Deixei de colorir as palavras monossilábicas da cartilha “Caminho Suave” e comecei a rabiscá-la de vermelho, brincando de professora, como quem pensa saber o suficiente para corrigir o erro de outras pessoas. Logo minha mãe pediu-me para ler em voz alta um livrinho quadrado, de capa marrom, com a história de um macaco e suas bananas. Achei que ali estava comprovado que eu sabia ler e escrever completamente. Demorei pouco a descobrir que, na verdade, eu ainda não sabia nada.
Em todos os momentos eu queria ler para as pessoas o letreiro do ônibus, o folheto de propaganda, o gibi e os preços no supermercado. O entusiasmo em reconhecer os símbolos sem ter que processar a ação de lê-los, não demorou a fazer-me uma criança que falava muito, e muito rápido. O excesso de palavras fluindo com mais velocidade do que era realmente possível processar, aliado à pressa absurda em expressá-las, deu-me, aos seis anos de idade, uma leve gagueira.
Consegui falar normalmente após os inúmeros conselhos para respirar fundo e pronunciar palavras com mais calma, e tornei-me uma das melhores leitoras de textos da turma da terceira série. No Natal desse mesmo ano ganhei de presente do meu pai o livro “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, com a justificativa de ser um dos livros mais famosos no mundo, feito para crianças. Alisando a capa branca, colorida e reluzente, comecei a lê-lo no dia seguinte, e parei logo após. Não porque o havia terminado, e sim porque não entendia o sentido de uma jiboia engolir um elefante e tudo isso parecer ser, simultaneamente, um simples chapéu.
Abandonei-o na prateleira e continuei a leitura dos livros de Manuel Bandeira e Cecília Meireles, tendo a aula de produção de texto como a preferida, sempre me excedendo na quantidade de páginas do caderno brochura. Poucos anos depois me encantei com bibliotecas e a cada semana emprestava um livro. Aos treze, resolvi retomar o “O Pequeno Príncipe” e parei de lê-lo logo após, mas dessa vez porque havia terminado a leitura. As metáforas pareceram-me tão claras que me senti preguiçosa por não ter insistido na leitura na primeira vez.
Contudo, quando conheci Guimarães Rosa, e a sua “A terceira margem do rio”, entendi o que era subjetividade. Ou não. Mas, foi o primeiro momento em que não tentei entender, e deixei-me levar por tudo o que senti. E senti que a Língua Portuguesa era a mediadora de tudo aquilo que ela própria era incapaz de representar. Os momentos em que neologismos são insuficientes, sem metáforas amenizadoras e sem tradutor de sentidos.
Assim como o processo de aprendizagem, falta na minha memória a imagem do dia exato em que escolhi fazer das palavras o meu objeto de trabalho. Parece-me como se elas tivessem me escolhido e eu aceitado de bom grado. Apesar de exercitar o que sempre me serviu como válvula de escape, a escrita coloca-me diariamente como se eu não fosse o suficiente para ela. E talvez eu não seja. Mas sou constantemente tomada pela consciência de que posso rascunhar e apagar o quanto for preciso. Descobrindo aos poucos, que na verdade eu ainda não sei nada.