Em pleno verão o mundo resolveu fazer inverno. Os céus sabiam que não era dia de festa: aquele era o último momento em que eu me sentiria enorme, mesmo com 1,67 de altura. Era a última chance de ser feliz.
A última coisa que eu poderia demonstrar era fraqueza, logo eu que fugi de cada agrado, elogio ou promessa. Incrível como sem nem mesmo pensar pra isso eu já agia normalmente, falando mais que fazendo e esperando cada afeto por sua vez. Mesmo que no fundo eu quisesse fazer o mundo todo parar e me deixar ser feliz pra sempre.
Ao contrário do que dizem, o tempo não passou rápido demais. Foi devagar, e cada vez mais difícil e silencioso. Por mais que eu não tivesse coragem de carregar minhas palavras com tudo o que eu sentia, meus olhos deveriam entregar a verdade: eu já sofria. Sofria mas ficava o tempo todo em dúvida se o sentimento era merecido ou mais um dos milhares disperdiçados. O meu subconsciente me prega peças e eu quase dei razão pra cada bronca que levei.
Mas foi aí que eu lembrei que era tarde demais pra ser especial, não havia mais tempo de fazer mais parte de algo que não sei se pertenço, ou pentencia. Fiz o meu melhor, em algum lugar deve ter ficado um pedaço de mim. Numa mordida de maçã, numa música velha ou em um coração.
Apesar do sono absurdo, culpa de todo o cuidado e dedicação em escolher cada palavra que fizesse sentido (sentir), eu não dormia pensando se uma folha de papel me faria ser menos ou mais. Menos significante, menos comum, mais babaca ou mais importante.
Entreguei. Destrui todo o momento especial com palavras grossas e uma risada desesperada. Mas assim eu não iria conviver com a dúvida e a falta de certeza de que agora sim, eu fiz tudo o que eu pude.
Respirei fundo em cada contato, em cada olhar fundo. Prestei atenção na mesa posta, nos documentos, nas roupas nos cabides e em cada música no violão. Guardei como eu pude cada carinho e esforcei pra que esse subconsciente retardado guardasse a ordem cronológica detalhadamente.
Sempre chego à conclusão de que fui menos. E sou pega no arrependimento de não saber escolher as palavras e atitudes certas. Mas talvez eu deva parar de tentar mudar meu jeito de resolver as coisas. Eu sou assim. E jamais demonstraria que daquele dia em diante seria difícil. E será.
Quando entrei no elevador a pressão do mundo já parecia outra. Eu me sentia muito mais leve, muito. Mas isso é completamente distinto da sensação de alívio. Não me livrei de um problema nem de um mártir. Eu apenas já me sentia vazia.
Quebrei as regras das regras que eu já havia quebrado. Mas desde o começo, lá no fundo, eu já sabia que a cada vez que eu dizia ter certeza do que estava fazendo eu me perdia mais.
E assim fiquei. Eu nem sabia por onde começar. Passei a conferir insanamente alertas no celular e foi aí que eu toquei: acabou. Meus dias não serão mais cheios de atenção e de planos antecipados pro fim de semana. Nas sextas a noite meu rumo não será definido com duas ligações ansiosas. Eu poderia até mesmo agradecer por não ficar mais em cima do muro com cada oscilação frequente de afeto. Mas até disso eu vou sentir falta.
Estou sendo dramática de um jeito que disse não ser necessário, mas é quase engraçado de tão injusto que o destino me parece. Não pedi mais além do que eu pude dar, e mesmo assim recebi o suficiente pra completar os meus dias.
Não é à toa que eu seja forçada a me livrar de algo que me faz bem, e mesmo que eu já havia sido avisada que isso seria necessário, só me resta esperar que eu tenha sido algo também. Não sou de forçar situações e sei que jamais ocuparia o lugar de alguém mais presente e mais importante. Não há como comparar ou eliminar anos de afeto em detrimento de dois meses. Nunca tive essa ilusão.
Mas só espero que de alguma maneira sobre algo a ser lembrado, algo bem guardado. Assim como há em mim. Não consigo saber ainda o que eu farei com os meus dias e com essa minha cabeça teimosa, que insiste em pensar em você. Não me sobrou nenhum plano de ação além do de tentar ser feliz, mais uma vez.
Agora eu sei, que despedida é uma das piores coisas do mundo.