Cinco

As figuras atrás das janelas mudando vertiginosamente rápido e os degraus demorados, que levam à sala com tacos de madeira. Alguns barulhentos e gastos, mas nunca soltos.
Acabei por me tornar tudo que nunca imaginei, exatamente por, sem querer, julgar impossível. O sonho desmoralizado pela realidade, que apressa a vontade de tudo terminar. Por terminar, não por realizar.
Não me orgulho disso, pelo contrário. Esmagada pelos dias apertados e a eterna falta de tempo, ou do que pensar. Não saberia dizer que me tornaria esse meio-amargo, estarrecido pelos deveres, frustrado pelas vontades.

Como quem está num furacão e, por um instante, só consegue acreditar que não será possível sobreviver, no seguinte momento a vida ainda batendo no peito parece elucidar que há muito o que fazer.
E então, a realização do sonho frustrado, visto de longe, iluminado pelas luzes alaranjadas, transforma-se, sim, num sonho realizado mas, de alguma maneira tomado por consciência de realidade.
O sonho de uma criança que sem referências específicas não sabia por onde começar é agraciado pelas primeiras palavras reconhecidas. E o rabisco na capa de um livro lembra que posso odiar completamente tudo o que faço, extamente por amar e me reconhecer em cada pedaço, gota por gota, letra por letra.

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