Diário de férias cinco
O maior sinal de que você acordou tarde demais não é chegar na cozinha e ver o almoço na mesa, é chegar na cozinha e o almoço já não estar mais na mesa… Mas talvez isso seja o melhor das férias: não ter horário, muito menos tempo ruim. Por mais que do lado de fora o céu esteja cinza, a temperatura tenha caído e tudo se resuma em água.
Quando São Pedro, ou sabe-se lá qual é o santo da meteorologia, deu uma chance pro nosso sábado, já estávamos a caminho de mais uma pérola interiorana. Quer dizer, uma pérola pra mim apenas…
As mesas de sinuca, a iluminação fraca, a entrada precária, a escada de pintura completamente fora de situação, o caixa escondido, o bar sem garrafas. O palco sem incrementação nenhuma, e as portas de enrolar abertas deixando a luz entrar. Toda a luminosidade focada nos equipamentos simples, deixando apenas sombrar pra quem observava de frente. E também a possibilidade de tornar-se cego em instantes.
Muita espera, pessoas típicas, alguns olhares, uma foto e muita música ensaiada depois, lá estava eu: vivendo um dos meus maiores dons. O da admiração. E talvez também o da paciência… Algumas pessoas não conseguem se conter, ou melhor, fazem questão de não se conter.
Não pude conter minha criatividade interagindo com o imaginário… E foi como estar fugindo pra Tijuana, vestindo jaquetas de couro, curtindo um pub mal lavado. Podiam estar me irritando, forçando a barra, fazendo pouco caso. Podia estar faltando assunto, sobrando cansaço, fome e vontade de sentar. Eu podia quase me sentir entediada, porque ainda assim tudo isso não seria suficiente pra abalar minha realização de estar curtindo um típico Clube do Rock.
E quando soltaram o pé do acelerador por poucos instantes, num solavanco aceleramos de novo. Um número inexato de pessoas, uma mesa comprida, duas garrafas, e muitas palavras mal combinadas na maioria das vezes.
Casa, cadeado, cachorro, computador, crioulo, carrapato, sapato, saia, sapo… Pode tomar!
A sinceridade ainda me assustou, ainda mais descarada e mal educada daquele jeito. Não estou numa competição, e não pretendo lucrar mais que ninguém só para não me sentir roída. Ainda mais nessas circunstâncias.
Todas elas ficam pequenas, desinteressantes e dignas de virar as costas como fiz não só literalmente. O céu estrelado, intenso, e quase constrangedor. A brisa gelada (não somente fresca, gelada), dando aquele gás inspirador, além do conforto, da vontade de fechar os olhos e se entregar na vibração positiva. Duvido que alguém ali sentiu o bem estar que eu pude sentir.