Quem inventou o amor?

Após os extensos dias de otimismo, daqueles em que eu paro para pensar no que me levou até ali, para tentar memorizar a receita e repetir quando ficasse difícil de novo. Após conversar e pensar sobre longos temas acerca do amor, dos términos e das reviravoltas a qual somos impostos, percebi que tenho medo. Que na verdade eu morro de medo de não saber o que fazer e me achar fraca demais pra isso tudo.

Dessa vez usei, sem querer, a tática da antecipação. Já me preparei aos poucos e vivi pequenos pedaços de precipício pra tentar amenizar essa queda tão devastadora e tão inevitável. Esqueci de pensar nisso tudo por alguns dias, mas quando lembrei passei a tomar as injeções junto ao café da manhã, vendo ligação em tudo, enxergando bom gosto, os agrados e as manias em tudo, o tempo todo.

Lembrei da última vez, que já parecia muito ser a última, em que decorei cada segundo para nunca esquecer. Como se eu fosse capaz… Não preciso de nenhum grande esforço de memória para ter meus dedos contornando o maxilar, a boca pequena e o contato com a barba. Não preciso de nada para sentir a respiração em meu ouvido ou rir pelo canto da boca com a risada nervosa enquanto me segura pela cintura. Posso descrever com cores e detalhes cada uma das fases e dos encontros, vendo cada vez mais sentido e admiração em cada célula viva dessa existência.

Por tanto tempo estive atrás de cada passo, esperando o vão que fosse do meu tamanho. E agora me pego na dúvida se desejo, para mim mesma, continuar sob a sombra. Mas a certeza em não querer é assustadora. Vejo-me divida entre duas razōes opostas. É como se ao desistir de tudo eu me sentisse traída, roubando de mim mesma uma das melhores partes.

Sinto orgulho de cada pequeno sentimento, como se o conjunto deles todos me tornasse uma real merecedora de tudo. Como se ninguém fosse capaz de gostar assim, tanto quanto eu. E na verdade, ninguém é. Mas, afinal, e porque é que não mereço então estar livre dessa ansiedade insustentável? Dessa esperança pífia e praticamente irreal?

A sensação é de ter que estar perto. Quando não mais existir ali, as coisas realmente mudarão. Mas se eu não quiser que elas mudem? Mas… ao negar quase que pra mim mesma esses sentimentos, já não estou cometendo o crime de me afastar?

Acredito que tomar um choque de realidade seria o melhor pra mim. Porém, ainda não quero. Ainda, já que uma hora tudo acaba e pareço estar bem perto disso. E eu odeio estar perto do fim. Primeiro porque quando tudo realmente acabar estarei submersa em outro mundo sem expectativas. Segundo porque nunca estive tão perto. Nunca me senti tão parte e tão necessária. Nunca senti algo que me fizesse tão bem por tanto tempo. E nunca senti um amor tão intenso.

Aliás, se isso não for amor não deve passar de uma forte alucinação, idêntica àquela que foi sentida por quem inventou o amor.

Deixe um comentário