Curiosamente adiantada, pela simplicidade de esperar alguém que chega depois, a batida do salto da bota compassava com a melodia de Justice, que ecoava nos fones de ouvido. Com a cabeça fora dali, os olhos acompanhavam o subir e descer dos carros, tentando adivinhar de qual deles sairia quem eu esperava. Com medo de não reconhecer, era melhor ficar ali, parada, esperando que alguém então viesse.
Nessa dezena de minutos, um senhor com uma bengala demorou metade desse tempo para atravessar a marquise, chegando ao meu lado na calçada. Olhei, acenei com a cabeça e sorri de canto de boca. Ele, então, quase como quem atravessou muralhas para chegar até ali, sentiu-se na missão de mostrar para que veio. E não veio à toa, veio à tona “Não é certo uma moça esperar por um rapaz”, a lição de moral guardava um certo riso simpático. “Às vezes a gente espera pelo o que nunca chega”. – Espero que chegue -, respondi por fim, sorrindo com a simpatia em primeiro plano.
E chegou. De jaqueta de couro, palavras de desculpa e elogios para a meia-calça de coração que parecia rins. Entre as paredes vermelhas e o corredor arredondado, ninguém mais parecia estar ali, fora de toda a metáfora para duas pessoas que esquecem do mundo – o mundo é que esqueceu de estar ali. Todos os comentários ecoavam, minha caneta rabiscava no papel e pela única vez senti que estava no lugar certo.
De volta às ruas que sobem e descem, outro senhor que ao invés da bengala, ocupava suas mãos dirigindo um táxi, questionou porque jovens casais saiam tanto sozinhos. – É, né -, respondi. Talvez eles não fossem casais, ou fossem jovens demais. Ou nem mais jovens fossem para serem casais, ou caso casais fossem para serem jovens, talvez fossem sozinhos por si só.
Falei até o que não queria sobre mim, num impulso em que barreiras se quebraram. Parecia que eu já havia estado naquele mesmo balcão, mas conversava com uma pessoa que, assim como uma caixa de surpresas, ainda havia muito pra me mostrar. E eu mal poderia imaginar todas as polaroides que viriam, depois daquela sintonia azul, e do beijo tranquilo.
Ainda um pouco bêbada e apressada, fui para casa sem as chaves. Achei graça em andar pelas ruas, em ter que tocar a campainha para alguém abrir. Achei graça em ir embora para depois voltar. – Às vezes a gente espera pelo o que nunca chega. Mas, às vezes a gente se espera, para ter de volta aquilo que chegou uma vez e virá ainda melhor.