Time cures heart

(Da série que não deveria ter data e nunca chegará ao fim)
Já era a segunda vez na semana que ela entrava na locadora de vídeos para buscar o mesmo filme. Até olhou para as outras prateleiras, mas em pouco tempo decidiu que queria ver aquele, novamente. A capa era um colorido desbotado mas não trazia nenhum desenho que chamasse a atenção, não exatamente como os hollywoodianos.
O balconista começou a comentar sobre os lançamentos que tinham acabado de chegar e ainda tinham unidades na prateleira. Apontou para os cartazes às suas costas, com aquelas luzes circulando constantemente. Carros em alta velocidade, apocalipses, histórias de amor em plena noite de natal e uma boa dose de filmes com sangue e espíritos. Mas ele a conhecia bem. Mesmo quando não era seu turno ele via no sistema que aquele filme estava locado, por ela, claro. E nunca conseguiu entender exatamente porquê a repetição.
Ele se lembra de algumas vezes em que ela optou pelo lançamento comentado do mês, ou por um clássico consagrado e cheio de traças. Porém consegue contar com poucas dezenas quantas vezes isso realmente aconteceu. “Esse, de novo?” Ele já nem tinha vergonha mais de questioná-la.
“A trilha sonora é… Tão boa!”. Ela respondeu sem se importar enquanto levantava os ombros como quem não vê outra resposta mais óbvia para dar. Ela já nem se preocupava em falar o código de matrícula ou mostrar a carteirinha de sócia – que na verdade nem sabia aonde tinha ido parar. Enquanto ele registrava o filme ela esperava ansiosa, batendo o pé esquerdo no chão, no mesmo ritmo do dvd que estava passando na loja. Não era falta de paciência, era o costume de quem já nem percebe os movimentos mecânicos de abrir a caixa, passar o código de barras, imprimir o comprovante, aliás, por que ele sempre circulava a data de entrega?
Ela já nem pedia mais a sacola plástica, quando colocavam o filme dentro ela tratava de tirar e levá-lo na mão. A caixinha sempre ia no banco do passageiro, ocupando com propriedade o lugar que deveria ser de alguém. O papel do encarte, meio amassado nas bordas a irritava em alguns dias. A vontade era de arrancá-lo do plástico e arremessar pela janela, talvez com a caixa junto. Deixando somente o dvd meio gasto, apoiado no veludo do banco do carro.
Algum dia o aparelho vai reproduzir o filme antes mesmo do dvd ser colocado. Até os objetos inanimados acabam por viciar nos atos repetitivos de quem insiste em compreender. Sentada com as pernas cruzadas sobre o sofá ela folheava o caderno bege, surrado, com uns rabiscos que ela mesma titubeava em entender.
Os diálogos eram os mesmos, o personagem continuava naquela jaqueta surrada. A trilha sonora era simplesmente incrível, e não havia nada de errado. Exceto pelo fim. Sempre aquele trem correndo pelos trilhos, a menina desesperada e os passageiros sem entender como alguém poderia ter chegado àquele ponto. Deixá-la sentar não poderia mudar muita coisa, mas quem sabe amenizaria o momento de dor. Ilusão.
E quando o filme começava a mostrar os créditos finais ela voltava. Revia as partes principais, em câmera lenta. Como quem tenta encontrar uma palavra sussurrada, ou um vulto ao fundo que pudesse ser subliminar. Mas o que ela entendia uma vez, nunca se repetia. A palavra que aparecia escrita nas nuvens, simplesmente sumia quando ela acionava o repeat. Nada se repetia, exceto o fim.
Sim. Ela também teve a ilustre ideia de copiar o dvd, comprá-lo ou não devolvê-lo nunca mais, pouco sentido havia nas repetidas locações que além do gasto exigia o empenho de ir até a locadora e procurá-lo nas prateleiras. Aliás, deveria haver uma pequena conspiração para que a cada mês ele mudasse de lugar. Mas ela sempre o encontrava, sem precisar perguntar aos funcionários. Talvez fosse um tipo de magnetismo, algo que a levava ao lugar exato, mesmo se vendasse os olhos.
Sim. Ela já se perguntou o porquê de alugar o mesmo filme tantas vezes ao ponto de encontrar furos, erros de continuidade e (quase) enjoar dos personagens. Mas tudo fazia mais sentindo enquanto cada incógnita aumentava. Algumas passagens eram tão simples que poderiam conter novas histórias dentro delas. Contradição demais pra filme de menos. Nem quatro horas de gravação resolveriam os problemas e clareariam as ideias.
Não era o melhor filme do mundo, o mais bem feito. Estava cheio de defeitos, e era um pouco fraco. Mas era o seu filme. Ela só precisava entender os diálogos, rever a fotografia, ouvir a trilha sonora, retroceder nos momentos decisivos, e escolher parar quando tivesse vontade. E fazer tudo novamente. Voltar ao mesmo lugar para devolvê-lo e retornar quando bem entendesse para começar de novo. E mais uma vez.
Tudo para acordar no dia seguinte sendo a mesma pessoa. E de novo, mais uma vez.

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