Navegar é preciso

Peguei um papel colorido, conferi se tinha grafite na lapiseira e me pus a desenhar. Como se os rabiscos no caderninho, que custou um ano inteiro para quase acabar, tivessem ficado para trás. Eu desenhara na minha mente a moldura redonda, detalhada e os cabelos compridos da menina com chapéu de marinheiro. Como se eu não tentasse desde a infância desenhar com perfeição. Como se eu não tentasse há meses ser quem eu não sou, para superar o que não sei fazer pelas minhas próprias mãos.

Acordei no fim das férias, ainda precisando processar tudo o que havia acontecido enquanto estive em outra cidade. Com preguiça de abrir os olhos, o fiz por curiosidade de ver de onde vinha tanta luz. Estava em um cômodo branco, frio e um barulho contínuo me dizia que meu coração b-a-t-i-a n-o r-i-t-m-o. Algo preso no meu dedo me monitorava. Duas pessoas me monitoravam depois desse susto irreal que me deram. Parecia novela, mas era tão vida real que doía.
De repente o certo virou o errado, como uma fase brusca sem meio termo. Caí num tropeço, subindo as escadas, e tudo o que eu carregava na minha bolsa se espalhou pelo chão. Restando a mim, recolher cada objeto, assoprando a poeira e revendo sua necessidade. Tive que pegar cada pedaço dos copos de vidro tentando não cortar as mãos, entendendo que ainda assim eu precisaria deles.
Eu não vou contra a maré sem colete salva vidas. Aprendi a nadar quando era criança mas me assustei com o mar algumas vezes e hoje tenho medo. Medo de tudo, como sempre tive. Só nadei até aqui porque fui guiada por um sopro de calmaria na tempestade. E mesmo que eu engolisse água, minha cabeça permaneceu o tempo todo na superfície. “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Ontem acordei no meio de uma noite mal dormida e nem mil miligramas anestesiariam o que, mesmo seis meses depois, ainda latejava. Já eram novas férias e a novela se repetia. Mas tudo ainda custava o desgaste e valia a pena. O sopro de calmaria era uma respiração leve, que ficava forte durante o sono. Enquanto as energias eram recarregadas, os olhos rasgados viravam traços e mesmo a respiração forte me parecia calma. Tão calma quanto o caminhar de botas de veludo, o sorriso engraçado e a delicadeza das palavras.
Eu me enganei ao pensar que caminhar a dois seria tão fácil quanto deitar numa rede no fim da tarde. Porém, acertei ao descobrir que prova de amor não vem em forma de flores, e sim em viver o que se vive. Foi tentando desenhar que eu entendi, que todas as voltas dessa vida me levaram a descobrir como ser feliz depende da dor. E foi tentando desenhar que eu percebi, que nessa via dupla do amor estamos no mesmo sentido, juntos, pelo o que dói e pelo o que faz sorrir.

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