Maionese

Diário de férias seis.
O acaso, o destino, a sorte ou simplesmente um acontecimento comum. Uma ligação não completada. Uma chamada não atendida. Ou quem sabe a força do pensamento.

Eu deveria estar enxergando nostalgia em cada passo que as pessoas davam. Ou quem sabe fosse o sentimento ingrato de domingo, pois todos estavam combinando com o céu cinza, sem gritos eufóricos, empolgação ou músicas pra dançar. Havia um aniversário ali, em meio a tantas blusas de frio e isso implica com planos e convidados.
Algumas situações constrangedoras típicas, dicas eficientes, colheradas de sinceridade após e eu estava vivendo meu dia de encerramento, minha última chance, as últimas fotos, os últimos esforços em ser alguém que eu gostaria de ser, as últimas piadas, as últimas risadas, os últimos goles. A derradeira.
Poucas palavras, alguns olhares desviados, a colocação distante no retrato. Meu consciente não sabia como tudo deveria ser, apesar de ter seu palpite racional e calculado; Já meu subconsciente tinha total certeza de como queria que tudo fosse, e até mesmo já estava pronto para criar esperanças ou desapontar-se.
Quando meus pés pisaram no asfalto da rua tranqüila, dois braços alheios não pensaram duas vezes em me empurrar, logo após a seqüência ansiosa das sobrancelhas, fazendo aquilo que as minhas próprias pernas não conseguiram fazer sozinhas: tomar proximidade.
Agora mesmo eu posso fechar os olhos e recordar o caminho que me leva ao T da história. A leve subida, o desvio na praça (dado um pouco para a esquerda), a passagem pelo piso mal terminado, algo que deveria ter sido uma fonte, e novamente à esquerda. Após atravessar a rua, a chegada onde deve-se seguir reto. As janelas da academia, as casas beges sujas de terra, o café e do outro lado, logo à direita, a casa da garagem aberta.
A garagem não estava aberta e não havia recepção com robe cor-de-rosa. Mas eu pude tomar cada detalhe decorativo como um cartão de entrada. Mais de dez pessoas, divididas em vídeo-game, violão, pipoca, e um jogo qualquer. Eu fiquei na equipe que mais me identifiquei: a da observação.
Ambiente amplo, três sofás, uma poltrona nos tacos de madeira. Logo na entrada um aparador com um espelho, uma estante para guardar a tevê. Cortinas longas e brancas. À direita uma cristaleira (mais uma, pois já havia outra ao centro), um piano com as teclas cobertas pelo veludo vermelho. Muitas fotos de família e quadros. Talvez formal e com muitos detalhes para a situação, mas após me sentar na banqueta do piano e respirar fundo, meus olhos puderam captar a menina com roupa de bailarina, os copos empoeirados, a escola retratada na tela, o tecido quase rendado da cortina, e até mesmo o tom amarelado que a luz deixou no ambiente.
Meu subconsciente não precisou mostrar muito ao meu consciente, pois somente o interesse incomum ao trocar a partida fictícia de futebol pelo jogo – literalmente – de olhares, já me mostrou o quão perto da família eu poderia estar. Não me lembro ao certo em que momento as pessoas foram tomando outras atividades e o sofá foi esvaziando, só pude prestar atenção na conversa paralela e na atenção redobrada a cada palavra recíproca.
Naquele momento eu teria levado outro empurrão caso minha bolsa ainda estivesse ocupando meu colo, e claro, se isso não fosse tão descarado e grosseiro. Apenas convivi com o gaguejo e as sussurradas nervosas, novamente com a dança das sobrancelhas e algumas risadas. Esperei o tempo suficiente para eu me convencer de estar agindo por mim e não pelos comandos direcionados para dar trabalho, ou função, aos meus braços tão perdidos e sem saber com o que se ocupar.
Algumas boas músicas, explicações sobre quadros e fotografias, promessas sobre o piano e então a boa e velha sinceridade. Meu subconsciente acertou em como as coisas deveriam ser e as esperanças foram superadas, sem mesmo precisar que fossem desapontadas.
Meus ouvidos até então atentos ao som da televisão, à música ou à conversa das garotas teve o foco inteiramente redirecionado quando começou a tocar uma melodia doce, leve e verdadeira. Não era uma música no ipod, tocada no violão ou até mesmo no piano. Eram palavras ditas em voz baixa, com sotaque e pausas cautelosas. Impossíveis de não arrancar sorrisos e evitar que a contagem regressiva se tornasse a cada momento mais dolorosa. Os pedidos para ficar, as revelações, as explicações e os planos datados para seis meses. Em meio à coceira desnecessária no nariz, proveniente da tensão momentânea, eu sabia que podia falar um pouco demais, porém já temia a reação posterior e todos os efeitos da abstinência.
Quando os detalhes captados do ambiente já me pareciam o mais familiar que eu já pude chegar, me chamaram para atender uma ligação. Enquanto eu respondia automaticamente a cada pergunta desnecessária e previsível aproveitei para captar um pouco mais. O bilhete colado logo ao lado do telefone, o calendário, a porta. Ao voltar tudo ainda era meu, e parecia ainda mais real. Real e não menos assustador… Minhas mãos, meu sorriso, minha reação e meu consciente estavam ocupados em processar tudo com rapidez e naturalidade, até que me desvencilhei num reflexo rápido e normal. Porém, não havia nada de errado naquilo, a não ser pra mim. Apesar de toda a vergonha, mantive-me próxima sem mostrar intimidade. Ao invés de lidar com um monstro de sete cabeças, apenas me vi de frente a uma mãe coruja, orgulhosa e simpática. Eu gostaria de poder usar cada dica que ela rapidamente me deu, mas todas elas foram inúteis, dada a distância que eu tomaria no dia seguinte.
Os estômagos roncaram, e mesmo que o meu parecesse nervoso demais para ingerir alguma coisa eu me levantei rumo à cozinha. Tratei de parecer uma boa pessoa e respeitar os limites de um lar, mas em meio a risadas (e mais sotaque) alguém parecia comemorar que todos os quadros, móveis e familiares o estavam vendo acompanhado.
Aquele era mais um cômodo novo e cheio de detalhes, apesar de parecer até mesmo familiar. Era revestido com janelas, havia uma mesa de madeira com várias cadeiras (afinal, sobraram apenas duas pessoas de pé), um armário de pratos e muitas risadas. Devorei meu lanche para que aquele momento desnecessário acabasse logo. Ou talvez eu estivesse realmente com fome. O molho que coloquei no pedaço a ser mordido pareceu ridículo perto dos lanches banhados a condimentos a minha volta. Enquanto um pouco de mostarda fez meu lanche um pouco mais saboroso, algumas pessoas disputavam por saquinhos transparentes com um creme bege. Ah, maionese. E segundo eles, a mais digna maionese caseira.
Ao retornar para a sala, eu já soube que não tinha muito mais que meia hora. Ouvi novamente a música doce em meus ouvidos que ficava a cada momento mais ansiosa, apressada, desesperada e quase triste. Ouvi uma música no piano seguida de frases superprotetoras. Reconheci a pasta de dente e segurei a vontade de rir por um ato tão engraçado e cuidadoso. Quando uma terceira voz, que até então só me deu empurrões e broncas, avisou que onze horas chegariam a quinze minutos, eu mesma pude sentir minha música desesperada e ainda assim otimista tentando ser desapegada. Tudo o que foi contido acabou por ser dito, e o que seria precipitado ou exagerado ficou guardado no silêncio com cheiro de roupa nova.
Despedi-me calmamente de cada pessoa na sala, agradecendo, sorrindo e prometendo meu retorno ansioso. Dez minutos. Um comparativo de altura, e a planta enroscando no meu cabelo. Quando o carro branco chegou, eu processei que não me restava mais um minuto sequer, apenas segundos urgentes. Eu volto, foi bom, cuide-se. Três curtas frases quase frias para conter o que deveria ficar guardado.
No banco de trás do carro, eu não ousei olhar para trás. Não deveria começar mal essa história de seis meses. E no vidro embaçado eu tive a besteira de escrever com o dedo a inicial do meu nome, só para distrair a felicidade e a nostalgia antecipada.
Enquanto eu guardava as últimas peças, recolhia o que ficou espalhado e procurei pelo o que poderia ser esquecido, fui tomada pela tristeza de já ter chegado a hora. Por ter passado tão rápido e por ter sido tudo tão incrivelmente bom.

O acaso, o destino, a sorte ou simplesmente um acontecimento comum. Uma semana bem aproveitada. Uma viagem bem vivida. Ou quem sabe uma fase boa, fechada com chave de ouro.

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