Era meio dia e qualquer minuto perto do atraso. Um dia depois em que uma vida transbordando foi estancada. De dentro do ônibus, num engarrafamento, a calçada fez-se cenário. Um morador de rua sentado com as pernas esticadas pegou uma pedra acinzentada, de prontidão a escrever o que tanto o incomodava. Além das roupas surradas, ele calçava um par de botas de couro, já batidas, com furos na ponta, mostrando as meias encardidas.
Não pensou duas vezes e ali escreveu “Bota número 39”. Ele tinha duas delas, furadas. Talvez gostasse delas, precisasse de um par novo ou tivesse acabado de ganhá-las. Ou mesmo que detestasse. Escreveu pelo incômodo, pela perturbação e pela importância.
Há meses e dias atrás, quando o começo ainda prometia mudanças positivas, andávamos de botas pela mesma calçada numa manhã de sábado. Era começo de inverno, mas fazia sol. As botas batiam no chão e as pessoas nos olhavam. Não pelo barulho. Ou pelo menos não pelo barulho dos saltos de couro. Existia ali outro ruidoso som que incomoda. O da felicidade.
E com ela fizemos música. Fizemos uma história. Cada dia ruim fora transformado em melodia e a sinceridade que só algo simples e da alma poderia fazer. Criamos laços que não se desprendem e não dependem de mais nada para existir. Se não se pode tirar a saudade de um corpo, as lembranças estão em camadas ainda mais profundas.
E então, as botas novas tornaram-se batidas. Eram nove horas e qualquer minuto perto do fim. E de repente, bastaram sessenta segundos compactados a vácuo, num instante sem razão ou dor. Pra trazer 180 dias de melancolia. A alegria congelou naquele momento, dando lugar à simples meta de respirar sem ter que pensar para fazê-lo. Ficam as promessas e permanece a certeza. Um coração grande e dedicado não acontece duas vezes. Talvez nem mesmo uma. E não há motivo algum ou razão que me convença por ter ficado tão assim, sim, sem. Porém, poucos são aqueles que têm a dádiva de guardar um bom amor e estendê-lo, a cada novo dia. E menos ainda são aqueles que, mesmo longe, podem guardar isso para sempre.
O outono está chegando e com eles as botas. E com esse giz devo me sentenciar. Escrevemos sobre o que ganhamos, perdemos e sentimos falta. Sobre o que amamos. As botas número 39 não me servem, mas que fiquem aqui, dois pares de botas número 17. “É só lembrar que o amor é tão maior”.
Espero o dia.