Quem o ouve falar baixo e devagar mal imagina que a calma não impede que a personalidade forte transpareça. E paradoxalmente as pausas nas frases bem pensadas transmitem força. Sem parecer rude, apenas forte. E por ser forte é também verdadeiro. Não há equívoco ao achá-lo correto ou transgressor demais.
Sem ser contraditório, Laercio aglutina a atitude de quem já subiu em janelas pra pichar muros, mas não por falta do que falar: exatamente por sobra do que dizer, como quem lê e tem uma resposta firme pra tudo. Certa vez pegou o último trem partindo de São Caetano, e com seus amigos e algumas latas de spray desceu em Mauá para deixar marcas urbanas nos muros da cidade, que nenhum deles conhecia muito bem. Enquanto ele e um amigo pichavam um prédio, outro ficou encarregado de observar a chegada de qualquer estranho a eles, e não deixou de cumprir a missão em avisar: a polícia veio e cada um deles correu para um lado. Mesmo sem as latas de tinta, as mãos ainda estavam sujas e não pôde fugir das viaturas que os perseguiam separadamente. Quando questionado sobre estar pichando, negou. Mas a criatividade foi falha ao justificar estar indo para casa, àquela altura da noite. Sem demora foi colocado dentro da viatura e foi de encontro a outro amigo que também havia sido pego.
Em momento algum conversou com seu amigo, apenas o observou de longe enquanto os policiais riam e combinavam a regra do jogo: a cada vez que ele desse uma resposta negativa, seu amigo situado há alguns metros em outro muro sofreria consequências. Concordar com os questionamentos sobre estar sujando as paredes ou ter vontade de ir até a delegacia parecia incoerente. Mas ao mesmo tempo em que seu amigo recebia os murros sem poder ouvir as respostas, ele sabia que ao ver o amigo balançar a cabeça negativamente não ficaria barato para ele também. Passados dez minutos de tortura psicológica ambos foram liberados. Com vários hematomas, mas aparentemente não o suficiente para aprender a lição.
Outra vez foi necessária, e nesta tapas ou arranhões não foram as medidas tomadas. Teve que cumprir trabalho voluntário na Escola de Ecologia, local em que teve gosto em ajudar. A pior parte era alimentar as cobras. E não só pela sensação de risco ao abrir o viveiro do animal, mas também pela necessidade de dar ratos vivos como refeições. Cobras, num ambiente de estudos e exposições, têm mais validade que um mero rato, não podendo correr o risco de que num momento de distração seja atacada. Como precaução, os ratos deveriam ser dados à cobra após um tratamento de choque: eram pegos pelo rabo e levemente batidos numa mesa. O suficiente para ficarem zonzos, sem que os ossos se quebrassem e tivessem que ser substituídos por outros ratos.
Desde cedo lidou com a arte gráfica e seus primeiros trabalhos foram aos quinze anos, quando nem mesmo sabia qual quantia decente deveria ser cobrada. Dezoito meses de curso técnico em publicidade e propaganda abriram ainda mais seus olhos para perceber que a arte que fazia em muros, primeiro com grafites e depois com stickers poderia certamente ser feita pra vida inteira. Depois desse momento nunca mais teve dúvidas de que tinha uma relação vital com o design, sendo essa uma das poucas e mais reais verdades em sua vida.
Cursou a faculdade de Design Gráfico custeado pelo ProUni sem que a dedicação viesse somente pela obrigação em tirar boas notas. Por um tempo utilizou um caderno feito com folhas escolhidas à dedo: tons de azul, algumas folhas pretas no fim e uma capa de papelão bege. Aproveitava cada pedaço das folhas para desenhar e fazer anotações na borda, com uma letra geométrica, expressiva e não menos artística. Sempre viu brilho nas aulas teóricas de História da Arte, que valoriza tanto quanto as práticas, pela necessidade de formação consciente. Por descuido e euforia de começo de semestre, faltou a algumas aulas de Antropologia e precisaria tirar mais pontos do que o previsto. Ao conversar com o professor, aceitou a proposta: se proporcionasse ao menos duas discussões verdadeiramente boas durante as aulas, seria aprovado. Passado o período o professor não pensou duas vezes, disse que cada comentário não proporcionou somente duas boas discussões como também o semestre mais acalorado e proveitoso da disciplina. Laercio fala, mas fala com propriedade.
Muito do que sabe aprendeu com o pai, que quando jovem deixou de lado os estudos em Engenharia na Unicamp para lutar no movimento estudantil. Não é à toa que discute política com interesse e conhecimento de quem não lê jornal apenas os títulos nos portais da internet, e sim de quem cresceu pautado nesses temas. É na mesa do jantar que discute com o pai coruja, que o espera chegar em casa todos os dias, os assuntos que aconteceram ao longo do dia. Aposentado, seu pai faz questão de ir todos diariamente até a banca de jornal para comprar a Folha de São Paulo. Não quer saber de assinaturas mensais, receber o exemplar em casa acabaria com uma das atividades mais animadoras da manhã.
É também nos jogos de futebol que acentua os laços familiares. São paulino desde pequeno, costuma ir assistir aos jogos com o pai sem que caia no clichê da relação pai e filho. Vê num pai uma figura de base, e só se interessa em ir às festas de família se o pai for, para que assim tenha com quem conversar. Chama a avó de abuela e diz que os palavrões nunca são medidos na hora das refeições. De origem espanhola, fala da cultura como quem conhece mais que a comida e dança típicas. Tem uma irmã mais velha de quem pouco fala, e um primo que considera muito. Demora para encontrá-lo, mas quando o vê, dá problema. Conta de viagens repentinas, pouco conscientes e com consequências econômicas a serem recuperadas por meses à frente. E ainda terá muito o que contar.
Aliás,o próprio apelido, que por senso comum não costumam ter explicações, possui uma história. Hoje caracteriza o apelido como uma atitude meio prepotente, já que deu a si próprio. Com um nome que não possui sílabas sonoramente fáceis e práticas, adotou o termo monossilábico Lex. Precisava de algo curto e fácil que
pudesse ser utilizado para assinar seus desenhos. Não encontrou saída melhor do que um apelido que faz alusão ao seu nome e ao mesmo tempo opõe-se ao Super Homem. De Lex Luthor a Lex Lopo, nasceu o anti-herói.
Através do vidro que separa a sala de espera do estúdio do tatuador pude acompanhar a cara de dor para a agulha que cobria lentamente sua costela esquerda. O desenho foi escolhido para representar algo que considera transcendental: a mudança para uma fase madura, de certezas e perspectivas positivas. Um desenho forte, significativo e apesar ser uma caveira, é extremamente vivo. Uma escolha mais madura e pensada ao contrário da primeira tatuagem que carrega no braço esquerdo, da qual se arrepende, não gosta de mostrar e pretende encobrir. Fruto de quem aos catorze anos acha que tem todas as certezas do mundo. Mas não exatamente precipitado.
Laercio Lopo Juarez hoje trabalha na agência de publicidade Mccann, onde apesar do ambiente descontraído não possui responsabilidades menores. Entra para trabalhar no meio da manhã sem saber a que horas será possível voltar para casa. Já chegou a passar dias inteiros trabalhando, com colegas de trabalhos tão expressivos quanto ele próprio. De tão aberto, o ambiente de trabalho chega a tornar-se cruelmente sincero quando os colegas já não censuram respostas grossas ou piadinhas para ele, que sempre chega depois das nove. Uma resposta áspera bastou para que não fizessem mais comentário algum, sem crises, sem brigas.
Sempre gostou mais das pessoas introspectivas e aproximou-se de quem seria normalmente considerado estranho. Foge de tudo o que é superficial, sem se limitar a encontrar sentido em tudo o que faz. Odeia quem anda de patins e se irrita fácil com gente ignorante. É eterno adepto do papel e caneta, e acha que nada substitui o cheiro de livro novo entre os vários que ocupam suas prateleiras – já sofrendo com a falta de espaço para novos exemplares.
Quatro horas depois, Lex saiu do estúdio com a tatuagem contornada, ainda como um esboço do que completará o ritual de passagem. Antes seu armário de roupas era composto por camisetas brancas, pretas e cinzas; hoje possui inúmeras camisas xadrez. Muda de fase com um passo firme ou em uma acentuada manobra de skate. Acentuada e mutável. Assim como o paradoxo de ter ao mesmo tempo uma aura que transmite paz, mas que não deixa de queimar por dentro.
Seus vinte e poucos anos parecem já ter delimitado sua personalidade. Mas assim como é impossível criar uma arte sem ao mesmo tempo destruir outra, o seu desenho nunca estará pronto. Como numa tatuagem sem fim, que enquanto a figura ganha mais adornos e parece cada vez mais bonita aos olhos, ela não deixa de sangrar. E ser viva.
Site com portfólio e trabalhos de Laercio Lopo Juarez: http://www.laerciolopo.com