Um olhar à espreita, fixo na porta. Em dúvida se tem pressa de ir embora ou se quer que você chegue logo. Fingindo ser desavisado, como quem fica de costas mas vira-se a todo momento, naturalmente, para olhar pelos cantos.
E você vem. Chega devagar, tão surpreso quanto eu. Já que, realmente, acreditei que essa cena jamais se repetiria. Você, tão ridículo, fingindo saber o que dizer, quando na verdade a gente nunca sabe. Sem saber o que dizer e ainda assim dizendo muito, parece que nada nunca aconteceu. Que eu jamais quis que os dias passassem devagar para não descobrir o fim – que não existe, ou que passassem bem depressa para aceitar da noite para o dia. Mas, lá estávamos nós, tão sós, tão nós, cheios e presos por nós impossíveis de desatar. Como aqueles dos marinheiros.
Eu me senti como se ainda estivesse começando. Aliás, sempre me sinto. Tão entusiasmada como se fosse novo, tão curiosa como se pudesse descobrir cada pedaço de novidade. E tão contraditoriamente segura o suficiente para ser o que eu sou. O que nós somos.
Quatro músicas que poderiam durar para sempre. Quatro músicas que podiam misturar todas as experiênicas instrumentais que, ainda assim, seriam sinfônicas. Absurdamente conectadas, quimicamente fundidas ou seja lá o que for, só para dizer que damos certo juntos.
Estive pensando tanto no que já fui e nas remotas possibilidades de ser, novamente, que tudo me parecera devaneios. Quis tanto estar ali que, agora, me parece uma lembrança surreal de um passado próximo. Muito próximo.
A eterna sensação de que, a qualquer momento, alguém vai dizer o que pensou esse tempo todo. Momento oficialmente necessário, clandestinamente desimportante frente ao olhar sincero e devastador. E nós nunca vamos saber.