se desprendem e não dependem de mais nada para existir. Se não se pode tirar a saudade de um corpo, as lembranças estão em camadas ainda mais profundas.

E então, as botas novas tornaram-se batidas. Eram nove horas e qualquer minuto perto do fim. E de repente, bastaram sessenta segundos compactados a vácuo, num instante sem razão ou dor. Pra trazer 180 dias de melancolia. A alegria congelou naquele momento, dando lugar à simples meta de respirar sem ter que pensar para fazê-lo. Ficam as promessas e permanece a certeza. Um coração grande e dedicado não acontece duas vezes. Talvez nem mesmo uma. E não há motivo algum ou razão que me convença por ter ficado tão assim, sim, sem. Porém, poucos são aqueles que têm a dádiva de guardar um bom amor e estendê-lo, a cada novo dia. E menos ainda são aqueles que, mesmo longe, podem guardar isso para sempre.

O outono está chegando e com eles as botas. E com esse giz devo me sentenciar. Escrevemos sobre o que ganhamos, perdemos e sentimos falta. Sobre o que amamos. As botas número 39 não me servem, mas que fiquem aqui, dois pares de botas número 17. “É só lembrar que o amor é tão maior”.

Espero o dia.

Navegar é preciso

Peguei um papel colorido, conferi se tinha grafite na lapiseira e me pus a desenhar. Como se os rabiscos no caderninho, que custou um ano inteiro para quase acabar, tivessem ficado para trás. Eu desenhara na minha mente a moldura redonda, detalhada e os cabelos compridos da menina com chapéu de marinheiro. Como se eu não tentasse desde a infância desenhar com perfeição. Como se eu não tentasse há meses ser quem eu não sou, para superar o que não sei fazer pelas minhas próprias mãos.

Acordei no fim das férias, ainda precisando processar tudo o que havia acontecido enquanto estive em outra cidade. Com preguiça de abrir os olhos, o fiz por curiosidade de ver de onde vinha tanta luz. Estava em um cômodo branco, frio e um barulho contínuo me dizia que meu coração b-a-t-i-a n-o r-i-t-m-o. Algo preso no meu dedo me monitorava. Duas pessoas me monitoravam depois desse susto irreal que me deram. Parecia novela, mas era tão vida real que doía.
De repente o certo virou o errado, como uma fase brusca sem meio termo. Caí num tropeço, subindo as escadas, e tudo o que eu carregava na minha bolsa se espalhou pelo chão. Restando a mim, recolher cada objeto, assoprando a poeira e revendo sua necessidade. Tive que pegar cada pedaço dos copos de vidro tentando não cortar as mãos, entendendo que ainda assim eu precisaria deles.
Eu não vou contra a maré sem colete salva vidas. Aprendi a nadar quando era criança mas me assustei com o mar algumas vezes e hoje tenho medo. Medo de tudo, como sempre tive. Só nadei até aqui porque fui guiada por um sopro de calmaria na tempestade. E mesmo que eu engolisse água, minha cabeça permaneceu o tempo todo na superfície. “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Ontem acordei no meio de uma noite mal dormida e nem mil miligramas anestesiariam o que, mesmo seis meses depois, ainda latejava. Já eram novas férias e a novela se repetia. Mas tudo ainda custava o desgaste e valia a pena. O sopro de calmaria era uma respiração leve, que ficava forte durante o sono. Enquanto as energias eram recarregadas, os olhos rasgados viravam traços e mesmo a respiração forte me parecia calma. Tão calma quanto o caminhar de botas de veludo, o sorriso engraçado e a delicadeza das palavras.
Eu me enganei ao pensar que caminhar a dois seria tão fácil quanto deitar numa rede no fim da tarde. Porém, acertei ao descobrir que prova de amor não vem em forma de flores, e sim em viver o que se vive. Foi tentando desenhar que eu entendi, que todas as voltas dessa vida me levaram a descobrir como ser feliz depende da dor. E foi tentando desenhar que eu percebi, que nessa via dupla do amor estamos no mesmo sentido, juntos, pelo o que dói e pelo o que faz sorrir.

Nó de marinheiro

Um olhar à espreita, fixo na porta. Em dúvida se tem pressa de ir embora ou se quer que você chegue logo. Fingindo ser desavisado, como quem fica de costas mas vira-se a todo momento, naturalmente, para olhar pelos cantos.
E você vem. Chega devagar, tão surpreso quanto eu. Já que, realmente, acreditei que essa cena jamais se repetiria. Você, tão ridículo, fingindo saber o que dizer, quando na verdade a gente nunca sabe. Sem saber o que dizer e ainda assim dizendo muito, parece que nada nunca aconteceu. Que eu jamais quis que os dias passassem devagar para não descobrir o fim – que não existe, ou que passassem bem depressa para aceitar da noite para o dia. Mas, lá estávamos nós, tão sós, tão nós, cheios e presos por nós impossíveis de desatar. Como aqueles dos marinheiros.
Eu me senti como se ainda estivesse começando. Aliás, sempre me sinto. Tão entusiasmada como se fosse novo, tão curiosa como se pudesse descobrir cada pedaço de novidade. E tão contraditoriamente segura o suficiente para ser o que eu sou. O que nós somos.
Quatro músicas que poderiam durar para sempre. Quatro músicas que podiam misturar todas as experiênicas instrumentais que, ainda assim, seriam sinfônicas. Absurdamente conectadas, quimicamente fundidas ou seja lá o que for, só para dizer que damos certo juntos.
Estive pensando tanto no que já fui e nas remotas possibilidades de ser, novamente, que tudo me parecera devaneios. Quis tanto estar ali que, agora, me parece uma lembrança surreal de um passado próximo. Muito próximo.

A eterna sensação de que, a qualquer momento, alguém vai dizer o que pensou esse tempo todo. Momento oficialmente necessário, clandestinamente desimportante frente ao olhar sincero e devastador. E nós nunca vamos saber.

Sonho de uma noite de janeiro

Dois meses e três dias estavam sendo completados naquela mesa do restaurante. Ninguém estava pretendendo comemorar demais e nem demonstrar ter se dado conta do tempo que havia se passado. Do certo tipo de casal que usa o tempo ao invés de contá-lo. Ela já revirava a calda da sobremesa com o garfo, formando desenhos abstratos cor de frutas vermelhas enquanto apoiava a cabeça na outra mão. Não era cansaço, só havia comido demais. E ele só observava com um riso de canto de boca a maneira bagunçada com que o cabelo dela se comportava na cabeça, o tom desligado com que ela conversava sobre filmes de E.T.
Foram duas tardes no parque, uma delas com direito a passeio de bicicleta e água de coco. Três exposições de arte, uma de fotografia e ajuda em todas com os acertos finais das resenhas, sempre repetitivas aos olhos dela. Sempre inspiradoras aos olhos dele. Algumas festas divertidas que perderam as contas, uma festa errada pra dar sono e ir embora cedo. Uma visita de três horas ao brechó e outra de quinze minutos ao shopping.
Algo perto de vinte e poucas ligações, mensagens sobre o clima do dia, ou sobre qualquer outra coisa banal e um monte de música compartilhada em redes sociais. Companhia pra terminar aquele trabalho infernal de começo de semestre e somente três dias de silêncio total. Os quatro amigos dele que ela conheceu e gostou, exceto o quinto deles que faz piadas de mau gosto. E as quase dez meninas apresentadas a ele, um pouco parecidas e faladeiras demais pra que ele tivesse tempo de decorar os nomes todos. As seis estações de metrô e o tênis vermelho igualzinho.
Aquela era a primeira vez que saiam pra jantar demoradamente, com direito a sorvete na sobremesa. Pouco antes estiveram no cinema, pela segunda vez, e ela sabia que alguém que a levasse pela mão até o cinema faria mais do que alguém que a espera na porta da balada. Dava pra perceber aonde aquilo ia chegar, e logo que o assunto de extraterrestres terminou, num engasgo, ela se dispôs a falar. Aquele tempo todo não havia parado de pensar no que gostaria de estar vivendo. Ela tinha toda a noção de que dois meses e três dias haviam passado sem que ela pudesse sentir o que deveria estar sentindo. E não podia mais. Ele pediu apenas um favor e ela não seria capaz de negar.
Ela voltou pra casa de metrô para que tivesse mais tempo pra pensar, e ainda foi pouco. Faltariam dias para tentar entender o que estava sendo posto em prova. O pouco que foi dito e o muito que foi feito. Ou o contrário.
O dia seguinte foi o dia de olhar para o espelho e escolher não mais viver a sombra de alguém. De assumir a estática no ambiente em que eles estão juntos. A certeza resguardada de que o melhor está para vir. Fazia quase um mês que ela não o via e estranhou quando, ainda de longe, o viu vestido de vermelho, sentado na beirada do lago artificial. O dia estava nublado mas claro o suficiente pra precisar de óculos de sol.
Ela andou dois passos e parou. Ele estava de cabeça baixa mexendo no celular sem percebê-la por perto. Foi quando ela sentiu a pressão de existir de verdade e colocar em risco a possibilidade de perder de verdade. Lembrou-se de todos os textos mascarados, quando trocava os substantivos para disfarçar. Quando se alegrava com cada frase mal formulada e ingênua. E cada vez que sentiu raiva da imbecilidade da negação.
Meio passo avançado sem querer e ele levantou os olhos para ela. Como já foi dito, era impossível não se perceberem dividindo o mesmo espaço. Ele a olhou sorriu, mas esperou que terminasse de caminhar em direção a ele. A abraçou forte e a tirou do chão, com a diferença de quem mede mais de um e oitenta de altura. Sem dizer nada por sete segundos infinitos, ela abriu a boca para balbuciar algo que nem lembra quando ele antecipou-se “Sim, fizemos tudo errado. Vamos reforçar cada laço”.Como resposta, ela deveria cumprir o favor prometido. E cumpriu. “Pediram-me um favor. Pediram-me para ser menos medíocre e mais sincera. Pra que não percamos tempo fingindo que não nos importamos. Para nos darmos a chance que sempre quisemos”. O dia em que a covardia foi perdida. Quando se escolheu tentar ser feliz ao invés de fingir ser feliz.

Meia-calça

Meu secador de cabelos está beirando o curto circuito e não desliga mais, precisando ser puxado pelo fio, mesmo que de qualquer jeito, para desconectar da tomada. Os botões de regulagem se movem sem sentido: a velocidade permanece no máximo e a temperatura é a mais quente possível. E eu ainda o uso, e usarei até quando o cheiro de queimado tornar-se o próprio queimado em si.
Com as orelhas pegando fogo, eu secava os cabelos enquanto sentia a corrente de vento passando pelos pés. A fresta da porta aberta que a conecta com a janela quase fechada. Eu ia, nem que fosse sozinha e pelas próprias pernas. Era maio, e eu merecia sair de casa por simplesmente sair de casa e fazer minha vontade. 
No caminho tratei de comer os biscoitos integrais, já que o café da manhã insistiu em ficar gelado na mesa da cozinha, não descia por nada. Quando ainda havia dedicação, abri um livro e li coisas sobre civilização e leis de trânsito. Uma, duas e a estação chegou. Lugar desconhecido e eu mal havia pensado por onde começar. Um número nunca discado e eu mal havia pensado por onde começar.
Tentei ser ruiva, mas tive que ser o que me sobrou pra ser. Em pé, sem graça. Retrocedendo no calendário e as palavras saindo naturais da minha boca, como quem não entende porque demorou tanto tempo para as coincidências acontecerem. Exclamações surpreendentes e minha bolsa apoiada no chão, em meio a tantas pessoas mais desconhecidas ainda. Num piscar de olhos o rádio começou a tocar e eu era a única que não conhecia a melodia inteira. A única.
Two steps e o mundo girou devagar. Aquele era um mundo novo e eu gostava muito disso. Minha falta de habilidade em rir quando fico constrangida e duas olhadas no espelho: “não precisa”.
De volta à quinta série, no canto atrás da lavanderia. Sem acreditar. Uma divagação tão longa pra quem sempre conversou. Deitados na grama, sem olhar o céu, de frente pra um palco de um festival de rock. O chaveiro e a meia-calça. Abri a porta e desci. Naquele momento eu não esperava nada, não sabia se devia esperar, e nem mesmo sabia o que esperar. Mas a certeza era factual: eram novos tempos.