Vamos fazer virar realidade?

Enquanto eu me remexia na cama de calor e falta de sono, acabei pensando em algumas possibilidades da gente se encontrar, e alguns lugares em que a gente poderia se ver. Por simples falta do que pensar, afinal essa quase-insônia tem me forçado a ter uma criatividade imensa antes de dormir, simplesmente fiz uns pequenos planos caso realmente estivéssemos dispostos a nos ver e colocar a conversa em dia. Nada que tivesse grande destaque, até porque o dia seguinte me parecia ter acontecimentos mais surpreendentes que um simples passeio pela Avenida Paulista.
Eu só não imaginava que quando eu “acordasse” eu estaria realmente prestes a rever seu rosto. Tudo foi combinado de uma maneira bem simples e prática, e num piscar de olhos minha mãe estava me levando para a sua casa, por um caminho que me pareceu ser o do aeroporto – só que o aeroporto errado. Mas, apesar do caminho não me parecer o certo, não demorou para que eu estivesse na sua branca e enorme casa, muito bem arejada devido às janelas enormes de vidro.
No hall de entrada, havia uma chapeleira de madeira, e no patamar da escada – onde as paredes tinham uma coloração azul – havia uma mesa com tampo de vidro, com um vaso trabalhado e branco, cheio de flores. Uma casa grande igual a sua, eu só havia visto no filme “O Diabo veste Prada”.
Para a minha surpresa, fui recebida calorosamente pela sua mãe, que apesar de não me conhecer me tratou como se eu já fosse da sua família. Enquanto eu colocava minhas duas malas grandes e marrons, dentro de um quarto escuro – que mais tarde eu descobriria ser o seu -, alguma coisa aconteceu comigo.
E quando eu me dei conta, estávamos em uma grande festa. Numa festa de quinze anos, de alguma garota que eu mal sabia quem era, e você cansou de jurar que não havia problema algum pelo fato de eu não ter sido convidada.
A aniversariante não deu as caras durante toda a festa, se é que ela realmente existia. Mas eu pude reparar que a organização da festa deve ter sido muito trabalhosa pois o lugar era incrivelmente lindo, tinha ambientes descontraídos com suas paredes vermelho-berrante. Sem contar os espelhos em formatos variados e os globos de espelho pendurados em todos os ambientes.
Eu estava usando um vestido preto de dar inveja, super curtinho e justo. Estava muito bem combinado com saltos altos pretos, bem retrô. E como toque final, eu usava uma maquiagem um pouco pesada, e cabelos enrolados para ficarem propositalmente bagunçados. Tudo estava em perfeita harmonia, com exceção da minha enorme bolsa roxa que minha mãe costurou dias atrás. E algo me leva a crer, que além da bolsa exageradamente grande, eu carregava algumas sacolas de plástico e de lojas do shopping.
A festa estava tão lotada, que grande parte do tempo nós passamos dentro do banheiro. Que além de ser unissex, era todinho revestido por espelhos de ponta a ponta. Os lavatórios eram todos cromados e super brilhantes. A movimentação por lá era tão rotativa e repetitiva que por alguns momentos eu cheguei a suspeitar que o melhor da festa acontecesse por lá.
Quando por fim eu me decidi por usar o banheiro, cerca de duas pessoas simplesmente acharam normal entrarem no reservado junto comigo. E você ficou me olhando com aquela expressão calma, enquanto meu queixo caia. Após observar meu desespero em fase inicial, você apoiou cada uma das sacolas e minha bolsa roxa na pia – afinal, eu pedia incansavelmente para você segura-las pra mim, e me puxou pelo braço delicadamente fazendo com que aquelas duas pessoas esquisitas e com hábitos mais estranhos ainda, percebessem que eu não estava sozinha.
E de uma maneira mais doce ainda, você passou a mão pela minha cintura abaixando até o quadril – onde meu vestido era ainda mais justo – causando-me uma espécie de frenesi, pois por mais que ambos soubéssemos o que estava acontecendo naquele dia, não haviam sido dados sinais de que aquilo realmente era real.
Assim, saímos de mãos dadas daquilo que erroneamente recebeu o nome de banheiro, à procura de alguns de seus amigos. Quando os encontramos, não tivemos outra escolha além de nos sentarmos na escadaria de metal, pintada com um branco contrastante, porque todos os sofás, cadeiras, e poltronas estavam ocupados. Como se todos os convidados tivessem saído do banheiro decidindo sentar-se por um momento.
Aquele certamente foi um dos momentos mais doces da festa. Entre muitas risadas e conversas, inclusive com um dos garçons, eu pude ver como o seu sorriso irradiava felicidade. E a cada momento que você notava meu olhar fascinado pelos seus traços, você sorria ainda mais enquanto fazia carícias de leve na minha mão – que ainda continuava grudada na sua.
Tudo parecia incrivelmente bem e finalmente estável, até que numa fração de segundos já estávamos no carro voltando para sua casa. O carro movimentava-se suave pelo asfalto, mas havia algo estranho novamente. Somente nós dois estávamos naquele veículo, eu estava no banco do passageiro com minha bolsa roxa nos braços, e você estava curvado amarrando o cadarço do seu tênis enquanto mais uma vez gargalhava e dizia estar feliz.
De qualquer maneira, chegamos na sua casa. Você estava com outra roupa, vestindo agora uma pólo listrada vermelha e azul, e eu já não carregava mais minhas sacolas de plástico. Subimos as escadas ainda de mãos dadas, e novamente entre risos nos direcionamos para o quarto onde eu havia deixado minhas malas.
Ele já não estava mais na mesma escuridão de antes, pois havia uma enorme televisão ligada fazendo com que o quarto se enchesse de luz, o suficiente para revelar que haviam pessoas ali. Eram seus amigos, que também pareciam estar se divertindo pois riam muito enquanto jogavam vídeo-game.
Nós passamos abraçados pelo seu quarto, e você observou seus amigos como se aquilo fosse algo corriqueiro. Fomos em direção ao fim do corredor, onde depois de um estalo estávamos olhando o céu. Depois disso, tudo aconteceu rápido demais.
Quando eu voltei meu olhos para nós, você ainda estava ao meu lado, mas agora já havia soltado minha mão para se deitar na esteira em que sentamos. Eu estava segurando um ‘notebook’ no colo, e digitava tudo o que eu gostaria de te dizer, tudo que eu havia sentido nessa noite tão maluca.
Só que eu estava cometendo um grande erro, pois estava enviando isso tudo para outra pessoa que parecia se identificar com cada sentimento enquanto dizia sem parar “Como eu me apaixonei rápido!”. Quando eu realmente me dei conta de que estava me declarando para a pessoa errada, eu entrei em pânico por alguns segundos, e cheguei inclusive a pedir ajudas e conselhos para alguns amigos. Mas foram apenas segundos, porque você voltou a segurar a minha mão e sorriu.
E aquele momento não precisava de palavras, pois aqueles sorrisos e olhares brilhantes comprovavam: nós namorávamos, e como se isso não nos bastasse, éramos muito, mas muito felizes juntos.

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