Meia-calça

Meu secador de cabelos está beirando o curto circuito e não desliga mais, precisando ser puxado pelo fio, mesmo que de qualquer jeito, para desconectar da tomada. Os botões de regulagem se movem sem sentido: a velocidade permanece no máximo e a temperatura é a mais quente possível. E eu ainda o uso, e usarei até quando o cheiro de queimado tornar-se o próprio queimado em si.
Com as orelhas pegando fogo, eu secava os cabelos enquanto sentia a corrente de vento passando pelos pés. A fresta da porta aberta que a conecta com a janela quase fechada. Eu ia, nem que fosse sozinha e pelas próprias pernas. Era maio, e eu merecia sair de casa por simplesmente sair de casa e fazer minha vontade. 
No caminho tratei de comer os biscoitos integrais, já que o café da manhã insistiu em ficar gelado na mesa da cozinha, não descia por nada. Quando ainda havia dedicação, abri um livro e li coisas sobre civilização e leis de trânsito. Uma, duas e a estação chegou. Lugar desconhecido e eu mal havia pensado por onde começar. Um número nunca discado e eu mal havia pensado por onde começar.
Tentei ser ruiva, mas tive que ser o que me sobrou pra ser. Em pé, sem graça. Retrocedendo no calendário e as palavras saindo naturais da minha boca, como quem não entende porque demorou tanto tempo para as coincidências acontecerem. Exclamações surpreendentes e minha bolsa apoiada no chão, em meio a tantas pessoas mais desconhecidas ainda. Num piscar de olhos o rádio começou a tocar e eu era a única que não conhecia a melodia inteira. A única.
Two steps e o mundo girou devagar. Aquele era um mundo novo e eu gostava muito disso. Minha falta de habilidade em rir quando fico constrangida e duas olhadas no espelho: “não precisa”.
De volta à quinta série, no canto atrás da lavanderia. Sem acreditar. Uma divagação tão longa pra quem sempre conversou. Deitados na grama, sem olhar o céu, de frente pra um palco de um festival de rock. O chaveiro e a meia-calça. Abri a porta e desci. Naquele momento eu não esperava nada, não sabia se devia esperar, e nem mesmo sabia o que esperar. Mas a certeza era factual: eram novos tempos.


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