Primavera chuvosa

Nasci em Novembro. Em plena primavera de muita chuva, na madrugada de uma quarta-feira. Era dia 25, então isso me fez sagitariana. 
Durante a infância eu ainda não entendia direito o que eram os signos, achava que era um grande misticismo sem sentido. Eu sabia que minha irmã era leonina de personalidade forte e sempre achei que isso tinha tudo a ver com ela. Na adolescência eu lia os horóscopos das revistas sem me reconhecer ali. Lembro que cheguei a comprar um livrinho de sessenta páginas sobre o meu signo. A capa era vermelha e o conteúdo dizia que eu era aventureira e corajosa. Cresci mais um pouco e percebi que me identificava com as pessoas do meu signo. Numa amizade magnetizada em que a simpatia era mútua e quase automática. Com algumas excessões, como tudo nessa vida.
Como eu, logo eu, insegura, medrosa, que sempre queria companhia pra tudo poderia ser aventureira e destemida?
Sempre amei viajar. Acho que isso veio sem pedir licença no pacotinho da família. Mas nunca achei que me jogaria no mundo sozinha com uma mochila nas costas.
Como eu, logo eu, apegada às pessoas e quase altruísta poderia ser insensível. Ou ainda, como eu sempre maleável poderia ser tão facilmente entediada com as coisas e sempre precisando de novidades?
Mas aí eu viajei sozinha mais de uma vez. Tive pensamentos que guardo como fotografias na minha cabeça. Superei uns medos que ainda me ocorrem, mas vi que sou capaz de passar por cima. Depois de cada viagem eu sempre sou tomada por um sentimento vazio único e insuperável. Minha cabeça funciona melhor quando eu tô por aí.
Mas, o que mais me fez perceber sagitariana foi a coragem. A coragem de ser intensa, de respeitar meus sentimentos e de ser verdadeira. Escolhi os caminhos mais longos, menos fáceis e mais lentos. Não sei aonde vão me levar, além da sincronia com o meu coração. E, na verdade, eu sou ele e ele sou eu. E isso talvez seja a coisa da qual mais me orgulho atualmente. Nunca se deve pedir desculpas por ser quem se é. De resto, ainda devo aprender algo mais sobre o nono dos signos. E continua chovendo em todos os meus aniversários.

Sobre voltar a escrever

Então, parece que voltei a escrever. Me sinto em débito com o que sempre gostei de fazer e o sentimento de “preciso voltar a escrever” sempre foi mais acompanhado de culpa do que de inspiração. E não que me falte inspiração. Aliás, por mais que a falta de textos por aqui me denuncie, não sinto como se nunca mais tivesse escrito. Quando me perguntam se ainda escrevo, nunca respondo “não, nunca mais escrevi” e sim “sim, de vez em quando, mas só pra mim mesma”. E aqui, o escrever para mim mesma significa quatro rascunhos de textos no blog, nenhum escrito à mão, oito anotações não terminadas no bloco de notas do celular, cinco ou seis textos praticamente prontos na cabeça (alguns há anos) e muitas frases formadas, dormindo e acordando comigo, todos os dias.
Quando comecei a escrever fora da escola, sem ser para as aulas de redação onde eu sempre escrevia mais páginas do que deveria, eu escrevia à mão. Em um caderno com capa feia, do material escolar básico do ensino público, eu escrevi textos enormes, tão cheios de experiências e sentimentos reais, mas nunca vividos. Naquela época, só havia um computador em casa, que ficava em uma área comum da casa. Eu gostava de escrever sozinha, de madrugada, quando o único barulho era o estalar dos móveis de madeira. Eu já tinha entendido que a máquina de escrever não era uma boa ideia, mas sonhava com um notebook. Eu achava que com isso em mãos eu poderia escrever todos os dias. Mas, escrevia à mão. Uma vez por semana, ou sempre que juntava palavras na cabeça. Eu sentava na mesma escrivaninha em que estou agora, colocava um CD no discman, e quase sempre chorava escrevendo. Foi nessa época que eu descobri a importância das palavras não só para expressar, mas para entender o que eu sentia e o que eu era. E muito daquilo tudo eu ainda sou.
Algum tempo depois, entrei na Faculdade de Jornalismo, onde eu sempre achei que escreveria ainda mais. E escrevi, que fique claro. Mas, não sobre tudo o que eu imaginava que escreveria. Fiz longos textos sobre assuntos que nunca me interessaram e alguns outros muito legais, mas sobre argumentos que nem tenho mais. Ainda me restavam momentos em que eu podia escrever pelas paredes, mas no laboratório de informática da Faculdade, ou ainda, no meu tão sonhado notebook, o qual não usei para escrever todos os dias de madrugada. De certa forma, lembro de ter aplicado minha inspiração e me colocado em resumos sobre livros e tantas outras coisas que mexeram comigo. Não escrevi no blog, mas me expressei de outras maneiras. Então, realizei o sonho de escrever meu próprio livro. E por mais amador que tenha sido, pensei e escrevi coisas que nunca imaginei. Certas coisas que guardei na cabeça continuam aqui. Essa experiência valeu mais que qualquer post diário num blog sem leitores (ainda que o livro nem tenha tido tantos leitores assim).
Um ano após ter terminado a Faculdade e enfim ter tempo “livre” para escrever sobre o que bem entendesse, me flagrei em total descumprimento criativo. E mais do que nunca, senti que era hora do exercício do escrever. Por muito tempo eu mantinha uma frase padrão comigo mesma que dizia “se algo não me faz ter vontade de escrever, não me faz sentir”. E nesses últimos tempos eu senti muito daquilo que eu já havia escrito sem nem mesmo saber direito como era e, ainda assim, não escrevi. As letras se misturaram com sentimentos, cansaço e também (vamos admitir) preguiça. Voltei a rever vários rascunhos, anotei no papel as ideias que moram na minha cabeça e parece que estou cheia de planos. E me sinto como a menina de treze anos novamente. Então, parece que voltei a escrever.