Eu mal me aguentava de ansiedade nas coxias. Andava descalça pra lá e pra cá naquele chão frio e empoeirado, não conseguia ficar parada um minuto sequer naquele dia que estava sendo o segundo do conjunto dos três melhores.
A manhã começara me distraindo com algo entre física e geografia, num ar condicionado gelado que ardia os olhos de quem havia desacostumado a acordar tão cedo. O calor da hora do almoço triplicou dentro do carro parado no minhocão. O trânsito ia me atrasar e eu não podia. Salva por alguns minutos, cheguei a tempo de um grande abraço e palavras boas. Mergulhos na ressonância e eu já dava braçadas de encantamento. Quis sair rabiscando as paredes da casa toda mas, de novo, eu precisava correr.
De frente pro espelho do banheiro-camarim eu arriscava os passos que tinha de cor mesmo sabendo que algum faltaria no momento certo. Uma sombra preta atrapalhada, barulho de todos instrumentos sendo tocados ao mesmo tempo e pedidos inúteis de silêncio, eu não era a única ansiosa.
Pessoas mais atrasadas do que eu, vozes trêmulas e velas que não paravam acesas. Planos de uma sexta a noite que mal começava e passos animados no canto do palco prontos pro acorde combinado. Entrei, dancei, errei e não pude enxergar nada além de um palmo à frente e luz me ofuscando a vista. Estaremos juntos no ano que vem, abraços e o choro que não saiu.
Pela última vez no dia eu estava atrasada. Ainda deveria comer a pizza o mais rápido possível e mostrar que eu podia. Foi quando me lembrei que mal tinha pensado em tudo o que deveria ser feito, nem mesmo numa roupa poderosa ou um drink desencanado pra segurar na mão desatenta. Mas a imagem, no meio da pista, a minha mente estava decorando com esmero.
A pizza tardou a chegar e eu me vi desviando o plano perfeito. Poucos caracteres num pedido de desculpas e me vi esperando algo maior – que, na verdade, resume-se numa desimportância quase extrema. Você cogitou o vestido amarelo e acabou no casaco azul bebê. Eu fui de couro.
Conhecia aquela rua, mas não imaginava qual era quando li o endereço. A casa transbordava de gente, o portão estava aberto mas eu liguei antes de entrar. A sala de estar não estava menos abarrotada. O sofá arrastado, o tapete amarrotado e a mesa vazia. Todos os objetos deviam estar trancados dentro dos armários para evitar maiores problemas. Mas a medida de prejuízo foi pouca.
Ganhei um copo de plástico e reconheci os convidados na cozinha em meio a outros que já passaram do ponto. Dali eu podia ver, pela janela, o quintal, com tantos outros rostos que eu mal começara a decorar os nomes. Um rodo limpando o chão, e você batendo a cabeça na geladeira. Nos sentamos no aparador da sala de jantar, de frente para a mesa com sacos de salgadinho rasgados. Algumas palavras insistentes, convidados de uma festa de debutante e em dois flashes havia alguém em cima da mesa, gritando que a festa havia acabado. Gritou, apenas. A festa custou terminar.
Em pé na sala de estar conversávamos floridamente sobre coisas floridas. Algo entre os porta-retratos ao lado da televisão e os autênticos documentos de identidade que justificavam os copos nas nossas mãos. Apenas cinco sirenes de polícia depois alguém gritou que apenas os convidados deveriam permanecer na casa. Ou seja, a rua automaticamente sofreu com a superlotação de pessoas evitáveis, inevitáveis, substituíveis e insuportáveis.
Subimos a rua, nós três, para chegar ao táxi. Pessoas, que de tão conhecidas se tornaram todas iguais, fizeram piadas que voltamos para ouvir. Roupas de mulher, conversas virtuais, feriado, quinze dias atrás. Juntei as informações e entrei no táxi, aliás, um dos poucos legados sobreviventes daquela época. Tão logo cheguei em casa já me esqueci de tudo.
Mal lembro o que comentamos depois de tudo o que passou, aliás, se comentamos alguma coisa depois. Exatamente por não imaginar o que viria depois minha memória exclui os maiores detalhes. O caos de um dia que haveria de ser completamente diferente do que foi, refletido no que não esperávamos que fosse hoje. E agora você segura naquela mão e eu, mal me aguentando de ansiedade na coxia, espero pela próxima cena.
A manhã começara me distraindo com algo entre física e geografia, num ar condicionado gelado que ardia os olhos de quem havia desacostumado a acordar tão cedo. O calor da hora do almoço triplicou dentro do carro parado no minhocão. O trânsito ia me atrasar e eu não podia. Salva por alguns minutos, cheguei a tempo de um grande abraço e palavras boas. Mergulhos na ressonância e eu já dava braçadas de encantamento. Quis sair rabiscando as paredes da casa toda mas, de novo, eu precisava correr.
De frente pro espelho do banheiro-camarim eu arriscava os passos que tinha de cor mesmo sabendo que algum faltaria no momento certo. Uma sombra preta atrapalhada, barulho de todos instrumentos sendo tocados ao mesmo tempo e pedidos inúteis de silêncio, eu não era a única ansiosa.
Pessoas mais atrasadas do que eu, vozes trêmulas e velas que não paravam acesas. Planos de uma sexta a noite que mal começava e passos animados no canto do palco prontos pro acorde combinado. Entrei, dancei, errei e não pude enxergar nada além de um palmo à frente e luz me ofuscando a vista. Estaremos juntos no ano que vem, abraços e o choro que não saiu.
Pela última vez no dia eu estava atrasada. Ainda deveria comer a pizza o mais rápido possível e mostrar que eu podia. Foi quando me lembrei que mal tinha pensado em tudo o que deveria ser feito, nem mesmo numa roupa poderosa ou um drink desencanado pra segurar na mão desatenta. Mas a imagem, no meio da pista, a minha mente estava decorando com esmero.
A pizza tardou a chegar e eu me vi desviando o plano perfeito. Poucos caracteres num pedido de desculpas e me vi esperando algo maior – que, na verdade, resume-se numa desimportância quase extrema. Você cogitou o vestido amarelo e acabou no casaco azul bebê. Eu fui de couro.
Conhecia aquela rua, mas não imaginava qual era quando li o endereço. A casa transbordava de gente, o portão estava aberto mas eu liguei antes de entrar. A sala de estar não estava menos abarrotada. O sofá arrastado, o tapete amarrotado e a mesa vazia. Todos os objetos deviam estar trancados dentro dos armários para evitar maiores problemas. Mas a medida de prejuízo foi pouca.
Ganhei um copo de plástico e reconheci os convidados na cozinha em meio a outros que já passaram do ponto. Dali eu podia ver, pela janela, o quintal, com tantos outros rostos que eu mal começara a decorar os nomes. Um rodo limpando o chão, e você batendo a cabeça na geladeira. Nos sentamos no aparador da sala de jantar, de frente para a mesa com sacos de salgadinho rasgados. Algumas palavras insistentes, convidados de uma festa de debutante e em dois flashes havia alguém em cima da mesa, gritando que a festa havia acabado. Gritou, apenas. A festa custou terminar.
Em pé na sala de estar conversávamos floridamente sobre coisas floridas. Algo entre os porta-retratos ao lado da televisão e os autênticos documentos de identidade que justificavam os copos nas nossas mãos. Apenas cinco sirenes de polícia depois alguém gritou que apenas os convidados deveriam permanecer na casa. Ou seja, a rua automaticamente sofreu com a superlotação de pessoas evitáveis, inevitáveis, substituíveis e insuportáveis.
Subimos a rua, nós três, para chegar ao táxi. Pessoas, que de tão conhecidas se tornaram todas iguais, fizeram piadas que voltamos para ouvir. Roupas de mulher, conversas virtuais, feriado, quinze dias atrás. Juntei as informações e entrei no táxi, aliás, um dos poucos legados sobreviventes daquela época. Tão logo cheguei em casa já me esqueci de tudo.
Mal lembro o que comentamos depois de tudo o que passou, aliás, se comentamos alguma coisa depois. Exatamente por não imaginar o que viria depois minha memória exclui os maiores detalhes. O caos de um dia que haveria de ser completamente diferente do que foi, refletido no que não esperávamos que fosse hoje. E agora você segura naquela mão e eu, mal me aguentando de ansiedade na coxia, espero pela próxima cena.