Balão Azul

Não me lembro de ter tido um balão de gás hélio quando eu era criança, mesmo que provavelmente meus pais tenham me dado algum em forma de qualquer personagem colorido e com uma cabeça enorme. Mas se eu me lembrasse, provavelmente seria por segurar forte o cordão que o prende dentro da atmosfera. Apertando os dedos contra a palma da mão, até os dedos ficarem vermelhos, com o medo de deixa-lo partir. Voar sem destino, desregrado, sem ter como voltar pra casa.
Foi quando aos vinte anos me vi ganhando um grande balão azul. Quando eu digo grande é porque é grande de verdade. Do tipo que se abraça sem jeito, sem comportá-lo direito nos braços. Talvez ele fosse um balão branco, com detalhes em azul. Mas o branco, por ser tão branco, passa batido. Era um grande balão azul.
Mas não se tratava de um balão redondo, oval ou em forma de um simples balão. Meu grande balão azul era nada menos que um unicórnio, por mais que tenham insistido em dizer que não passava de um cavalo. Cavalos tem a crina penteada, escorrida e lisa. Meu unicórnio tinha o que faz dos cavalos unicórnios: uma protuberância, logo acima da cabeça, pouco pontuda, mas em espiral, caracolando suas voltas que se estendem às pontas da crina, em tons dois tons mais claros. Alguns dos cachos ainda se repetem no rabo, que não cai como o de um cavalo e sim se levanta em uma curva delicada. Se for como o que dizem sobre os cachorros, esse é um unicórnio sorridente.
Sua cabeça branquinha é vencida pela vivacidade dos dois grandes olhos, que brilham arredondados em azul turquesa. Seu pequeno nariz, e o traço que guarda sua boca são pequenos detalhes perto das tiras de sua sela, também azuis, com pedrinhas rosas e amarelas. Estendendo-se pelo pescoço, em forma de um xale com franjinha macia nas pontas, o arreio acolchoado amacia-se no dorso do unicórnio. Com borda dourada, a sela continua cravejada em suas extremidades, com dois grandes pompons de franja robusta, com fios dourados e pouco despenteados por natureza, pela normalidade de um unicórnio que flutua em sua pureza contraditoriamente forte. Sua patas, congeladas num movimento delicado são também brancas, com cascos brilhantes como anil.
Era um grande balão azul. Maior que uma criança de cinco anos de idade, mas com força que diriam ser de gente grande. Durou mais do que diriam, menos do que deveria. Como todo balão, ele também murchou aos poucos. Mas, por longos cinco dias ele preencheu o canto do meu quarto, perto da janela, refletindo o verde-água das paredes, brilhando com o sol. Sem fugir de mim no meio da tarde, ficou preso à escrivaninha que tantas vezes me debrucei para escrever sobre o amor e tantas outras coisas. Sobre o quanto eu queria ali, na vivacidade de um aniversário de vinte anos, ganhar um balão que preenche o quarto todo, a cada inteira e dá sentido a duas décadas de uma vida.
O vazio que ele deixou seria semelhante se tivesse explodido em seu segundo dia. Mas ele murchou, murchou, ficou fraco e começou a descer pelas paredes. Até que se deitou. Recolhi seu corpo então amolecido, mas não menos brilhante. Alisei com as duas mãos, até esvaziar-se por completo. Dobrei em quatro, afinal, um grande balão azul precisa de muito espaço para ser devidamente guardado. Então, guardei. No bagageiro do meu armário, junto com todas as outras lembranças que me trouxeram até aqui.
Ficou aqui o vazio, que nada pode preencher ou consertar. E mesmo a dor do vazio é remendada com amor, pelo sopro de esperança que preencheria o balão de novo, como antes. Segurei forte o cordão que prendia meu balão azul e ainda assim ele se foi. Mas, ele sabe o caminho da volta. 

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