De frente ao mar

Fiquei doente. Aquele peso esmagador, que não se decidia qual parte do metabolismo atacava, resolveu não decidir. E de repente, fiquei doente, de toda e qualquer maneira. Mas foi logo nesse ato de constatação que eu lembrei que não havia solução: antibiótico não cura doença de amor.

Abrir mão, enquanto ainda se pode ter nas mãos parece algo pouco inteligente. E meu ego me reprovou em cada atitude que agora tirou da reta as flores na porta de casa. Mas eu sou piegas.
Quebrei o que poderia facilmente ter quebrado, e agora ultrapassei o inesperado. Não encontrei mais nenhuma regra a ser seguida, além daquela voz que pertinentemente gritou para que eu desse um passo de cada vez e vivesse uma história por vez. E errasse por me ser, para no fim, me acertar.
Terminar uma coisa que não começou soa como algo muito calculista (algo muito vindo de mim), e eu nunca tentei tanto e nunca quis tanto que a situação fosse tomada por causas naturais. Mas não foi. Não penso em me desculpar e não sobra qualquer espaço em mim para que eu sinta culpa. Eu só fico com saudade do que acabei de impedir que aconteça, do que eu senti e poderia sentir.
Contudo, eu já me sinto forte. Exagero nas palavras, e essa atitude inédita de tomar as rédeas parece muito mais de carne e osso do que sentar e esperar, ou do que manter perto o que me faz bem pra quando quiser o bem – só para quando eu quiser. Não estou esperando ser canonizada por atitudes altruístas. Inclusive, vejo mais egoísmo que altruísmo em meus atos.
Qualquer calafrio ou bem estar não me impediram de ver de maneira clara, foi a única vez em que tentei ser inconsequente e viver aos tropeços, desde que me fizessem bem. Porém, o impossível é me enganar por muito tempo: a ideia é muito boa, mesmo, mas não poderia funcionar na prática, simplesmente porque fora do papel, o papel jamais seria cumprido como se deve. Posso me arrepender, posso e possivelmente fraquejarei, mas nada paga a minha cabeça deitando leve no travesseiro para dormir.
Sinto alívio, mas pouco conforto. Não troquei instabilidade por certezas absolutas. Estou na corda bamba de quem pode estar tentando ser justa, e por fim (e não pela primeira vez) perder tudo. Se é que alguém perde o que não tem.
Estou pouco preparada pra lidar com caixas vazias, páginas mal respondidas e comportamento virado do avesso. Mal sei o que fazer com essas paredes, que não possuem ouvidos mas são tão sensíveis que absorveram cada lembrança sua. E, agora, elas lembram de você antes que eu cogite pensar nisso.


A história não acaba aqui. As ondas nunca vão parar de avançar na areia. Pelo contrário: por mais forte que voltem ao mar e quebrem nas pedras, a calmaria retorna aos pés na beira da areia molhada.
Ainda transtornada deixei que as febres aflorassem, que todas as dores pulsassem. Inutilmente tomei cada uma das pílulas, não queria dizer adeus. E foi quando adormeci, leve.

Deixe um comentário