Dois meses e três dias estavam sendo completados naquela mesa do restaurante. Ninguém estava pretendendo comemorar demais e nem demonstrar ter se dado conta do tempo que havia se passado. Do certo tipo de casal que usa o tempo ao invés de contá-lo. Ela já revirava a calda da sobremesa com o garfo, formando desenhos abstratos cor de frutas vermelhas enquanto apoiava a cabeça na outra mão. Não era cansaço, só havia comido demais. E ele só observava com um riso de canto de boca a maneira bagunçada com que o cabelo dela se comportava na cabeça, o tom desligado com que ela conversava sobre filmes de E.T.
Foram duas tardes no parque, uma delas com direito a passeio de bicicleta e água de coco. Três exposições de arte, uma de fotografia e ajuda em todas com os acertos finais das resenhas, sempre repetitivas aos olhos dela. Sempre inspiradoras aos olhos dele. Algumas festas divertidas que perderam as contas, uma festa errada pra dar sono e ir embora cedo. Uma visita de três horas ao brechó e outra de quinze minutos ao shopping.
Algo perto de vinte e poucas ligações, mensagens sobre o clima do dia, ou sobre qualquer outra coisa banal e um monte de música compartilhada em redes sociais. Companhia pra terminar aquele trabalho infernal de começo de semestre e somente três dias de silêncio total. Os quatro amigos dele que ela conheceu e gostou, exceto o quinto deles que faz piadas de mau gosto. E as quase dez meninas apresentadas a ele, um pouco parecidas e faladeiras demais pra que ele tivesse tempo de decorar os nomes todos. As seis estações de metrô e o tênis vermelho igualzinho.
Aquela era a primeira vez que saiam pra jantar demoradamente, com direito a sorvete na sobremesa. Pouco antes estiveram no cinema, pela segunda vez, e ela sabia que alguém que a levasse pela mão até o cinema faria mais do que alguém que a espera na porta da balada. Dava pra perceber aonde aquilo ia chegar, e logo que o assunto de extraterrestres terminou, num engasgo, ela se dispôs a falar. Aquele tempo todo não havia parado de pensar no que gostaria de estar vivendo. Ela tinha toda a noção de que dois meses e três dias haviam passado sem que ela pudesse sentir o que deveria estar sentindo. E não podia mais. Ele pediu apenas um favor e ela não seria capaz de negar.
Ela voltou pra casa de metrô para que tivesse mais tempo pra pensar, e ainda foi pouco. Faltariam dias para tentar entender o que estava sendo posto em prova. O pouco que foi dito e o muito que foi feito. Ou o contrário.
O dia seguinte foi o dia de olhar para o espelho e escolher não mais viver a sombra de alguém. De assumir a estática no ambiente em que eles estão juntos. A certeza resguardada de que o melhor está para vir. Fazia quase um mês que ela não o via e estranhou quando, ainda de longe, o viu vestido de vermelho, sentado na beirada do lago artificial. O dia estava nublado mas claro o suficiente pra precisar de óculos de sol.
Ela andou dois passos e parou. Ele estava de cabeça baixa mexendo no celular sem percebê-la por perto. Foi quando ela sentiu a pressão de existir de verdade e colocar em risco a possibilidade de perder de verdade. Lembrou-se de todos os textos mascarados, quando trocava os substantivos para disfarçar. Quando se alegrava com cada frase mal formulada e ingênua. E cada vez que sentiu raiva da imbecilidade da negação.
Meio passo avançado sem querer e ele levantou os olhos para ela. Como já foi dito, era impossível não se perceberem dividindo o mesmo espaço. Ele a olhou sorriu, mas esperou que terminasse de caminhar em direção a ele. A abraçou forte e a tirou do chão, com a diferença de quem mede mais de um e oitenta de altura. Sem dizer nada por sete segundos infinitos, ela abriu a boca para balbuciar algo que nem lembra quando ele antecipou-se “Sim, fizemos tudo errado. Vamos reforçar cada laço”.Como resposta, ela deveria cumprir o favor prometido. E cumpriu. “Pediram-me um favor. Pediram-me para ser menos medíocre e mais sincera. Pra que não percamos tempo fingindo que não nos importamos. Para nos darmos a chance que sempre quisemos”. O dia em que a covardia foi perdida. Quando se escolheu tentar ser feliz ao invés de fingir ser feliz.
Foram duas tardes no parque, uma delas com direito a passeio de bicicleta e água de coco. Três exposições de arte, uma de fotografia e ajuda em todas com os acertos finais das resenhas, sempre repetitivas aos olhos dela. Sempre inspiradoras aos olhos dele. Algumas festas divertidas que perderam as contas, uma festa errada pra dar sono e ir embora cedo. Uma visita de três horas ao brechó e outra de quinze minutos ao shopping.
Algo perto de vinte e poucas ligações, mensagens sobre o clima do dia, ou sobre qualquer outra coisa banal e um monte de música compartilhada em redes sociais. Companhia pra terminar aquele trabalho infernal de começo de semestre e somente três dias de silêncio total. Os quatro amigos dele que ela conheceu e gostou, exceto o quinto deles que faz piadas de mau gosto. E as quase dez meninas apresentadas a ele, um pouco parecidas e faladeiras demais pra que ele tivesse tempo de decorar os nomes todos. As seis estações de metrô e o tênis vermelho igualzinho.
Aquela era a primeira vez que saiam pra jantar demoradamente, com direito a sorvete na sobremesa. Pouco antes estiveram no cinema, pela segunda vez, e ela sabia que alguém que a levasse pela mão até o cinema faria mais do que alguém que a espera na porta da balada. Dava pra perceber aonde aquilo ia chegar, e logo que o assunto de extraterrestres terminou, num engasgo, ela se dispôs a falar. Aquele tempo todo não havia parado de pensar no que gostaria de estar vivendo. Ela tinha toda a noção de que dois meses e três dias haviam passado sem que ela pudesse sentir o que deveria estar sentindo. E não podia mais. Ele pediu apenas um favor e ela não seria capaz de negar.
Ela voltou pra casa de metrô para que tivesse mais tempo pra pensar, e ainda foi pouco. Faltariam dias para tentar entender o que estava sendo posto em prova. O pouco que foi dito e o muito que foi feito. Ou o contrário.
O dia seguinte foi o dia de olhar para o espelho e escolher não mais viver a sombra de alguém. De assumir a estática no ambiente em que eles estão juntos. A certeza resguardada de que o melhor está para vir. Fazia quase um mês que ela não o via e estranhou quando, ainda de longe, o viu vestido de vermelho, sentado na beirada do lago artificial. O dia estava nublado mas claro o suficiente pra precisar de óculos de sol.
Ela andou dois passos e parou. Ele estava de cabeça baixa mexendo no celular sem percebê-la por perto. Foi quando ela sentiu a pressão de existir de verdade e colocar em risco a possibilidade de perder de verdade. Lembrou-se de todos os textos mascarados, quando trocava os substantivos para disfarçar. Quando se alegrava com cada frase mal formulada e ingênua. E cada vez que sentiu raiva da imbecilidade da negação.
Meio passo avançado sem querer e ele levantou os olhos para ela. Como já foi dito, era impossível não se perceberem dividindo o mesmo espaço. Ele a olhou sorriu, mas esperou que terminasse de caminhar em direção a ele. A abraçou forte e a tirou do chão, com a diferença de quem mede mais de um e oitenta de altura. Sem dizer nada por sete segundos infinitos, ela abriu a boca para balbuciar algo que nem lembra quando ele antecipou-se “Sim, fizemos tudo errado. Vamos reforçar cada laço”.Como resposta, ela deveria cumprir o favor prometido. E cumpriu. “Pediram-me um favor. Pediram-me para ser menos medíocre e mais sincera. Pra que não percamos tempo fingindo que não nos importamos. Para nos darmos a chance que sempre quisemos”. O dia em que a covardia foi perdida. Quando se escolheu tentar ser feliz ao invés de fingir ser feliz.