Adrenalina

(Da série que não deveria ter data)
Logo eu, que por tanto tempo evitei as filas de quatro horas por alegar queda de pressão, fui designada aos trilhos de madeira. Que por si só, sacolejam como batedeiras de bolo. Ainda sem um cinto de segurança que prende pelo peito, apenas uma barra fina na cintura. E de costas, pressionando o pescoço contra a gravidade, sempre de costas. Mas nunca para trás.
Logo eu, que sempre achei essa comparação muito fraca e previsível, percebi que nada tem sido diferente dos pontos médios que desenham o polígono de frequência. Com frequência pouco frequente: altíssimos ou baixíssimos pontos máximos e mínimos, repectivamente ou não. Verde e preto. Como um eletrocardiograma oscilante, agudo, preciso, pulsando e vivo.

Vivendo. Foi assim que já nem me lembro de como eu era há cinco minutos, apenas recordo de que estou onde eu, um dia, quis estar. E como já não é novidade: não era exatamente assim que eu imaginava.
Tudo tem acontecido, tudo tem mudado. Mas nada está acontecendo, e nada está mudando. É a luta dos extremos, ter tudo e nada ao mesmo tempo. Ter logo dois pássaros nas mãos, e ainda ver outros dois voando.

Não quero descer. Não sou bem aquela que grita pra acelerarem o controle, mas não pensei em ir para o carrossel. Tenho raras lembranças dos cavalos dourados, que se restringem a fundos de fotos. Sem lembranças do que ficou, ou do que me contaram. Lembro das curvas, do dragão vermelho na frente do primeiro lugar e da cauda espetada logo ao fim. 



Sou viciada em adrenalina, o tremer ansioso de uma perna sob a mesa é a espera pela próxima curva. E justamente ao contrário do que parece, não é um lugar na carruagem espelhada a resposta das perguntas. A calmaria e a música melancólica vão contra ao que corre nas minhas veias. O preenchimento das lacunas é o traçado de uma ferradura: dois extremos, ligados por um caminho curvado.


E logo eu, que pensei não  precisar de mais nada, nunca precisei tanto. Nunca achei que poderia ser tão necessário me livrar das lembranças dominicais. Nunca pensei que fosse assumir ser de pele e ossos e muito mortal, ao ponto de ser mal completada.

Mas eu não vou descer. Vou ficar bem aqui, à espera do looping que fará o mundo virar de ponta cabeça. Para que mesmo que eu veja o céu azul com nuvens brancas, eu retorne rapidamente ao eixo, e volte a ver o chão, mesmo que com a maior brutalidade possível. Já que dizem que o certo é o lado direito e ainda assim tudo continua virado, só me resta virar do avesso pra ver se assim alguma coisa passa a fazer sentido por aqui.

Deixe um comentário