Sobre o que nunca te contei

Escrevo para te contar algo que nunca contei. Talvez você até suspeitasse depois de cada mensagem cheia de carinho, ou da vez em que te liguei cheia de vergonha para desejar feliz aniversário. Não que hoje eu goste, mas naquela época eu não suportava falar ao telefone. Mas, tudo bem, vamos direto ao ponto: você foi o meu primeiro amor.
Aqui eu estou falando de amor. Não em ser o primeiro de tudo. A primeira troca de cartas não foi com você – troquei alguns papéis amassados e mal escritos na escola. A primeira imagem de futuro sonhado olhando para o lado de fora da janela do carro não foi sobre você. O primeiro presente ganhado não foi seu – antes, ganhei uma caixa amarela em forma de coração, nem sei porque mas amarelo era minha cor favorita. Você não foi o meu primeiro roqueiro – outras pessoas já sabiam tocar violão. E nem mesmo o primeiro beijo foi seu.
Mas, você foi o meu primeiro amor e com ele, muita dor. Foi com você minha primeira ansiosa troca de SMS. Você foi o meu primeiro par de olhos rasgados. E também o meu desejo diário. Minha primeira vontade de gritar pro mundo. Minha primeira vontade de ser uma pessoa incrível. E, minha primeira perda. Doeu, mas passou.
Mas, tem outra coisa que nunca te contei. E essa, você nem imagina. Na última vez em que nos vimos, tantos anos depois do furacão que você deixou em mim, eu não me preocupei com a sua presença. Gostei que você queria muito me ver, mas a reviravolta da vida era mais legal do que ter você cheio de boas intenções na minha frente. Enquanto você veio de longe, sozinho, cheio de inseguranças nos bolsos, eu não tinha nem mesmo ansiedade para te oferecer. E sabe o que mais? Essa nem é a grande novidade que eu tenho para te contar.
O que nunca te contei é que naquele dia, enquanto você tentava me agradar com os seus assuntos para alguém que eu não era mais, sem nem mesmo pretender, eu encontrei o amor. O primeiro grande, verdadeiro, vivido e compartilhado amor. Eu sei, você mal suspeitava. É porque eu também não sabia. Isso eu nunca te contei.
Mesmo tentando lembrar muito, não consigo ter certeza sobre como aquele dia terminou para nós. Se nos despedimos, se você foi embora primeiro, se alguém chegou para te fazer companhia enquanto eu sem querer troquei olhares com alguém a caminho do banheiro. Lembro que nunca mais respondi o último SMS que você me mandou e naquela noite, não quis passar meu número de telefone para mais ninguém. Mas, mesmo sem trocar número de telefone, eu já estava marcada pelo maior amor que já senti na vida. Aquele foi só o primeiro dia de tantos outros. Foi só o primeiro sorriso fácil. O primeiro pulsar intenso. O primeiro dia completo. Naquele dia, o último dia em que nos vimos, eu me abri para o amor. E isso, eu nunca te contei.

Deixe um comentário